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Mostrando postagens de fevereiro, 2024

Quingentésimo ano (61)

Dos ilustres antigos que deixaram tal nome, que igualou fama à memória, ficou por luz do tempo a larga história dos feitos em que mais se assinalaram. Se se com cousas destes cotejaram mil vossas, cada üa tão notória, vencera a menor delas a mor glória que eles em tantos anos alcançaram. A glória sua foi; ninguém lha tome. Seguindo cada um vários caminhos, estátuas levantando no seu Templo. Vós, honra portuguesa e dos Coutinhos, ilustre Dom João, com melhor nome a vós encheis de glória e a nós de exemplo. Luís de Camões

Quingentésimo ano (60)

Doces lembranças da passada glória, Que me tirou fortuna roubadora, Deixai-me descansar em paz uma hora, Que comigo ganhais pouca vitória. Impressa tenho na alma larga história Deste passado bem, que nunca fora; Ou fora, e não passara: mas já agora Em mim não pode haver mais que a memória. Vivo em lembranças, morro de esquecido De quem sempre devera ser lembrado, Se lhe lembrara estado tão contente. Oh quem tornar pudera a ser nascido! Soubera-me lograr do bem passado, Se conhecer soubera o mal presente. Luís de Camões

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 50 A última expedição brasileira a Angola foi em 1671, 200 mulatos nordestinos participaram na batalha conhecida como Pungo Adungo. Quando saiu de vez do território angolano, o Brasil deixou muito bem estabelecido por lá um forte comércio de fumo e cachaça, que conquistou os traficantes de escravos até à sua proibição A cooperativa estava a tornar-se numa grande família, o casamento do Zacarias, filho da Miquelina e do Ezequiel, com a Milay, filha de um casal cooperante, cujo namoro já durava há muito tempo, fez com que as duas famílias ficassem muito felizes Os jovens começavam a ocupar o lugar dos pais, tanto na produção como na gestão da cooperativa, o que fez com que mais jovens aderissem ao projeto A Rosinha e o Januário continuavam a saborear a reforma, que lhes foi imposta pelos filhos, que não queriam que eles voltassem para os trabalhos do campo, dizendo-lhes, que aproveitassem bem o tempo, porque mais tarde ou mais cedo apareceriam os ...

Quingentésimo ano (59)

Pois meus olhos não cansam de chorar Tristezas não cansadas de cansar-me; Pois não se abranda o fogo em que abrasar-me Pôde quem eu jamais pude abrandar; Não canse o cego Amor de me guiar Donde nunca de lá possa tornar-me; Nem deixe o mundo todo de escutar-me, Enquanto a fraca voz me não deixar. E se em montes, se em prados, e se em vales Piedade mora alguma, algum amor Em feras, plantas, aves, pedras, águas; Ouçam a longa história de meus males, E curem sua dor com minha dor; Que grandes mágoas podem curar mágoas. Luís de Camões  

Quingentésimo ano (58)

Os vestidos Elisa revolvia que lh’Eneias deixara por memória: doces despojos da passada glória, doces, quando seu Fado o consentia. Entr’eles a fermosa espada via que instrumento foi da triste história; e, como quem de si tinha a vitória, falando só com ela, assi dezia: -Fermosa e nova espada, se ficaste só para executares os enganos de quem te quis deixar, em minha vida, Sabe que tu comigo t’enganaste; que, para me tirar de tantos danos, sobeja me a tristeza da partida. Luís de Camões  

Quingentésimo ano (57)

Na ribeira do Eufrates assentado, discorrendo me achei pela memória aquele breve bem, aquela glória, que em ti, doce Sião, tinha passado. Da causa de meus males perguntado me foi: Como não cantas a história de teu passado bem, e da vitória que sempre de teu mal hás alcançado? Não sabes, que a quem canta se lhe esquece o mal, inda que grave e rigoroso? Canta, pois, e não chores dessa sorte. Respondo com suspiros: Quando crece a muita saudade, o piadoso remédio é não cantar senão a morte. Luís de Camões

Quingentésimo ano (56)

Quando cuido no tempo que, contente, vi as pérolas, neve, rosa e ouro, como quem vê por sonhos um tesouro, parece tenho tudo aqui presente. Mas tanto que se passa este acidente, e vejo o quão distante de vós mouro, temo quanto imagino por agouro, porque d’imaginar também me ausente. Já foram dias em que por ventura vos vi, Senhora (se, assi dizendo, posso co coração seguro estar sem medo); Agora, em tanto mal não mo assegura a própria fantasia e nojo vosso: eu não posso entender este segredo! Luís de Camões

