Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2024

Quingentésimo ano (366)

  Canto I  -  90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas, seguindo a vitória, estrui e mata; A povoação sem muro e sem defesa Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte e a mãe que o filho cria. 106 No mar tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno? Canto II - 44   - «Fermosa filha m inha, não tem ais Perigo algum nos vossos Lusi tanos, Nem que ninguém comigo possa m ais Que esses chorosos olhos soberanos; Que eu vos prometo, fil ha, que vejais Esquecerem-se Gregos e Roma nos, Pelos ilustres feitos que esta gen te Há-de fazer nas partes do Oriente.   Canto III - 97     (D. Dinis)   «Fez primeiro em Coim bra exercitar-se O valeroso ofício de Mi...

Quingentésimo (365)

104. Cantiga a üa mulher que se chamava Grada de Morais MOTO: Olhos em que estão mil flores e com tanta graça olhais, que parece que os Amores moram onde vós morais. VOLTAS Vêm-se rosas e boninas, olhos, nesse vosso ver; vêm-se mil almas arder no fogo dessas mininas. E di-lo hão minhas dores, meus suspiros, e meus ais; e dirão mais, que os Amores moram onde vós morais.

Quingentésimo (364)

96. Trovas {Vós} sois üa dama das feias do mundo; de toda a má fama sois cabo profundo. A vossa figura não é para ver; em vosso poder não há fermosura. {Vós} fostes dotada de toda a maldade; perfeita beldade de vós é tirada. Sois muito acabada de tacha e de glosa: pois, quanto a fermosa, em vós não há nada. De grão merecer sois bem apartada; andais alongada do bem parecer. Bem claro mostrais em vós fealdade: não há i maldade que não precedais. De fresco carão vos vejo ausente; em vós é presente a má condição. De ter perfeição mui alheia estais; mui muito alcançais de pouca razão.

Quingentésimo (363)

110. Trovas que Heitor da Silveira mandou ao mesmo Conde, invernando em Goa Vossa Senhoria creia que não apura o engenho fome, se é como a que tenho, mas afraca e corta a veia. E quem o contrário sente está farto em toda a hora, como estou faminto agora. Mas Marta, se está contente, dá-lhe pouco de quem chora. E pois Vossa Senhoria, em geral, a tudo acode, acuda a mim, que só dar-me no engenho valia. Esperte esta musa minha, que o tempo traz sonorenta, valha-me nesta tormenta com essa doce mezinha que só dá vida e a contenta. Acuda com provisão não de papel, mas provida de ouro e prata: que esta vida não sustentam papéis, não. De feitor a tesoureiro ser-me hia trabalho grande; Vossa Senhoria mande algum remédio primeiro com que a morte o ferro abrande. Ajuda de Luís de Camões: Nos livros doutos se trata, que o grande Aquiles insano deu a morte a Heitor troiano; mas agora a fome mata o nosso Heitor lusitano. Só ela o pode acabar, se essa vossa condição liberal e singular não mete entre ...

Quingentésimo (362)

111. Cantiga a este moto que lhe mandou o Vizo-Rei, na Índia, para que Luís de Camões lhe fizesse üas voltas MOTO: Muito sou meu inimigo, pois que não tiro de mi cuidados com que nasci, que põem a vida em perigo. Oxalá que fora assi VOLTAS Viver eu, sendo mortal, de cuidados rodeado, parece meu natural; que a peçonha não faz mal a quem foi nela criado. Tanto sou meu inimigo, que, por não tirar de mi cuidados, com que naci, porei a vida em perigo. Oxalá que fora assi! Tanto vim a acrecentar cuidados, que nunca amansam enquanto a vida durar, que canso já de cuidar como cuidados não cansam. Se estes cuidados que digo dessem fim a mi e a si, fariam pazes comigo; que pôr a vida em perigo, o bom fora para mi.  

