Postagens

Mostrando postagens de agosto, 2024

Quingentésimo ano (245)

Ditosa penna, como a mão que a guia Com tantas perfeições da subtil arte, Que quando com razão venho a louvar-te, Em teus louvores perco a phantasia. Porém Amor, que effeitos varios cria, De ti cantar me manda em toda parte, Não em plectro belligero de Marte, Mas em suave e branda melodia. Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro pólo, Voando se levanta e te pregoa, Agora que ninguem te levantava. E porque immortal sejas, eis Apolo Te offerece de flores a coroa, Que ja de longo tempo te guardava.   Luís de Camões

Portas escancaradas

Portas escancaradas Reedição                                    Para a Suíça, um país com portas escancaradas, seguiram, no ano passado, 12.000 portugueses, para ajudarem a Suíça a ser ainda mais rica. Por cá, a direita quer as portas fechadas, principalmente, aos oriundos do Oriente, enquanto o Governo diz não querer as portas nem escancaradas, nem fechadas, não se sabendo bem o que querem. Dizem que querem que os emigrantes tenham condições dignas, o que acho muito bem. Até que os hotéis de 5 estrelas estejam prontos, para acomodarem os imigrantes, os comerciantes e industriais, bem se podem queixar que não têm trabalhadores, para manterem e expandirem os seus negócios. Quanto ao referendo do Ventura, que sem assunto para manter as redes sociais, a tudo deita mão, para o país incendiar, mesmo sabendo que nada vai dar, o que lhe interessa é guerrear. Se precisamos de imigrantes, como pão para a boca, por que razão damos ouvidos a pessoas, que não respeitam os outros indivíduos? Ningué...

Quingentésimo ano (244)

Despois que vio Cibele o corpo humano Do formoso Atys seu verde pinheiro, Em piedade o vão furor primeiro Convertido, chorava o grave dano. E, á sua dor fazendo illustre engano, A Jupiter pedio, que o verdadeiro Preço da nobre palma e do loureiro Ao seu pinheiro désse, soberano. Mais lhe concede o filho poderoso Que, crescendo, as estrellas tocar possa, Vendo os segredos lá do ceo superno. Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso Quem se vir coroar da rama vossa, Cantando á vossa sombra verso eterno! Luís de Camões

Quingentésimo ano (243)

De piedra, de metal, de cosa dura, El alma dura ninfa os ha vestido, Pues el cabello es oro endurecido, Y marmol es la fronte en su blancura.   Los ojos, esmeralda verde y escura; Granata las mexillas; no fingido, El labrio es un robi no poseydo; Losblancos dientes son de perla pura.   La mano de marfil, y  la garganta De alabastro, por donde como yedra Las venas van de azul mui rutilante.   Mas lo que más en toda vos me espanta, Es ver que, por que todo fuese piedra, Teneis el corazón como diamante. Luís de Camões  

Portas escancaradas!

Portas escancaradas                                    Para a Suíça, um país com portas escancaradas, seguiram, no ano passado, 12.000 portugueses, para ajudarem a Suíça a ser ainda mais rica. Por cá, a direita quer as portas fechadas, principalmente, aos oriundos do Oriente, enquanto o Governo diz não querer as portas nem escancaradas, nem fechadas, não se sabendo bem o que querem. Dizem que querem que os emigrantes tenham condições dignas, o que acho muito bem. Até que os hotéis de 5 estrelas estejam prontos, para acomodarem os imigrantes, os comerciantes e industriais, bem se podem queixar que não têm trabalhadores, para manterem e expandirem os seus negócios. Quanto ao referendo do Ventura, que sem assunto para manter as redes sociais, a tudo deita mão, para o país incendiar, mesmo sabendo que nada vai dar, o que lhe interessa é guerrear. Se precisamos de imigrantes, como pão para a boca, por que razão damos ouvidos a pessoas, que não respeitam os outros indivíduos? Ninguém se esqu...

