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Mostrando postagens de julho, 2024

Quingentésimo ano (214)

Senhor João Lopes, o meu baixo estado Hontem vi posto em grao tão excellente, Que sendo vós inveja a toda a gente, Só por mi vos quizereis ver trocado. O gesto vi suave e delicado, Que ja vos fez contente e descontente, Lançar ao vento a voz tão docemente, Que fez o ar sereno e socegado. Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto Ninguem diria em muitas: mas eu chego A espirar só de ouvir a doce fala. Oh mal o haja a Fortuna, e o moço cego! Elle, que os corações obriga a tanto; Ella, porque os estados desiguala. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 72 Formosa A ilha de Taiwan, com cerca de 5.000 anos foi descoberta pelos portugueses por volta de 1600, onde estabeleceram um entreposto comercial denominado Formosa, seguiu-se uma breve ocupação de espanhóis, expulsos pelos neerlandeses em 1642. Os chineses reconquistaram a ilha em 1661.    Após a derrota chinesa na guerra sino-japonesa, foi anexada pelo japão, a título de indeminização, pelo tratado de Tientsin (ou Tianjin), situação que perdurou atá ao final da segunda guerra mundial Com a rendição incondicional do Japão, a 15 de agosto de 1945, a ilha de Taiwan voltou ao controlo da República da China, cuja formalização se deu mais tarde, pelo tratado de paz de São Francisco, em 1949.   (Wikipédia)   A Marina e o Roberto tinham de escolher os padrinhos para o bebé, eram eles que escolheriam o nome. A Anastácia era a madrinha escolhida, desde o seu primeiro encontro, faltava escolher o padrinho, a Marina disse, ao Roberto, que tinha um pro...

Quingentésimo ano (213)

Sempre, cruel Senhora, receei, medindo vossa grã desconfiança, que desse em desamor vossa tardança, e que me perdesse eu, pois vos amei. Perca-se, enfim, já tudo o que esperei, pois noutro amor já tendes esperança. Tão patente será vossa mudança quanto eu encobri sempre o que vos dei. Dei-vos a alma, a vida e o sentido; de tudo o que em mim há vos fiz senhora. Prometeis e negais o mesmo Amor. Agora tal estou que, de perdido, não sei por onde vou; mas algü' hora vos dará tal lembrança grande dor. Luís de Camões

Quingentésimo ano (212)

Sempre a Razão vencida foi de Amor; Mas, porque assi o pedia o coração, Quiz Amor ser vencido da Razão. Ora que caso póde haver maior! Novo modo de morte, e nova dor! Estranheza de grande admiração! Pois, em fim, seu vigor perde a affeição, Porque não perca a pena o seu vigor. Fraqueza, nunca a houve no querer; Mas antes muito mais se esforça assim Hum contrário com outro por vencer. Mas a razão que a luta vence, em fim, Não creio que he razão; mas deve ser Inclinação que eu tenho contra mim. Luís de Camões

Quingentésimo ano (211)

Seguia aquelle fogo, que o guiava, Leandro, contra o mar e contra o vento; Quebravão-lhe ondas o animoso alento, Por mais e mais que Amor lho renovava. Com sentir ja que quasi lhe faltava, Sem nada esmorecer, no pensamento (Não podendo fallar) de seu intento O fim ao surdo mar encommendava. Ó mar, (dizia o moço só comsigo) Ja te não peço a vida; só queria Que a d'Hero me salvasses: não me veja: Este defunto corpo lá o desvia D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo, Pois no meu maior bem me houveste inveja. Luís de Camões    

Quingentésimo ano (210)

Se, despois de esperança tão perdida, Amor por causa alguma consentisse Que inda algum'hora breve alegre visse De quantas tristes vio tão longa vida; Hum'alma ja tão fraca e tão cahida (Quando a sorte mais alto me subisse) Não tenho para mi que consentisse Alegria tão tarde consentida. Nem tamsomente o Amor me não mostrou Hum'hora em que vivesse alegremente, De quantas nesta vida me negou; Mas inda tanta pena me consente, Que co'o contentamento me tirou O gôsto de algum'hora ser contente. Luís de Camões

Quingentésimo ano (209)