Quingentésimo ano (55)

Se de vosso fermoso e lindo gesto nasceram lindas flores para os olhos, que para o peito são duros abrolhos, em mim se vê mui claro e manifesto: pois vossa fermosura e vulto honesto em os ver, de boninas vi mil molhos; mas se meu coração tivera antolhos, não vira em vós seu dano o mal funesto. Um mal visto por bem, um bem tristonho, que me traz elevado o pensamento em mil, porém diversas, fantasias, nas quais eu sempre ando, e sempre sonho; e vós não cuidais mais que em meu tormento, em que fundais as vossas alegrias. Luís de Camões

Quingentésimo ano (54)

Nunca em amor danou o atrevimento; Favorece a Fortuna a ousadia; Porque sempre a encolhida cobardia De pedra serve ao livre pensamento. Quem se eleva ao sublime Firmamento, A Estrela nele encontra que lhe é guia; Que o bem que encerra em si a fantasia, São umas ilusões que leva o vento. Abrir-se devem passos à ventura; Sem si próprio ninguém será ditoso; Os princípios somente a Sorte os move. Atrever-se é valor e não loucura; Perderá por cobarde o venturoso Que vos vê, se os temores não remove. Luís de Camões

Quingentésimo ano (53)

Pensamentos, que agora novamente cuidados vãos em mim ressuscitais, dizei me: ainda não vos contentais de terdes, quem vos tem, tão descontente? Que fantasia é esta, que presente cad’hora ante meus olhos me mostrais? Com sonhos e com sombras atentais quem nem por sonhos pode ser contente? Vejo vos, pensamentos, alterados e não quereis, d’esquivos, declarar me que é isto que vos traz tão enleados? Não me negueis, se andais para negar me; que, se contra mim estais alevantados, eu vos ajudarei mesmo a matar me. Luís de Camões

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 49 Depois, foi a vez de pedirem à Rosinha e ao Januário, que contassem a história do seu encontro O Januário não queria revelar as circunstâncias em que tinha conhecido a Rosinha, mas esta disse que não havia mal nenhum em revelarem o abrupto encontro deles  A Rosinha começou por dizer que o mais difícil foi a comunicação, não conseguiam dizer um ao outro o que queriam, mas os gestos e o tato foram muito importantes, o insuportável foi viver, todos os dias, a pensar no sofrimento dos familiares, sem saberem o que lhe tinha acontecido Mas não tinha maneira de lho dizer, só quando começaram a entender o que cada um queria, é que ela lhe fez sentir quão a sua família deveria estar a sofrer Não foi fácil convencê-lo, porque ele estava com receio da reação da família dela, e não era caso para menos: tinha raptado a sua familiar, e isso era imperdoável, a não ser que a Rosinha o defendesse Foi isso que o Januário tentou durante o tempo em que ela este...

Quingentésimo ano (52)

Fiou se o coração, de muito isento, de si cuidando mal, que tomaria tão ilícito amor tal ousadia, tal modo nunca visto de tormento. Mas os olhos pintaram tão a tento outros que visto tem na fantasia, que a razão, temerosa do que via, fugiu, deixando o campo ao pensamento. Ó Hipólito casto, que, de jeito, de Fedra, tua madrasta, foste amado, que não sabia ter nenhum respeito: em mim vingou o amor teu casto peito; mas está desse agravo tão vingado, que se arrepende já do que tem feito. Luís de Camões

Quingentésimo ano (51)

Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto, um desconcerto; da alma um fogo me sai, da vista um rio; agora espero, agora desconfio, agora desvario, agora acerto   Estando em terra, chego ao Céu voando, nũ’ hora acho mil anos, e é de jeito que em mil anos não posso achar ũ' hora. Se me pergunta alguém porque assi ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora.   Luís de Camões  

Quingentésimo ano (50)

Porque quereis, Senhora, que ofereça A vida a tanto mal como padeço? Se vos nasce do pouco que mereço, Bem por nascer está quem vos mereça. Entendei que, enfim, por muito que vos peça, Poderei merecer quanto vos peço; Pois não consente Amor que em baixo preço Tão alto pensamento se conheça. Assim que a paga igual de minhas dores, Com nada se restaura, mas deveis ma, Por ser capaz de tantos desfavores. E se o valor de vossos amadores Houver de ser igual convosco mesma, Vós só convosco mesma andai de amores.     Luís de Camões