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 93  As ilhas de  São Tomé e Príncipe  estiveram desabitadas até  1470 , quando os navegadores  portugueses   João de Santarém  e  Pêro Escobar  as descobriram. Os portugueses colonizaram-na com  cristãos-novos  que tinham sido expulsos pela  Inquisição . [1] A  cana-de-açúcar  foi introduzida nas ilhas no  século XV , mas a concorrência  brasileira  e as constantes rebeliões locais levaram a cultura agrícola ao declínio no  século XVII . Assim sendo, a decadência açucareira tornou as ilhas entrepostos de  escravos  para o  Caribe  e para o  Brasil . Entre as principais dificuldades por que passaram as ilhas no final do  século XVI  destacam-se as revoltas de africanos entre  1590  e  1595 , das quais a mais importante foi a  Revolta dos Angolares . A escravatura e o ciclo do Cacau A agricultura só foi estimulada no arquipélago no  século XIX , com o cultivo de  cacau  e de  café . Nesse período, as ilhas figuraram entre os maiores produtores m...

Quingentésimo ano (361)

  070. Cantiga a este moto seu: De que me serve fugir da morte, dor e perigo, se me eu levo comigo? VOLTAS Tenho-me persuadido, por razão conveniente, que não posso ser contente, pois que pude ser nacido. Anda sempre tão unido o meu tormento comigo que eu mesmo sou meu perigo. E se de mi me livrasse, nenhum gosto me seria; que, não sendo eu, não teria mal que esse bem me tirasse Tenho-me persuadido, por razão conveniente, que não posso ser contente, pois que pude ser nacido. Anda sempre tão unido o meu tormento comigo que eu mesmo sou meu perigo. E se de mi me livrasse, nenhum gosto me seria; que, não sendo eu, não teria mal que esse bem me tirasse. .

Quingentésimo ano (360)

046. Glosa a este moto alheio: Tudo pode üa afeição. Tem tal jurdição Amor n'alma donde se aposenta e de que se faz senhor, que a liberta e isenta de todo o humano temor. E com mui justa razão, como senhor soberano, que Amor não consente dano; e pois me sofre tenção, gritarei por desengano: tudo pode üa afeição.

Quingentésimo (359)

028. Glosas ao moto que lhe enviou Dona Francisca de Aragão para que Iho glosasse: Mas porém a que cuidados ? 1ª. Tanto maiores tormentos foram sempre os que sofri, daquilo que cabe em mi, que não sei que pensamentos são os para que nasci. Quando vejo este meu peito a perigos arriscados inclinado, bem suspeito que a cuidados sou sujeito; Mas porém a que cuidados ? 2ª. Que vindes em mim buscar, cuidados, que sou cativo, e não tenho que vos dar? Se vindes a me matar, já há muito que não vivo; se vindes, porque me dais tormentos desesperados, eu, que sempre sofri mais, não digo que não venhais; Mas porém a quê, cuidados? 3ª. Se as penas que Amor me de vêm por tão suaves meios, não há que temer receios, que val um cuidado meu por mil descansos alheios. Ter nuns olhos tão fermosos os sentidos enlevados, bem sei que em baixos estados são cuidados perigosos; Mas porém, ah! que cuidados! Carta que Luís de Camões mandou a Dona Francisca de Aragão, com as glosas acima: Senhora Deixei-me enterrar...

Quingentésimo (358

  016. Trovas a üas suspeitas Suspeitas, que me quereis? Que eu vos quero dar lugar, que, de certas, me mateis, se a causa de que nasceis vos quisesse confessar. Que de não lhe achar desculpa a grande mágoa passada me tem a alma tão cansada que, se me confessa a culpa, tê-la-ei por desculpada. Ora vede que perigos têm cercado o coração, que, no meio da opressão, a seus próprios inimigos vai pedir a defensão! Que, suspeitas, eu bem sei, como se claro vos visse, que é certo o que já cuidei; que nunca mal suspeitei que certo me não saísse. Mas queria esta certeza daquela que me atormenta; por que em tamanha estreiteza ver que disso se contenta é descanso da tristeza. Porque se esta só verdade me confessa, limpa e nua de cautela e falsidade, não pode a minha vontade desconformar-se da sua. Por segredo namorado é certo estar conhecido que o mal de ser enjeitado mais atormenta sabido, mil vezes, que suspeitado. Mas eu só, em quem se ordena novo modo de querela, de medo da dor pequena, venho ...