Se tomo a minha pena em penitencia Do error em que cahio o pensamento, Não abrando, mas dóbro meu tormento, Que a tanto, e mais, obriga a paciencia. E se huma côr de morto na apparencia, Hum espalhar suspiros vãos ao vento Não faz em vós, Senhora, movimento, Fique o meu mal em vossa consciencia. Mas se de qualquer aspera mudança Toda vontade isenta Amor castiga, (Como eu vejo no mal que me condena) E se em vós não se entende haver vingança, Será forçado (pois Amor me obriga) Que eu só da culpa vossa pague a pena. Luís de Camões

Quingentésimo ano (208)

Se tanta pena tenho merecida Em pago de soffrer tantas durezas; Provai, Senhora, em mi vossas cruezas, Que aqui tendes huma alma offerecida. Nella experimentai, se sois servida, Desprezos, desfavores e asperezas; Que móres soffrimentos e firmezas Sustentarei na guerra desta vida. Mas contra vossos olhos quaes serão? He preciso que tudo se lhes renda; Mas porei por escudo o coração. Porque em tão dura e aspera contenda He bem que, pois não acho defensão, Com meter-me nas lanças me defenda. Luís de Camões    

O Império

O Império  - As teias que o Império teceu 71   Timor O primeiro contato europeu com a ilha foi feito pelos portugueses, quando estes lá chegaram em 1512, em busca do sândalo. Durante quatro séculos, os portugueses apenas utilizaram o território timorense para fins comerciais, explorando os recursos naturais da ilha. Díli, a capital do Timor Português, apenas nos anos 60 começou a dispor de luz elétrica, e na década seguinte, de água, esgotos, escolas e hospitais. O resto do país, principalmente em zonas rurais, continuava atrasado. Até agosto de 1975, Portugal liderou o processo de autodeterminação de Timor-Leste, promovendo a formação de partidos políticos, tendo em vista a independência do território. Quando as forças pró-indonésias atacaram as forças portuguesas no território, estas foram obrigadas a deixar a ilha de Timor, e refugiaram-se em Ataúro. Quando se dá início à guerra civil entre a Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente ( FRETILIN) e as forças da União Democrát...

Quingentésimo ano (207)

Se pena por amar-vos se merece, Quem della estará livre? quem isento? E que alma, que razão, que entendimento No instante em que vos vê não obedece? Qual mor gloria na vida ja se offrece, Que a de occupar-se em vós o pensamento? Não só todo rigor, todo tormento Com ver-vos não magôa, mas se esquece. Porém se heis de matar a quem amando, Ser vosso de amor tanto só pretende, O mundo matareis, que todo he vosso. Em mi podeis, Senhora, ir começando, Pois bem claro se mostra e bem se entende Amar-vos quanto devo e quanto posso. Luís de Camões

Quingentésimo ano (206)

Se os capitães antigos colocados naqueles triunfos altos de vitória feriram nas orelhas vossa história, de vergonha e temor foram pasmados. Por terra logo todos derribados troféus, fama e sua grão memória, dando lugar ao louvor vosso e glória, que sós no mundo fossem celebrados. Na Antiguidade levam-vos vantagem que está de errores cheia em toda parte, como se mostra bem no que temos visto. Vós, nas obras, feitos e linhagem que na milícia sois o mesmo Marte e em virtudes cumpris a lei de Cristo. Luís de Camões (De Dom Constantino cante o universo, se bastar língua, ou prosa, engenho, ou verso.) (Wikisource)

Quingentésimo ano (205)

Se lágrimas choradas de verdade abrandar podem um coração duro, porque as minhas que nacem d' um amor puro vos não movem, Senhora, a piadade? Pois por vós perdi a liberdade, e da vida não estou inda seguro, rompei de desamor tão forte muro e não useis de vossa crueldade. A males nunca vistos dai já fim, e não queirais ser, sendo fermosa, havida por cruel e homicida. Pera vós vos queria eu piadosa; que de o nunca serdes pera mim a esperança tenho já perdida. Luís de Camões      

Quingentésimo ano (204)