Quingentésimo ano (49)

Depois de tantos dias mal gastados, Depois de tantas noites mal dormidas, Depois de tantas lágrimas vertidas, Tantos suspiros vãos vãmente dados, Como não sois vós já desenganados, Desejos, que de cousas esquecidas Quereis remediar mortais feridas, Que amor fez sem remédio, o tempo, os Fados? Se não tivéreis já longa exp’riência Das sem-razões de Amor a quem servistes, Fraqueza fora em vós a resistência. Mas pois por vosso mal seus males vistes, Que o tempo não curou, nem larga ausência, Qual bem dele esperais, desejos tristes?   Luís de Camões

Quingentésimo ano (48)

Quando da bela vista e doce riso Tomando estão meus olhos mantimento, Tão elevado sinto o pensamento, Que me faz ver na terra o Paraíso. Tanto do bem humano estou diviso, Que qualquer outro bem julgo por vento: Assim que em termo tal, segundo sento, Pouco vem a fazer quem perde o siso. Em louvar-vos, Senhora, não me fundo; Porque quem vossas graças claro sente, Sentirá que não pode conhecê-las. Pois de tanta estranheza sois ao mundo, Que não é de estranhar, dama excelente, Que quem vos fez fizesse céu e estrelas. Luís de Camões

Quingentésimo ano (47)

Que pode já fazer minha ventura que seja para meu contentamento., Ou como fazer devo fundamento de cousa que o não tem, nem é segura? Que pena pode ser tão certa e dura que possa ser maior que meu tormento? Ou como receará meu pensamento os males, se com eles mais se apura? Como quem se costuma de pequeno com peçonha criar por mão ciente, da qual o uso já o tem seguro; assi de acostumado co veneno, o uso de sofrer meu mal presente me faz não sentir já nada o futuro.   Luís de Camões

Mulher e Amor

Mulher e Amor   Cada mulher é uma flor, seja qual for a sua cor Ninguém como ela sabe como expressar o amor Mãe, mulher, companheira, avó: umas flores Mulher que, em desespero, no beco escuro Num quarto esconso, vendes prazer aos homens Obtusos, que não sabem o que querem Mas gostam de humilhar as mulheres Tens filhos, pedem comer Quem te os fez não quer saber Como estão, se têm pão Tens de vender o teu corpo Para lhes dares de comer Já bateste às portas das 101 instituições Que ajudam as mulheres Sempre a mesma resposta: “Tomámos nota da sua situação Depois, contatá-la-emos” Como se não precisasses de uma ajuda imediata Tens de continuar a vender prazer Aqueles que o quiserem Sonhas com quem te veja como mulher Que não te queira como rameira, mas para a vida inteira Enquanto isso não acontecer, vais ter de vender prazer Com os filhos a crescer, cada vez, é mais difícil esconder o que fazes Desesperas, mas ninguém te ajuda Para muitos a vida é muito dura Para as mulheres é ainda mais S...

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu   48 A Miquelina continuou a contar a sua história, que tanto entusiasmava o filho e os sobrinhos A explicar-lhes o cuidado que tinha de ter, para que os homens não descobrissem que era  mulher Sempre vestida dos pés à cabeça, com os cabelos bem escondidos, tentado imitar os homens Não deixou de lhes dizer que tinha sido um grande desafio, de Lisboa a Nagasaki, ida e volta, rodeada de homens, a quem ela tinha de convencer, que era do sexo deles Tantos dias sem ter com quem partilhar os seus medos, as suas vitórias, as tristezas, as alegrias, coisas que nos ajudam a manter o equilíbrio Mas, à medida que ia superando as adversidades, mais forte se sentia, o que fez com que perdesse o receio de que não seria capaz de cumprir todas as missões Ombreou, lado a lado, com os homens em todas as tarefas, levando-a a decidir que, quando chegasse a Lisboa, iria revelar o seu sexo, sem receios, nem medos, porque já tinha provado, a todos, que não era nem m...