Quingentésimo (357)

Cantiga a este moto seu: Venceu-me Amor, não o nego; tem mais força qu'eu assaz; que, como é cego, e rapaz, dá-me porrada de cego! VOLTAS Só porque é rapaz ruim, dei-lhe um bofete, zombando; diz-me:-Ó mau, estais-me dando porque sois maior que mim? pois se vos eu descarrego... Em dizendo isto, chaz! torna-m'outra. Tá! rapaz, que dás porrada de cego!

Quingentésimo ano (356)

118. SUPERR FLUMINA ... Sôbolos rios que vão por Babilónia, m'achei, onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei. Ali o rio corrente de meus olhos foi manado, e tudo bem comparado, Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado. Ali, lembranças contentes n'alma se representaram, e minhas cousas ausentes se fizeram tão presentes como se nunca passaram. Ali, despois de acordado, co rosto banhado em água, deste sonho imaginado, vi que todo o bem passado não é gosto, mas é mágoa. E vi que todos os danos se causavam das mudanças e as mudanças dos anos; onde vi quantos enganos faz o tempo às esperanças. Ali vi o maior bem quão pouco espaço que dura, o mal quão depressa vem, e quão triste estado tem quem se fia da ventura. Vi aquilo que mais val, que então se entende milhor quanto mais perdido for; vi o bem suceder mal, e o mal, muito pior. E vi com muito trabalho comprar arrependimento; vi nenhum contentamento, e vejo-me a mim, que espalho tristes palavras ao ven...

Conto de Natal

Conto de Natal                          https://imsilva.blogs.sapo.pt Nasceram e viveram na sua terra, tal como os pais, criaram os muitos filhos, com o que conseguiam tirar da terra Não foram à escola, não havia escolas por perto, eram todos analfabetos. Só por volta de meados do século XX é que começara a construção das escolas primárias, naquelas povoações Desde os seus tenros anos que começaram a trabalhar, era preciso ajudar a criar os irmãos As raparigas trabalhavam fora e dentro de casa, enquanto os rapazes, normalmente, só trabalhavam fora de casa Sempre brincaram juntos, nos poucos momentos em que isso foi possível, no campo, quando não estavam acompanhados pelos pais Cresceram, praticamente, juntos, houve, sempre, um bom entendimento entre ambos, os trabalhos no campo, juntava-os Assim, foram crescendo, quando atingiram a puberdade começaram a namorar “ O lume ao pé da estopa vem o diabo e sopra” Como eram muito pobres, aproveitaram a tradição de não se casarem, mas juntarem-...

Quingentésimo ano (355)

095. Cantiga a este moto: Dó la mi ventura? Que no veo alguna. VOLTAS Sepa quién padece que en la sepultura se esconde ventura de quién la merece. Allá me parece que quiere fortuna que yo halle alguna. Naciendo mezquino, dolor fué mi cama; tristeza fué el ama, cuidado el padrino. Vestióse el destino, negra vestidura; huyó la ventura. No se halló tormento, que allí no se hallase; ni bien que pasase, sino como viento. No se halló tormento, que allí no se hallase; ni bien que pasase, sino como viento. ¡Oh, que nacimiento, que luego en la cuna me seguió fortuna! Esta dicha mía, que siempre busqué, buscandola, hallé que no la hallaría; que quién nace en día d'estrella tan dura, nunca halla ventura. No puso mi estrella más ventura en mí; así vive en fin quién nace sin ella. No me quejo della; quéjome que atura vida tan escura.