Se em mi, ó Alma, vive mais lembrança que aquela só da glória de querer-vos, eu perca todo o bem que logro em ver-vos, e de ver-vos também toda a esperança. Veja-se em mi tão rústica esquivança que possa indino ser de conhecer-vos; e, quando em mor empenho de aprazer-vos, vos ofenda, se em mi houver mudança. Confirmado estou já nesta certeza; examine-me vossa crueldade, exprimente-se em mi vossa dureza. Conhecei já de mi tanta verdade, pois, em penhor e fé desta pureza, tributo vos fiz ser o que é vontade. Luís de Camões

Quingentésimo ano (203)

Se de vosso fermoso e lindo gesto nasceram lindas flores para os olhos, que para o peito são duros abrolhos, em mim se vê mui claro e manifesto. Pois vossa fermosura e vulto honesto, em os ver, de boninas vi mil molhos; mas, se meu coração tivera antolhos, não vira em vós seu dano o mal funesto; um mal visto por bem, um bem tristonho, que me traz elevado o pensamento em mil, porém diversas, fantasias, nas quais eu sempre ando, e sempre sonho. E vós não cuidais mais que em meu tormento, em que fundais as vossas alegrias. Luís de Camões

Quingentésimo ano (202)

Se cuidasse que nesse peito isento inda algum tempo minha grande dor vos fizesse sentir, não digo amor, senão um piadoso sentimento; tamanho fora meu contentamento que o mal que por vós passo, inda que mor, sem pena, sem cuidado, sem temor, sem queixumes passara este tormento. Porém como, Senhora, já conheço a vossa condição isenta e dura no pouco que sentis o que padeço, não há i senão queixar-me da Ventura pois, em lugar do bem que vos mereço, males em tanto mal me dais por cura. Luís de Camões

Quingentésimo ano (201)

Se com desprezos, Nympha, te parece Que podes desviar do seu cuidado Hum coração constante, que se offrece A ter por gloria o ser atormentado. Deixa a tua porfia, e reconhece Que mal sabes de amor desenganado; Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece, Crescendo em mi de ti mais desamado. O esquivo desamor, com que me tratas, Converte em piedade, se não queres Que cresça o meu querer, e o teu desgosto. Vencer-me com cruezas nunca esperes: Bem me podes matar, e bem me matas; Mas sempre ha de viver meu presupposto.   Luís de Camões              

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 70 Macau foi uma colónia e, posteriormente, uma província ultramarina sob administração portuguesa desde1557 a 1999 Só em 1887 é que a China reconheceu oficialmente a soberania e ocupação perpétua portuguesa sobre Macau, através do Tratado de Amizade e Comércio Sino- Português Em 1967, como consequência do Motim 12-3, que marcou a revolta de residentes chineses de Macau a favor dos comunistas, em 3 de 1966, Portugal renunciou à sua ocupação perpétua de Macau. Em 1987, após intensas negociações entre Portugal e a República Popular da China, os dois países acordaram que Macau voltaria para a soberania chinesa no dia 20 de dezembro de 1999. A Região Administrativa Especial de Macau é constituída pela península de Macau e por duas ilhas: Taipa e Coloane. Após a ligação feita por meio de um aterro, o istmo de Cotai, Macau ficou com a superfície de 28,6 km2.  (Wikipedia)    A Marina e o Roberto devido ao aproximar do fim do ano letivo e a chegada do...

Quingentésimo ano (200)

Se as penas com que Amor tão mal me trata Permittirem que eu tanto viva dellas, Que veja escuro o lume das estrellas, Em cuja vista o meu se accende e mata; E se o tempo, que tudo desbarata, Seccar as frescas rosas, sem colhellas, Deixando a linda côr das tranças bellas Mudada de ouro fino em fina prata; Tambem, Senhora, então vereis mudado O pensamento e a aspereza vossa, Quando não sirva ja sua mudança. Ver-vos-heis suspirar por o passado, Em tempo quando executar-se possa No vosso arrepender minha vingança. Luís de Camões

Quingentésimo ano (199)

Se somente hora alguma em vós piedade De tão longo tormento se sentíra, Amor sofrêra mal que eu me partíra De vossos olhos, minha Saudade. Apartei-me de vós, mas a vontade, Que por o natural na alma vos tira, Me faz crer que esta ausencia he de mentira; Porém venho a provar que he de verdade. Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento Lagrimas tristes tomarão vingança Nos olhos de quem fostes mantimento. Desta arte darei vida a meu tormento; Que, em fim, cá me achará minha lembrança Sepultado no vosso esquecimento. Luís de Camões