O Império

  O Império  -  As teias que o Império teceu   76 A Anastácia estava felicíssima por voltar a ter um companheiro, mesmo que a sociedade a censurasse por a sua decisão ir contra os bons costumes de viúvas e viúvos não voltarem a casar Como era uma mulher muito à frente do seu tempo, não se preocupava com o que dissessem da sua decisão Mesmo assim, quis saber a opinião da Marina e do Roberto, que lhe disseram que era uma ótima notícia, que aceitasse, porque o Elisiário parecia ser uma pessoa boa, capaz de a fazer muito feliz, e que eles também ficariam muito contentes, não só pela possibilidade de voltar a ser muito feliz, mas por a deixarem acompanhada, quando tivesse de voltar para Lunda, facto que os atormentava há muito tempo Até já tinham pensado em convidá-la, para os acompanhar no regresso a África, para que não voltasse a ficar sozinha, depois dos felizes anos, que tinham passado juntos Ficou muito comovida por terem tão grande coração, agradeceu-lhes muito a boa intenção, mas nu...

Quingentésimo ano (242)

De tão divino accento em voz humana, De elegancias que são tão peregrinas, Sei bem que minhas obras não são dinas; Que o rudo engenho meu me desengana. Porém da vossa penna illustre mana Licor que vence as águas Caballinas; E comvosco do Tejo as flores finas Farão inveja á cópia Mantuana. E pois, a vós de si não sendo avaras, As filhas de Mnemosine formosa Partes dadas vos tẽe ao mundo claras; A minha Musa, e a vossa tão famosa, Ambas se podem nelle chamar raras, A vossa de alta, a minha de invejosa. Luís de Camões

Quingentésimo ano (241)

Como quando do mar tempestuoso O marinheiro todo trabalhado, De hum naufragio cruel sahindo a nado, Só de ouvir fallar nelle está medroso: Firme jura que o vê-lo bonançoso Do seu lar o não tire socegado; Mas esquecido ja do horror passado, Delle a fiar se torna cobiçoso: Assi, Senhora, eu que da tormenta De vossa vista fujo, por salvar-me, Jurando de não mais em outra ver-me; Com a alma que de vós nunca se ausenta, Me tórno, por cobiça de ganhar-me, Onde estive tão perto de perder-me. Luís de Camões

Quingentésimo ano (240)

Bem sei, Amor, que he certo o que receio; Mas tu, porque com isso mais te apuras, De manhoso mo negas, e mo juras Nesse teu arco de ouro; e eu te creio. A mão tenho metida no meu seio, E não vejo os meus damnos ás escuras: Porém porfias tanto e me asseguras, Que me digo que minto, e que me enleio. Nem somente consinto neste engano, Mas inda to agradeço, e a mi me nego Tudo o que vejo e sinto de meu dano. Oh poderoso mal a que me entrego! Que no meio do justo desengano Me possa inda cegar hum moço cego? Luís de Camões

Quingentésimo ano (239)

Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? Foi voluntaria, ou foi por innocencia? He que Amor fazer só quiz exp'riencia Se podia eu soffrer tirar-me a vida. E com teu proprio sangue te convida A que faças á morte resistencia? He que costume faço da paciencia, Porque o temor morrer me não impida. Pois porque estás comendo fogo ardente, Se a ferro te costumas? He que ordena Amor que morra, e pene juntamente. E tẽes a dor do ferro por pequena? Si; que a dor costumada não se sente; E não quero eu a morte sem a pena. Luís de Camões

Quingentésimo ano (238)

Vós, Ninfas da gangética espessura, cantai suavemente, em vez sonora, um grande Capitão, que a roxa Aurora dos filhos defendeu da noite escura. Ajuntou-se a caterva negra e dura, que na Áurea Quersoneso afouta mora, para lançar do caro ninho fora aqueles que mais podem que a ventura. Mas um forte Leão, com pouca gente, a multidão tão fera como nécia destruindo castiga e torna fraca. Pois, ó Ninfas, cantai! que claramente mais do que Leonidas fez em Grécia, o nobre Leonis fez em Malaca. Luís de Camões

Quingentésimo ano (237)

Vossos olhos, Senhora, que competem Com o sol em belleza e claridade, Enchem os meus de tal suavidade, Que em lagrimas de vê-los se derretem. Meus sentidos prostrados se submetem Assi cegos a tanta magestade; E da triste prisão, da escuridade, Cheios de medo, por fugir, remetem. Porém se então me vêdes por acêrto, Esse aspero desprêzo com que olhais Me torna a animar a alma enfraquecida. Oh gentil cura! Oh estranho desconcêrto! Que dareis co'hum favor que vós não dais, Quando com hum desprêzo me dais vida? Luís de Camões