Quingentésimo (354)

001. a uma Dama que lhe mandou pedir algumas obras suas Trovas Senhora, se eu alcançasse no tempo que ler quereis, que a dita dos meus papéis pola minha se trocasse; e por ver tudo o que posso escrever em mais breve relação, indo eu onde eles vão, por mim só quisésseis ler; Depois de ver um cuidado tão contente de seu mal, veríeis o natural do que aqui vedes pintado; que o perfeito Amor, de que sou sujeito, vereis áspero e cruel, aqui com tinta e papel, em mim co sangue no peito. Que um contino imaginar naquilo que Amor ordena, é pena que, enfim, por pena se não pode declarar; que, se eu levo dentro n'alma quanto devo de trasladar em papéis, vede qual melhor lereis: se a mim, se aquilo que escrevo?

O Império

O Império   -   As teias que o Império teceu 92 São Tomé e Príncipe   A ilha de São Tomé foi descoberta em 21 de dezembro de 1470, por  João de Santarém , no dia de  São Tomé ; 27 dias depois, em 17 de janeiro de 1471, no dia de  Santo Antão ,  Pêro Escobar  chega à ilha do Príncipe. [11]  Príncipe foi inicialmente chamado de Santo Antão ("Santo António"), mudando o seu nome em 1502 para a Ilha do Príncipe, em referência ao Príncipe de Portugal para quem foram pagos impostos sobre a produção de açúcar da ilha. O primeiro assentamento bem-sucedido de São Tomé foi estabelecido em 1493 por  Álvaro de Caminha , que recebeu a terra como uma concessão da  coroa . Príncipe foi liquidado em 1500 sob um arranjo semelhante. A atração de colonos mostrou-se difícil, sendo assim, a maioria dos primeiros habitantes foram "indesejáveis" enviados de Portugal, a maioria  judeus . [12]  Com o tempo, esses colonos encontraram no solo vulcânico da região o local adequado para a  agricu...

Quingentésimo (353)

114. Cantiga a João Lopez, Leitão, na Índia, por causa de~ua peça de cacha que este mandou a ~ua Dama que se lhe fazia donzela MOTO: Se vossa dama vos dá tudo quanto vós quisestes, dizei: para que lhe destes o que vos ela fez já? VOLTAS Sendo os restos envidados e vós de cachas mil contos, sabeis com quão poucos pontos que lhos achastes quebrados. Se o que tem, isso vos dá, vós mui bem lho merecestes, porque, se a cacha lhe destes, tinha-vo-la feita já.

Quingentésimo (352)

50 Cantiga este moto: Quem disser que a barca pende, dir-lhe hei, mana, que mente. VOLTAS Se vos quereis embarcar e para isso estais no cais, entrai logo; que tardais? Olhai que está preiamar! E se outrem, por vos fretar, vos disser que esta que pende, dir-lhe hei, mana, que mente. Esta barca é de carreira, tem seus aparelhos novos; não há como ela outra em Povos, boa de leme e veleira. Mas, se por ser a primeira, vos disser alguém que pende, dir-lhe hei, mana, que mente.

Quingentésimo (351)

o98. Esparsa este moto: a üa Dama que lhe chamou «cara-sem-olhos» «cara-sem-olhos» Sem olhos vi o mal claro que dos olhos se seguiu: pois «cara-sem-olhos» viu olhos que lhe custam caro. De olhos não faço menção, pois quereis que olhos neo sejam; vendo-vos, olhos sobejam, não vos vendo olhos não são.

Quingentésimo (350)

025. Cantiga a este mato alheio: Trocai o cuidado, Senhora, comigo; vereis o perigo que é ser desamado VOLTAS Se trocar desejo o amor entre nós, é para que em vós vejais o que vejo. E sendo trocado este amor comigo, ser-vos-á castigo terdes meu cuidado. Tendes o sentido d'amor livre e isento; e cuidais que é vento ser tão mal querido. Não seja o cuidado tão vosso inimigo que queira o perigo de ser desamado. Mas nunca foi tal este meu querer, que a quem tanto quer queira tanto mal. Seja eu maltratado, e nunca o castigo vos mostre o perigo que é ser desamado.