Quingentésimo ano (198)

Se a ninguém tratais com desamor, antes a todos tendes afeição, e se a todos mostrais um coração cheio de mansidão, cheio de amor; desde hoje me tratai com desfavor, mostrai-me um ódio esquivo, ũa isenção; poderei acabar de crer então que somente a mi me dais favor. Que, se tratais a todos brandamente, claro é que aquele é só favorecido a quem mostrais irado o continente. Mal poderei eu ser de vós querido, se tendes outro amor na alma presente, que amor é um, não pode ser partido. Luís de Camões

Quingentésimo ano (197)

Se a Fortuna inquieta e mal olhada, que a justa lei do Céu consigo infama, a vida quieta, que ela mais desama, me concedera, honesta e repousada; pudera ser que a Musa, alevantada com luz de mais ardente e viva flama, fizera ao Tejo lá na pátria cama adormecer co som da lira amada. Porém, pois o destino trabalhoso, que me escurece a Musa fraca e lassa, louvor de tanto preço não sustenta, a vossa, de louvar-me pouco escassa, outro sujeito busque valeroso, tal qual em vós ao mundo se apresenta. Luís de Camões  

Quingentésimo ano (196)

De tão divino accento em voz humana, De elegancias que são tão peregrinas, Sei bem que minhas obras não são dinas; Que o rudo engenho meu me desengana. Porém da vossa penna illustre mana Licor que vence as águas Caballinas; E comvosco do Tejo as flores finas Farão inveja á cópia Mantuana. E pois, a vós de si não sendo avaras, As filhas de Mnemosine formosa Partes dadas vos tẽe ao mundo claras; A minha Musa, e a vossa tão famosa, Ambas se podem nelle chamar raras, A vossa de alta, a minha de invejosa. Luís de Camões

Quingentésimo ano (195)

Razão é já que minha confiança se deça de ũa falsa opinião; mas Amor não se rege por razão: não posso perder logo a esperança. A vida, si; que ũa áspera mudança não deixa viver tanto um coração. E eu na morte tenho a salvação, si; mas quem a deseja não a alcança. Forçado é logo que eu espere e viva. Ah! dura lei de Amor, que não consente quietação nũa alma que é cativa! Se hei-de viver, enfim, forçadamente, para que quero a glória fugitiva de ũa esperança vã que me atormente? Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu     68      Ontem, por lapso, saltei esta página. Às leitoras e leitores, peço  desculpa.   Na sua segunda viagem, Vasco da Gama partiu para a Índia com 15 navios e 800 homens, chegaram a Calecute a 30 de outubro de 1502, onde o governador estava disposto a assinar um tratado Gama exigiu que fossem expulsos todos os muçulmanos de Calecute, exigência que foi veemente rejeitada. Bombardeou a cidade, capturou vários navios de arroz e voltou para Portugal em1503 A 25 de Março de 1505, D. Francisco de Almeida foi nomeado vice-rei da Índia. O Estado Português da Índia foi constituído e 1505 com a nomeação do primeiro vice-rei, inicialmente estabelecido em Cochim. Em 1510, recebeu o nome oficial de Estado Português da Índia devido à expansão territorial efetuada por Afonso de Albuquerque, que conquistou Goa, passando a ser a sede da presença portuguesa no subcontinente indiano.          Como combinado, no domingo, a Marina e Roberto chegaram pelas on...

Quingentésimo ano (194)

Quem vos levou de mi, saudoso estado, que tanta sem-razão comigo usastes? Quem foi? Por quem tão presto me negastes, esquecido de todo o bem passado? Trocastes-me um descanso em um cuidado tão duro, tão cruel, qual me ordenastes; a fé, que tínheis dado, me negastes, quando mais nela estava confiado. Vivia sem receio deste mal; Fortuna, que tem tudo a sua mercê, amor com desamor me revolveu. Bem sei que neste caso nada val, que, quem naceu chorando, justo é que pague com chorar o que perdeu. Luís de Camões