Quingentésimo ano (236)

Vós, que de olhos suaves e serenos, Com justa causa a vida captivais, E que os outros cuidados condemnais Por indevidos, baixos e pequenos; Se de Amor os domesticos venenos Nunca provastes, quero que sintais Que he tanto mais o amor despois que amais, Quanto são mais as causas de ser menos. E não presuma alguem que algum defeito, Quando na cousa amada se apresenta, Possa diminuir o amor perfeito: Antes o dobra mais; e se atormenta, Pouco a pouco desculpa o brando peito; Que Amor com seus contrarios se accrescenta. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu   75  Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, em 1511, na Malásia, ao tomar conhecimento da localização secreta das chamadas “ ilhas das especiarias”, ordenou a partida dos primeiros navios para o sudeste asiático, comandados por António de Abreu e por Francisco Serrão, guiados por pilotos malaios. Foram os primeiros europeus a chegar às Ilhas Banda, nas ilhas Molucas. A nau de Serrão encalhou próximo a Ceram, e o sultão de Ternate, Abu Lais, entrevendo uma oportunidade de aliar-se com uma poderosa nação estrangeira, levou os tripulantes para Ternate em 1512.A partir de então os portugueses foram autorizados a erguer uma fortificação-feitoria na ilha, na passagem para o oceano Pacífico: o Forte de São João Baptista de Ternate. Em maio de 1513, navegando de Malaca (atual Malásia), Jorge Álvares foi o primeiro europeu a atingir o Sul da China. Seguiu-se o estabelecimento de algumas feitorias portuguesas na província de Cantão, onde se viria a e...

Quingentésimo ano (235)

Vós outros, que buscais repouso certo Na vida, com diversos exercicios; A quem, vendo do mundo os beneficios, O regimento seu fica encoberto; Dedicae, se quereis, ao Desconcêrto Novas honras e cegos sacrificios; Que, por castigo igual de antiguos vicios, Quer Deos que andem as cousas por acêrto. Não cahio neste modo de castigo Quem poz culpa á Fortuna, quem somente Crê que acontecimentos ha no mundo. A grande experiencia he grão perigo: Mas o que a Deos he justo e evidente Parece injusto aos homens e profundo. Luís de Camões

Quingentésimo ano (234)

Verdade, Amor, Razão, Merecimento, Qualquer alma farão segura e forte; Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte, Tẽe do confuso mundo o regimento. Effeitos mil revolve o pensamento, E não sabe a que causa se reporte: Mas sabe que o que he mais que vida e morte Não se alcança de humano entendimento. Doctos varões darão razões subidas; Mas são as exp'riencias mais provadas: E por tanto he melhor ter muito visto. Cousas ha hi que passão sem ser cridas: E cousas cridas ha sem ser passadas. Mas o melhor de tudo he crer em Christo. Luís de Camões

Quingentésimo ano (233)

Vencido está de amor Meu pensamento O mais que póde ser, Vencida a vida, Sujeita a vos servir e Instituida, Oferecendo tudo A vosso intento.   Contente deste bem Louva o momento, Ou hora em que se vio Tão bem perdida; Mil vezes desejando, Assi ferida, Outras mil renovar Seu perdimento.   Com esta pretenção Está segura A causa que me guia Nesta empreza Tão sobrenatural, Honrosa, e alta.   Jurando não querer Outra ventura, Votando só por vós Rara firmeza, Ou ser no vosso amor Achado em falta.   Luís de Camões

Quingentésimo ano (232)

Vai-me gastando Amor e um pensamento que me inclina a seguir meus próprios danos, a esperança, o ser, o gosto e os anos, que para mi são mil cada momento. Os suspiros que em vão entrego ao vento paga-mos quem mos causa em desenganos; e, se quero fingir novos enganos, não mos quer consentir o entendimento. Se pretendo mostrar quanto padeço, falta-me a voz, o alento e o sentido; e a triste vida, não, porque a aborreço. O peito em vivas chamas convertido, enfim, mostre seu mal, pois já confesso que nem dizer se pode nem ser crido. Luís de Camões      

Quingentésimo ano (231)