Quingentésimo (349)

034. Glosa a este moto alheio: Vejo-a n'alma pintada quando me pede o desejo o natural que não vejo. Se só no ver puramente me transformei no que vi, de vista tão excelente mal poderei ser ausente enquanto o não for de mi. Porque a alma namorada a traz tão bem debuxada, e a memória tanto voa que se a não vejo em pessoa, vejo-a n'alma pintada. O desejo, que se estende ao que menos se concede, sobre vós pede e pretende, como o doente que pede o que mais se lhe defende. Eu, que em ausência não vejo, tenho piadade e pejo de me ver tão pobre estar, que então não tenho que dar quando me pede o desejo, Como aquele que cegou é cousa vista e notória que a natureza ordenou que se lhe dobre em memória o que em vista lhe faltou; assi a mim, que não rejo os olhos ao que desejo, na memória e na firmeza me concede a natureza o natural que não vejo.

Quingentésimo ano (348)

113 Trovas que Luís de Camões fez, na Índia, a certos fidalgos a quem convidara para cear A primeira iguaria foi posta a Casco de Ataíde. entre dous pratos, e diria assim: Se não quereis padecer üa ou duas horas tristes, sabeis que haveis de fazer? Volveros por do venistes, que aqui não há que comer. E posto que aqui leiais trovinha que vos enleia, corrido não estejais; porque por mais que corrais não heis-de alcançar a ceia. A segunda, a D. Franeisco d'Almeida: Heliogábalo zombava das pessoas convidadas, e de sorte as enganava que as iguarias que dava vinham nos pratos pintadas. Não temais tal travessura, pois já não pode ser nova; que a ceia está mui segura de vos não vir em pintura, mas há-de vir toda em trova. A terecira, a Heitor da Silveira: Ceia não a papareis; contudo, porque não minta, para beber achareis, não Caparica, mas tinta, e mil cousas que papeis. E vós torceis o focinho, com esta anfibologia? Pois sabei que a Poesia vos dá aqui tinta por vinho, e papéis por iguari...

O Império

O Império  -   as teias que o Império teceu 91 Ficaram tristes por ainda faltarem tantos meses para a saída das naus, tinham tempo para percorrerem toda a Lisboa, ver as suas ruas e becos, sentir o pulsar de uma cidade muito diferente de Coimbra Todos os dias calcorreavam uma parte da cidade, descansavam nos miradouros a observar o frenesi da cidade, não podiam fazer grandes caminhadas, como quando não tinham o Afonso, depois do almoço passavam umas horas, na pensão onde estavam hospedados, para ele dormir, descansar O Afonso não se esquecia da Anastácia e do Elisiário, queria ir vê-los, os pais iam-lhe dizendo que em breve os iriam ver, sabendo que tão cedo não os iria esquecer À tardinha, iam para a beira do rio, ver a chegada e partida dos barcos: canoas, varinos, fragatas, que transportavam muitos dos víveres que alimentavam os habitantes de Lisboa Foram meses a percorrer os becos, ruas e ruelas de Lisboa, tudo foi passado a pente fino, a Marina aproveitou para observar o que havia...

Quingentésimo (347)

097. Esparsa a üa Dama por quem penava. Se na alma e no pensamento por vosso me manifesto, não me pesa do que sento; que, se não sofrer tormento, faço ofensa a vosso gesto. E, pois quanto Amor ordena e quanto esta alma deseja tudo à morte me condena, não quero senão que seja tudo pena, pena, pena.

Quingentésimo (346)

087. Cantiga a esta cantiga alheia: Se me desta terra for, eu vos levarei, amor. VOLTAS Se me for, e vos deixar (ponho, por caso, que possa), esta alma minha, que é vossa, convosco me há-de ficar. Assi que, só por levar a minh'alma, se me for, vos levarei, meu amor. Que mal pode maltratar-me que convosco seja mal? Ou que bem pode ser tal que sem vós possa alegrar-me? O mal não pode enojar-me, o bem me será maior se vos levar, meu amor.