O Império

O Império  - As teias que o Império teceu 69 Foi um domingo perfeito, todos estavam muito contentes:para os futuros pais, porque tinham  "uma mãe para eles e uma avó para o seu bebé", para a Anastácia, porque tinha, novamente, uma família. Assim que a Marina e o Roberto decidissem ir viver lá para casa, esta deixava de ser uma casa sem vida e passaria a ter muita alegria Os seus rostos mostravam toda a felicidade, que o dia lhes tinha proporcionado, não podendo ficar por mais tempo, porque no dia seguinte tinham aulas muito cedo, despediram-se da sua grande amiga, com a promessa de visitá-la sempre que pudessem, enquanto não se mudassem lá para casa Havia muito tempo que não se sentiam tão felizes, uma das maiores preocupações tinha acabado, já tinham quem cuidasse do bebé, e ainda por cima não precisava de ser arrancado da cama, como acontece a muitos bebés, que têm de ser levados de um lado para outro, para que os pais possam ir trabalhar Era muita a euforia, mal chegaram a...

Quingentésimo ano (193)

Quem quiser ver d' Amor ũa excelência onde sua fineza mais se apura, atente onde me põe minha ventura, por ter de minha fé experiência. Onde lembranças mata a longa ausência, em temeroso mar, em guerra dura, ali a saudade está segura, quando mor risco corre a paciência. Mas ponha-me Fortuna e o duro Fado em nojo, morte, dano e perdição, ou em sublime e próspera ventura; ponha-me, enfim, em baixo ou alto estado; que até na dura morte me acharão na língua o nome, n'alma a vista pura. Luís de Camões

Quingentésimo ano (192)

Quem pudéra julgar de vós, Senhora, Que huma tal fé pudesse assi perder-vos? Se por amar-vos chego a aborrecer-vos, Deixar não posso o amar-vos algum'hora. Deixais a quem vos ama, ou vos adora, Por ver a quem quiçá não sabe ver-vos? Mas eu sou quem não soube merecer-vos, E esta minha ignorancia entendo agora. Nunca soube entender vossa vontade, Nem a minha mostrar-vos verdadeira, Indaque clara estava esta verdade. Esta, em quanto eu viver, vereis inteira; E se em vão meu querer vos persuade, Mais vosso não querer faz que vos queira. Luís de Camões

Quingentésimo ano (191)

Quem póde livre ser, gentil Senhora, Vendo-vos com juizo socegado, Se o menino, que de olhos he privado, Nas meninas dos vossos olhos mora? Alli manda, alli reina, alli namora, Alli vive das gentes venerado; Que o vivo lume, e o rosto delicado, Imagens são adonde Amor se adora. Quem vê que em branca neve nascem rosas Que crespos fios de ouro vão cercando, Se por entre esta luz a vista passa, Raios de ouro verá, que as duvidosas Almas estão no peito traspassando, Assi como hum crystal o sol traspassa. Luís de Camões

Quingentésimo ano (190)

Quem fosse acompanhando juntamente Por esses verdes campos a avezinha, Que despois de perder hum bem que tinha, Não sabe mais que cousa he ser contente! E quem fosse apartando-se da gente. Ella por companheira e por vizinha, Me ajudasse a chorar a pena minha, E eu a ella tambem a que ella sente! Ditosa ave! que ao menos, se a natura A seu primeiro bem não dá segundo, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. Mas triste quem de longe quiz ventura Que para respirar lhe falte o vento, E para tudo, em fim, lhe falte o mundo! Luís de Camões

Quingentésimo ano (189)

Que poderei do mundo ja querer, Pois no mesmo em que puz tamanho amor, Não vi senão desgôsto e desfavor, E morte, em fim; que mais não póde ser? Pois me não farta a vida de viver, Pois ja sei que não mata grande dor, Se houver cousa que mágoa dê maior, Eu a verei; que tudo posso ver. A Morte, a meu pezar, me assegurou De quanto mal me vinha: ja perdi O que a perder o medo me ensinou. Na vida desamor somente vi, Na morte a grande dor que me ficou: Parece que para isto só nasci. Luís de Camões

Quingentésimo ano (188)