Huma admiravel herva se conhece, Que vai ao sol seguindo de hora em hora, Logo que elle do Euphrates se vê fóra, E quando está mais alto, então florece. Mas quando ao Oceano o carro dece, Toda a sua belleza perde Flora, Porque ella se emmurchece e se descora: Tanto co'a luz ausente se entristece! Meu sol, quando alegrais esta alma vossa, Mostrando-lhe esse rosto que dá vida, Cria flores em seu contentamento. Mas logo, em não vos vendo, entristecida Se murcha e se consume em grão tormento: Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa. Luís de Camões          

Quingentésimo ano (230)

Hum mover de olhos, brando e piedoso, Sem ver de que; hum riso brando e honesto, Quasi forçado; hum doce e humilde gesto, De qualquer alegria duvidoso: Hum despejo quieto e vergonhoso; Hum repouso gravissimo e modesto; Huma pura bondade, manifesto Indicio da alma, limpo e gracioso: Hum encolhido ousar; huma brandura; Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno; Hum longo e obediente soffrimento: Esta foi a celeste formosura Da minha Circe, e o magico veneno Que pôde transformar meu pensamento. Luís de Camões              

Quingentésimo ano (229)

Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar: Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nella está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente póde descansar, Pois com elle tal alma está liada. Mas esta linda e pura semidea, Que como o accidente em seu sojeito, Assi com a alma minha se confórma; Está no pensamento como idea; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a materia simples busca a fórma. Luís de Camões      

Quingentésimo ano (228)

Tornae essa brancura á alva assucena, E essa purpurea côr ás puras rosas; Tornae ao sol as chammas luminosas De essa vista que a roubos vos condena. Tornae á suavissima sirena D'essa voz as cadencias deleitosas: Tornae a graça ás Graças, que queixosas Estão de a ter por vós menos serena: Tornae á bella Venus a belleza; A Minerva o saber, o engenho, e a arte; E a pureza á castissima Diana. Despojae-vos de toda essa grandeza De dões; e ficareis em toda parte Comvosco só, que he só ser inhumana. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu   74 Chegara o dia do nascimento. A Anastácia já tinha sossegado a Marina, dizendo-lhe que já tinha assistido a alguns partos e que tinha corrido tudo bem O bebé preparava-se para deixar o aconchego do ventre materno, para enfrentar um mundo maravilhoso, mas onde, também, há muita violência, muito ódio, ganância, desigualdades, guerras sem fim, racismo, tanta coisa ruim, que só o homem é capaz de praticar Mas, este bebé tinha a sorte de ter quatro pessoas à sua espera, para lhe darem o melhor que conseguissem, na esperança que fosse muito feliz Foram longas e dolorosas as horas de parto, primeiro que o Afonso decidisse enfrentar o seu novo mundo, mas acabou por correr tudo bem Os jovens pais e a Anastácia estavam felicíssimos, um menino para encher de alegria a grande casa, a Mariana e o Roberto só pensavam nos familiares, queriam tanto que eles os acompanhassem naquele momento de imensa felicidade, mas, infelizmente, estavam tão longe, certam...

Quingentésimo ano (227)

Tomou-me vossa vista soberana Adonde tinha as armas mais á mão, Por mostrar a quem busca defensão Contra esses bellos olhos, que se engana. Por ficar da victoria mais ufana, Deixou-me armar primeiro da razão. Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão, Que contra o Ceo não val defensa humana. Com tudo, se vos tinha promettido O vosso alto destino esta victoria, Ser-vos ella bem pouca está entendido. Pois, indaque eu me achasse apercebido, Não levais de vencer-me grande gloria, Eu a levo maior de ser vencido. Luís de Camões

Quingentésimo ano (226)

Tomava Daliana por vingança Da culpa do pastor que tanto amava, Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava O êrro alheio, e perfida esquivança. A discrição segura, a confiança Das rosas que o seu rosto debuxava, O descontentamento lhas mudava; Que tudo muda huma aspera mudança. Gentil planta disposta em sêcca terra; Lindo fructo de dura mão colhido; Lembranças de outro amor, e fé perjura, Tornárão verde prado em serra dura; Interêsse enganoso, amor fingido, Fizerão desditosa a formosura. Luís de Camões

Quingentésimo ano (225)