Quingentésimo (345)

076. Cantiga a este moto alheio: Vede bem se nos meus dias os desgostos vi sobejos, pois tenho medo a desejos e quero mal a alegrias. Se desejos fui já ter, serviram de atormentar-me; se algum pôde alegrar-me, quis-me antes entristecer. Passei anos, passei dias, em desgostos tão sobejas que, só por não ter desejos, perderei mil alegrias.

Quingentésimo (344)

021. Cantiga a este mato alheio: Se me levam águas nos olhos as levo. VOLTAS Se de saudade morrerei ou não, meus olhos dirão de mim a verdade. Por eles me atrevo a lançar as águas que mostrem as mágoas que nesta alma levo. As águas que em vão me fazem chorar, se elas são do mar estas d'amar são. Por elas relevo todas minhas mágoas; que, se força d'águas me leva, eu as levo. Todas me entristecem, todas são salgadas; porém as choradas doces me parecem. Correi, doces águas, que, se em vós me enlevo, não doem as mágoas que no peito levo!

Quingentésimo (343)

018. Trovas a üa Senhora a quem deram um pedaço de cetim amarelo pera hüa filha de quem se tinha suspeita MOTO: Se derivais da verdade esta palavra Sitim, achareis, sem falsidade, que após o Si, tem o Tim, que tine em toda a cidade. Bem vejo que me entendeis; mas porque não fale em vão, sabei que a esta nação tanto que o Si concedeis o Tim logo está na mão. E quem da fama se arreda, que tudo vai descobrir, deve sempre de fugir de sitins, porque da seda seu natural é rugir. Mas pano fino e delgado, qual raxa e outros assi, dura, aquenta e é calado, amoroso, e dá de si, mais que sitim, nem borcado. Mas estes, que sedas são com quem s'enganam mil Damas, mais vos tomam do que dão; prometem, mas não darão senão nódoas para as famas. E se não me quereis crer, ou tomais outro caminho, por exemplo o podeis ver, quando lá virdes arder a casa de algum vezinho. Ó feminina simpreza, donde estão culpas a pares, que por um Dom de nobreza, deixam dões de natureza, mais altos e singulares -um dom ...

Quingentésimo ano (342)

061. Cantiga a üa Dama que estava vestida de dó MOTO: De atormentado e perdido, já vos não peço senão que tenhais no coração o que tendes no vestido. VOLTAS Se de dó vestida andais por quem já vida não tem, porque não no haveis de quem vós tantas vezes matais? Que brado sem ser ouvido, e nunca vejo senão cruezas no coração, e grande dó no vestido.

Quingentésimo ano (341)

090. Cantiga a üa Dama a quem não podia encontrar MOTO: Qual terá culpa de nós neste mal que todo é meu? quando vindes, não vou eu, quando vou, não vindes vós VOLTAS Reinando Amor em dous peitos, tece tantas falsidades, que, de conformes vontades, faz desconformes efeitos. Igualmente vive em nós; mas, por desconcerto seu, vos leva, se venho eu, me leva, se vindes vós.

O Império

O Império  -   as teias que o Império teceu 90 Chegou o dia das despedidas Já se sabia que seriam momentos muito tristes, os adultos sabiam que dificilmente se voltariam a ver, atendendo à idade da Anastácia e do Elisiário,   o jovem casal também não contava voltar à Metrópole, só o Afonso acreditava que a Anastácia e o Elisiário os iriam visitar, a Luanda Por isso, a despedida não foi tão dolorosa para o pequeno Afonso, que, mesmo assim, se mostrou muito preocupado por a Anastácia e o Elisiário ficarem sozinhos Foram muitos dias de coche, até conseguirem chegar à capital, pernoitavam em estalagens, que proporcionavam alimentação e descanso a humanos e animais Uma aventura tão ou maior que ir de Lisboa a Luanda. Foi o melhor meio de transporte, que arranjaram, graças à amabilidade do Conde, que tudo fez para tornar a viagem menos cansativa, estava muito preocupado com o pequeno Afonso, até parecia que era seu neto, fez mais paragens que costumava fazer, escolheu as melhores estalagens ...