Que modo tão subtil da natureza Para fugir ao mundo e seus enganos! Permitte que se esconda em tenros anos Debaixo de hum burel tanta belleza! Mas não póde esconder-se aquella alteza E gravidade de olhos soberanos, A cujo resplandor entre os humanos Resistencia não sinto, ou fortaleza. Quem quer livre ficar de dor e pena, Vendo-a ja, ja trazendo-a na memoria, Na mesma razão sua se condena. Porque quem mereceo ver tanta gloria Captivo ha de ficar; que Amor ordena Que de juro tenha ella esta victoria. Luís de Camões

Quingentésimo ano (187)

Que me quereis perpétuas saudades? Com qu'esperanças inda me enganais? O tempo, que se vai, não torna mais, E se torna, não tornão as idades. Razão he ja, ó annos, que vos vades, Porque estes tão ligeiros que passais, Nem todos para hum gôsto sois iguais, Nem sempre são conformes as vontades. Aquillo a que ja quiz he tão mudado, Que quasi he outra cousa; porque os dias Tẽe o primeiro gôsto ja damnado. Esperanças de novas alegrias, Não m'as deixa a Fortuna e o tempo irado, Que do contentamento são espias. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que  o Império teceu 67 Estado Português da Índia Vasco da Gama atracou em Calecute, em 20 de Maio de 1498, conseguiu assegurar uma carta de concessão para as trocas comerciais com o Samorim, o governador de Calecute Os portugueses estabeleceram um porto comercial, mas foram incapazes de pagar os direitos aduaneiros dos seus bens em ouro Mais tarde, funcionários de Calecute detiveram temporariamente agentes de Vasco da Gama, como garantia de pagamento. Isso irritou Gama, que levou alguns nativos e dezasseis pescadores com ele pela força, A expedição foi bem-sucedida, levando carga com valor sessenta vezes o custo da expedição A frota de Pedro Álvares Cabral chegou a Calecute a 13 de setembro de 1500, obteve autorização para instalar uma feitoria e um armazém na cidade-estado Em meados de dezembro, a feitoria foi atacada por cerca de 300 homens, 50 portugueses perderam a vida, os restantes retiram-se para os navios, alguns a nado Cabral esperou 24 horas por um ped...

Quingentésimo ano (186)

Que levas, cruel Morte? Hum claro dia. A que horas o tomaste? Amanhecendo. E entendes o que levas? Não o entendo. Pois quem to faz levar? Quem o entendia. Seu corpo quem o goza? A terra fria. Como ficou sua luz? Anoitecendo. Lusitania que diz? Fica dizendo... Que diz? Não mereci a grã Maria. Mataste a quem a vio? Ja morto estava. Que discorre o Amor? Fallar não ousa. E quem o faz callar? Minha vontade. Na Corte que ficou? Saudade brava. Que fica lá que ver? Nenhuma cousa. Que gloria lhe faltou? Esta beldade. Luís de Camões

Quingentésimo ano (185)

«Que gritos são os que ouço?» – «De tristeza». «Quem é a causa dela?» – «A morte só». «Tão grande mal nos fez?» – «Quebrou um nó». «Que nó? A quem atava?» – «A gentileza». «Era mais que fermosa?» – «Era de Alteza». «Desfez-se em ouro?» – «Não, em terra, em pó». «Também é como nós?» – «Também, mas só». «Que gemes?» – «De perder a tal Princesa». «Não vês que tudo é mundo?» – «Bem o entendo». «Pois não te agastes». – «Não mo sofre a alma». «Que te consola aqui?» – «Na vida vê-la». «Tão boa foi?» – «O reino o está dizendo». «Pois sabe que, se cá levou a palma, que lá terá também a palma dela». Luís de Camões  

Quingentésimo ano (184)

Quantas vezes do fuso se esquecia Daliana, banhando o lindo seio, Outras tantas de hum aspero receio Salteado Laurenio a côr perdia. Ella, que a Sylvio mais que a si queria, Para podê-lo ver não tinha meio. Ora como curára o mal alheio Quem o seu mal tão mal curar podia? Elle, que vio tão clara esta verdade, Com soluços dizia (que a espessura Inclinavão, de mágoa, a piedade): Como póde a desordem da natura Fazer tão differentes na vontade Aos que fez tão conformes na ventura? Luís  de Camões