Todo animal da calma repousava, Só Liso o ardor della não sentia; Que o repouso do fogo, em que elle ardia, Consistia na Nympha que buscava. Os montes parecia que abalava O triste som das mágoas que dizia: Mas nada o duro peito commovia, Que na vontade de outro posto estava. Cansado ja de andar por a espessura, No tronco de huma faia, por lembrança, Escreve estas palavras de tristeza Nunca ponha ninguem sua esperança Em peito feminil, que de natura Somente em ser mudavel tẽe firmeza. Luís de Camões                

Quingentésimo ano (224)

Todas as almas tristes se mostravam pela piadade do Feitor divino, onde, ante o seu aspecto benino, o devido tributo lhe pagavam. Meus sentidos então livres estavam (que até i foi costume o seu destino), quando uns olhos, de que eu não era dino, a furto da Razão me salteavam. A nova vista me cegou de todo; nasceu do descostume a estranheza da suave e angélica presença. Pera remediar-me não há i modo? Oh! porque fez a humana natureza entre os nascidos tanta diferença? Luís de Camões

Quingentésimo ano (223)

Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa juntamente chóro e rio; O mundo todo abarco, e nada apérto. He tudo quanto sinto hum desconcêrto: Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio; Agora espero, agora desconfio; Agora desvarío, agora acérto. Estando em terra, chego ao ceo voando; N'hum'hora acho mil annos, e he de geito Que em mil annos não posso achar hum'hora. Se me pergunta alguem, porque assi ando, Respondo, que não sei: porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. Luís de Camões

Quingentésimo ano (222)

Coitado! que em hum tempo chóro e rio; Espero e temo, quero e aborreço; Juntamente me allegro e me entristeço; Confio de huma cousa e desconfio. Vôo sem azas; estou cego e guio; Alcanço menos no que mais mereço; Entaõ fallo melhor, quando emmudeço; Sem ter contradiçaõ sempre porfio. Possivel se me faz todo o impossivel; Intento com mudar-me estar-me quedo; Usar de liberdade, e ser captivo; Queria visto ser, ser invisivel; Ver-me desenredado, amando o enredo: Taes os extremos são com que hoje vivo! Luís de Camões    

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu   73 Nos séculos XVI e XVII, as Molucas eram as chamadas “ Ilhas das Especiarias”. Naquela época eram as únicas fornecedoras mundiais de noz-moscada e cravo-da-Índia, especiarias extremamente valorizadas nos mercados europeus, vendidas por mercadores árabes à República de Veneza a preços exorbitantes, com os negociantes a nunca divulgarem a localização exata da origem. Em 1511-1512, os portugueses foram os primeiros Europeus a chegar às Molucas, à procura das afamadas especiarias. Os holandeses, os espanhóis e outros reinos locais, como Ternate e Tidore, disputaram o controlo do lucrativo comércio de especiarias. As árvores de noz-moscada e cravo-da-Índia foram, posteriormente, transplantadas no mundo inteiro, o que reduziu a importância internacional da região. A Junta de Badajoz-Elvas foi uma negociação diplomática entre as Coroas de Espanha e Portugal, visando encaminhar a chamada questão das Molucas A Junta reuniu-se de 11 de Abril a 31 de...

Quingentésimo ano (221)

Tal mostra de si dá vossa figura, Sibela, clara luz da redondeza, Que as fôrças e o poder da natureza Com sua claridade mais apura. Quem confiança ha visto tão segura, Tão singular esmalte da belleza, Que não padeça mal de mais graveza, Se resistir a seu amor procura? Eu, pois, por escusar tal esquivança, A razão sujeitei ao pensamento, A quem logo os sentidos se entregárão. Se vos offende o meu atrevimento, Inda podeis tomar nova vingança Nas reliquias da vida que ficárão. Luís de Camões

Quingentésimo ano (220)

Sustenta meu viver ũa esperança derivada de um bem tão desejado que, quando nela estou mais confiado, mor dúvida me põe qualquer mudança. E quando inda este bem na mor pujança de seus gostos me tem mais enlevado, me atormenta então ver eu que, alcançado será por quem de vós não tem lembrança. Assi que nestas redes enlaçado, a penas dou a vida, sustentando ũa nova matéria a meu cuidado; suspiros d'alma tristes arrancando, dos silvos de ũa pedra acompanhado, estou matérias tristes lamentando. Luís de Camões