Quingentésimo ano (340)

107. Cantiga a üa mulher que foi açoutada por um homem de apelido Quaresma, na Índia MOTO: Não estejais agravada, senão se for de vós mesma; porque a mulher que é errada com razão pela Coresma deve ser desciprinada. VOLTAS Quererdes profano amor em Coresma, é consciência: açoutes e penitência vos está muito milhor. Não fiqueis disto afrontada, pois a culpa é vossa mesma; que mulher que é tão malvada é bem que pela Coresma seja bem desciprinada. Se a penitência vos val, mui bem açoutada estais; pois por Coresma pagais vossos vícios do carnal. Não torneis a ser errada, nem condeneis a vós mesma, pois estais já emendada; e não sereis por Coresma outra vez desciprinada.

Quingentésimo (339)

Cantiga        a uma Dama, em forma de carta Querendo escrever um dia o mal que tanto estimei, cuidando no que poria, vi Amor que me dizia: escreve, que eu notarei. E como para se ler não era história pequena a que de mim quis fazer, das asas tirou a pena com que me fez escrever. E, logo como a tirou, me disse: Aviva os espritos, que, pois em teu favor sou, esta pena que te dou fará voar teus escritos. E dando-me a padecer tudo o que quis que pusesse, pude, enfim, dele dizer que me deu com que escrevesse o que me deu a escrever. Eu, qu' este engano entendi, disse-lhe:-que escreverei ? Altos afeitos de ti, Respondeu, dizendo assi: e daquela a quem te dei. E já que te manifesto todas minhas estranhezas, escreve, pois que te prezas, milagres dum claro gesto e, de quem o viu, tristezas. Ah! Senhora, em quem se apura, a fé de meu pensamento! Escutai e estai a tento, que, com vossa fermosura, iguala Amor meu tormento. E, posto que tão remota estejais de me escutar, por me não remediar, o...

Quingentésimo (338)

039. Glosa ao mesmo moto Querendo Amor esconder-vos em parte que vos não visse, com extremos de querer-vos cegou-me os olhos com ver-vos, levou-os, sem que vos visse. Eu, cego, mas atinado, quando vi que vos não via, do mesmo Amor indinado, já vedes qual ficaria sem vós e com meu cuidado.

Quingentésimo (337)

80. Cantiga a este moto alheio: Há um bem que chega e foge; e chama-se este bem tal, ter bem para sentir mal. VOLTAS Quem viveu sempre num ser, inda que seja em pobreza, não viu o bem da riqueza, nem o mal de empobrecer: não ganhou para perder; mas ganhou com vida igual não ter bem nem sentir mal.

O último!

01/12/2024 És último Trazes o frio Que aquece os corações Deste mundo vazio Sem brilho, nem tolerância Em que todos os anos se renova a esperança De um Novo Ano diferente Em que a Paz, o Amor, a Igualdade sejam para toda a gente Mas, há, sempre, quem pense que só ele é gente Em que a vã glória justifica matar muita gente Que não tem vergonha de pedir ou agradecer ao seu Deus Que o deixe continuar com a sua destruição e genocídio E o milagre acontece! Pelo menos, num dia do ano, muitos procuram celebrar o Amor Mesmo que no dia seguinte se esqueçam do anterior És o último, mas és o mais desejado e festejado Que para o ano, todas as guerras tenham acabado. Bem-vindo dezembro!   José Silva Costa

Quingentésimo (336)

79. Cantiga a üa Dama mal empregada MOTO SEU: Minina, não sei dizer, vendo vos tão acabada, quão triste estou por vos ver fermosa e mal empregada. VOLTAS Quem tão mal vos empregou, pouco de mi se doía, pois não viu quanto me ia em tirar-me o que tirou. Obriga o primor que tem lindeza tão extremada Que diga quantos a vêm: - Fermosa e mal empregada! Tomaste da formusura quanto dela desejastes, e com ela me guardastes para tão triste ventura. Matáveis sendo solteira, matais agora em casada; matais de toda a maneira; Fermosa e mal empregada!