Quingentésimo ano (46)

Correm turvas as águas deste rio, que as do Céu e as do monte as enturbaram; os campos florecidos se secaram, intratável se fez o vale, e frio. Passou o Verão, passou o ardente Estio, üas cousas por outras se trocaram; os fementidos Fados já deixaram do mundo o regimento, ou desvario. Tem o tempo sua ordem já sabida; o mundo, não; mas anda tão confuso, que parece que dele Deus se esquece. Casos, opiniões, natura e uso fazem que nos pareça desta vida que não há nela mais que o que parece. Luís de Camões

Quingentésimo ano (45)

Cara minha inimiga, em cuja mão pôs meus contentamentos a ventura, faltou te a ti na terra sepultura, porque me falte a mim consolação. Eternamente as águas lograrão a tua peregrina fermosura; mas, enquanto me a mim a vida dura, sempre viva em minha alma te acharão. E, se meus rudos versos podem tanto que possam prometer te longa história daquele amor tão puro e verdadeiro, celebrada serás sempre em meu canto; porque enquanto no mundo houver memória, será minha escritura teu letreiro.   Luís de Camões

Namorar

Namorar   Namorar Não se pode Comemorar Num só dia Devemos Fazê-lo Todos os dias É como respirar Não se pode parar Namorar é vital Para a saúde Para a mente Para toda a gente Ao amor Ninguém fica indiferente É fogo É semente É esperança É dor Namorar Tem muito valor Namorar É como tratar uma flor Precisa de muito carinho De muito amor De saber apreciar O amor Da sua perfumada flor Em que idade for O amor Será sempre O melhor da vida. José Silva Costa

Quingentésimo ano (44)

Com grandes esperanças já cantei, com que os deuses no Olimpo conquistara; despois vim a chorar porque cantara e agora choro já porque chorei. Se cuido nas passadas que já dei, custa me esta lembrança só tão cara que a dor de ver as mágoas que passara tenho pola mor mágoa que passei. Pois logo, se está claro que um tormento dá causa que outro n’alma se acrescente, já nunca posso ter contentamento. Mas esta fantasia se me mente? Oh! ocioso e cego pensamento! Ainda eu imagino em ser contente?   Luís de Caões

Quingentésimo ano (43)

Leda serenidade deleitosa, Que representa em terra um paraíso; Entre rubis e perlas doce riso; Debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa; Presença moderada e graciosa, Onde ensinando estão despejo e siso Que se pode por arte e por aviso, Como por natureza, ser formosa; Fala de que ou já vida, ou morte pende, Rara e suave, enfim, Senhora, vossa; Repouso na alegria comedido: Estas as armas são com que me rende E me cativa Amor; mas não que possa Despojar-me da glória de rendido.   Luís de Camões

Quingentésimo ano (42)

Lembranças, que lembrais meu bem passado, Para que sinta mais o mal presente, Deixai-me, se quereis, viver contente, Morrer não me deixeis em tal estado. Se de todo, contudo, está do Fado  Que eu morra de viver tão descontente, Venha-me todo o bem por acidente, E todo o mal me venha por cuidado. Que muito melhor é perder-se a vida, Perdendo-se as lembranças da memória, Pois fazem tanto dano ao pensamento. Porque, enfim, nada perde quem perdida A esperança tem já daquela glória, Que fazia suave o seu tormento. Luís de Camões  

Quingentésimo ano (41)

Aquela triste e leda madrugada, cheia toda de mágoa e de piedade, enquanto houver no mundo saudade quero que seja sempre celebrada. Ela só, quando amena e marchetada saía, dando ao mundo claridade, viu apartar-se de ua outra vontade, que nunca poderá ver-se apartada. Ela só, viu as lágrimas em fio, que, de uns e de outros olhos derivadas, juntando-se, formaram largo rio. Ela ouviu as palavras magoadas que puderam tornar o fogo frio, e dar descanso às almas condenadas.   Luís de Camões

Quingentésimo ano (40)

Depois de tantos dias mal gastados, Depois de tantas noites mal dormidas, Depois de tantas lágrimas vertidas, Tantos suspiros vãos vãmente dados, Como não sois vós já desenganados, Desejos, que de cousas esquecidas Quereis remediar mortais feridas, Que amor fez sem remédio, o tempo, os Fados? Se não tivéreis já longa experiência Das sem-razões de Amor a quem servistes, Fraqueza fora em vós a resistência. Mas pois por vosso mal seus males vistes, Que o tempo não curou, nem larga ausência, Qual bem dele esperais, desejos tristes?   Luís de Camôes  