Quingentésimo ano (219)

Suspiros inflammados que cantais A tristeza com que eu vivi tão ledo, Eu morro e não vos levo, porque hei medo Que ao passar do Letheio vos percais. Escriptos para sempre ja ficais Onde vos mostrarão todos co'o dedo, Como exemplo de males; e eu concedo Que para aviso de outros estejais. Em quem, pois, virdes largas esperanças De Amor e da Fortuna, (cujos danos Alguns terão por bem-aventuranças) Dizei-lhe, que os servistes muitos anos, E que em Fortuna tudo são mudanças, E que em Amor não ha senão enganos. Luís de Camões              

Quingentésimo ano (218)

Sete annos de pastor Jacob servia Labão, pae de Raquel, serrana bella: Mas não servia ao pae, servia a ella, Que a ella só por premio pertendia. Os dias na esperança de hum só dia Passava, contentando-se com vella: Porém o pae, usando de cautella, Em lugar de Raquel lhe deo a Lia. Vendo o triste Pastor que com enganos Assi lhe era negada a sua Pastora, Como se a não tivera merecida; Começou a servir outros sete annos, Dizendo: Mais servíra, senão fôra Para tão longo amor tão curta a vida. Luís de Camões

Quingentésimo ano (217)

Sentindo-se alcançada a bella esposa De Céphalo no crime consentido, Para os montes fugia do marido; E não sei se de astuta, ou vergonhosa. Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa, Da cegueira obrigado de Cupido, Apos ella se vai como perdido, Ja perdoando a culpa criminosa. Deita-se aos pés da Nympha endurecida, Que do cioso engano está aggravada; Ja lhe pede perdão, ja pede a vida. Oh fôrça d'affeição desatinada! Que da culpa contr'elle commettida, Perdão pedia á parte que he culpada! Luís de Camões

Quingentésimo ano (216)

Gentil Senhora, se a Fortuna imiga, Que contra mi com todo o Ceo conspira, Os olhos meus de ver os vossos tira, Porque em mais graves casos me persiga; Comigo levo esta alma, que se obriga Na mor pressa de mar, de fogo, e d'íra, A dar-vos a memoria, que suspira Só por fazer comvosco eterna liga. Nesta alma, onde a fortuna póde pouco, Tão viva vos terei, que frio e fome, Vos não possão tirar, nem mais perigos. Antes, com som de voz trémulo e rouco Por vós chamando, só com vosso nome Farei fugir os ventos, e os imigos. Luís de Camões

Quingentésimo ano (215)

Senhora já dest' alma, perdoai de um vencido de Amor os desatinos; e sejam vossos olhos tão beninos com este puro amor, que d'alma sai. A minha pura fé somente olhai, e vede meus extremos se são finos; e se de algüa pena forem dinos, em mim, Senhora minha, vos vingai. Não seja a dor, que abrasa o triste peito, causa por onde pene o coração, que tanto em firme amor vos é sujeito. Guardai-vos do que alguns, Dama, dirão; que, sendo raro em tudo vosso objeito, possa morar em vós ingratidão. Luís de Camões    

O orçamento

 O orçamento Bem-vindo Agosto   O país vai de férias, os políticos, também, mas a corrupção não tira férias, está sempre a trabalhar Há seis meses que dois assuntos preocupam Portugal: os critérios para a escolha da nova procuradora e a aprovação do orçamento Quanto á procuradora, num dos critérios todos estão de acordo: tem de saber comunicar, o resto é para adornar. Mas, ainda há quem se preocupe se deve usar calças ou saias, se os sapatos, as meias, as cuecas, o sutiã, a camisa devem ser de “marca”, ou não Mas, nestas férias os políticos vão para banhos com a preocupação da aprovação do orçamento, que para mim, que não sou dos que nunca se enganam ou nunca erram, está garantida A pressão, para que isso aconteça, tem sido constante, porque a aprovação do orçamento, para este Governo, é o seu sustento O PS não precisa de engolir sapos, para viabilizar o orçamento, porque o Ventura, com mais ou menos chantagens, viabilizará todos os orçamentos, a menos que as sondagens lhe deem a maior...