Quingentésimo ano (´39)

Sempre, cruel Senhora, receei, medindo vossa grã desconfiança, que desse em desamor vossa tardança, e que me perdesse eu, pois vos amei. Perca-se, enfim, já tudo o que esperei, pois noutro amor já tendes esperança. Tão patente será vossa mudança, quanto eu encobri sempre o que vos dei. Dei-vos a alma, a vida e o sentido; de tudo o que em mim há vos fiz s enhora. Prometeis e negais o mesmo Amor. Agora tal estou que, de perdido, não sei por onde vou, mas alguma hora vos dará tal lembrança grande dor.   Luís de Camões

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 47 A Rosinha e o Januário estavam a viver um período de lua-de-mel. Com os filhos criados, o negócio a correr bem, os filhos e o genro pediram-lhes para irem descansar uns dias, que eles substituíam-nos no trabalho Os pais estavam hesitantes, por um lado desejavam e agradava-lhes a ideia dos filhos, mas não queriam que se sacrificassem por eles Os três (Leopoldina, Roberto e Jeremias) decidiram debater o assunto, para tentarem que os pais aceitassem o pedido deles O Jeremias foi o escolhido, para os convencer, por acharem que seria mais difícil dizerem não, ao genro Disse-lhes que os três lhes pediam que aceitassem a sua sugestão, para descansarem uns dias, porque tinham estado muito tempo separados e precisavam de uns dias só para eles Não tiveram, como dizer não, agradeceram-lhe, dizendo-lhe que era um bom filho, que os três eram os melhores filhos do mundo O Jeremias não cabia em si de contentamento, por os ter convencido a descansarem uns di...

Quingentésimo ano (38)

Descalça vai para a fonte Descalça vai para a fonte Lianor pela verdura; Vai fermosa, e não segura. Leva na cabeça o pote, O testo nas mãos de prata, Cinta de fina escarlata, Sainho de chamelote; Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura. Vai fermosa e não segura. Descobre a touca a garganta, Cabelos de ouro entrançado Fita de cor de encarnado, Tão linda que o mundo espanta. Chove nela graça tanta, Que dá graça à fermosura. Vai fermosa e não segura.   Luís de Camões    

Quingentésimo ano (37)

Quem diz que Amor é falso ou enganoso, Ligeiro, ingrato, vão desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce, e é piedoso. Quem o contrário diz não seja crido; Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens, e inda aos Deuses, odioso. Se males faz Amor em mim se vêem; Em mim mostrando todo o seu rigor, Ao mundo quis mostrar quanto podia. Mas todas suas iras são de Amor; Todos os seus males são um bem, Que eu por todo outro bem não trocaria Luís de Camões

Quingentésimo ano (36)

Verdes são os campos, De cor de limão: Assim são os olhos Do meu coração. Campo, que te estendes Com verdura bela; Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes Que traz o Verão, E eu das lembranças Do meu coração. Gados que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendereis; Isso que comeis Não são ervas, não: São graças dos olhos Do meu coração. Luís de Camões

Quingentésimo ano (35)

Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta —   Os Lusíadas , Canto I  

Quingentésimo ano (34)

"Sobre os rios que vão por Babilonia m'achei, Onde sentado chorei as lembranças de Sião, e quanto nela passei. Ali o rio corrente de meus olhos foi manado, e, tudo bem comparado, Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado. . . . 2. "Ali lembranças contentes n'alma se representaram, e minhas cousas ausentes, se fizeram tão presentes como se nunca passaram. Ali, depois de acordado, c'o rosto banhado em água, deste sonho imaginado, vi que todo o bem passado não é gosto, mas é mágoa. . . . 3. "E vi que todos os danos se causavam das mudanças, e as mudanças dos anos, onde vi quantos enganos faz o tempo às esperanças. Ali vi o maior bem, quão pouco espaço que dura, o mal quão depressa vem, e quão triste estado tem quem se fia da ventura".   Luís de Camões

Quingentésimo ano (33)

Ó que famintos beijos na floresta, E que mimoso choro que soava! Que afagos tão suaves, que ira honesta, Que em risinhos alegres se tornava! O que mais passam na manhã, e na sesta, Que Vénus com prazeres inflamava, Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo —   Os Lusíadas , Canto IX