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Mostrando postagens de junho, 2007

Joana

Introdução: As crianças são graciosas flores em crescimento                     Devemo-lhes   a ocupação do nosso pensamento.   12/09/2004     JOANA       Joana, rosa enjeitada De   lado para lado empurrada Nem pela mãe, nem pelo pai, amada No seu triste sorriso sufocada. Flor de alma magoada Corpo franzino desprezado Num vai e vem esforçado.   O quente verão incendiou-se O sol nunca mais brilhou A verde dúvida mói mais, Que a negra morte. Foram tão duros os dias Que te traçou a sorte. Joana, escura foi a noite Em que teus tristes olhos Vibraram sem crer No incesto que estavam a ver. A lua imolou-se no éter Por   antever o que te ia acontecer Tudo começou a esmorecer Com o bárbaro anoitecer. Só as tuas bonecas te choraram Desfizeram-se em lágrimas A tua morte as matou Ninguém mais as embalou.             Ps. À menina que, do Algarve, desapareceu.     José Silva Costa    

Mãe

Três letras doces Tão doces, tão doces como o amor Mas, como a minha mãe não há outra igual Porque é a minha mãe A quem recorro todos os dias Nas horas de alegria e de horror. A minha mãe criou os filhos na dor, Com o brilho dos olhos, e as mãos cheias de amor. Sustentou-os com as lágrimas do coração Na falta de pão beijava-os até adormecerem. No Inverno, nas noites escuras de frio, fiava o linho Com os mesmos   rubros lábios, com que nutria os filhos, Humedecia o áspero linho, quando este passava da roca Para o fuso, transformado em fio. Na Primavera lançava o sacho à terra, Era tempo de mondar o trigo, arrancando erva. O calor do Verão amadurecia o pão, Colhê-lo exigia esforço até à exaustão: Durante o dia,   a calma, os corpos cozia Há noite, ao luar, ceifava até o corpo aguentar Quando as pernas já   lhe não obedeciam Sentava-se num molho de trigo E dava de mamar ao filho ou à filha. Aí, minha mãe, quanto sofreste Para que eu não perecesse, e crescesse? Aí, minha mãe, por mais que ...

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Fogem à   fome Deixam a família Andam anos a pé Morrem de fadiga Sem nada na barriga   Chegar a Mellila ou Céuta Às portas do paraíso! Um paraíso muito guardado Por arame farpado   África, fome, corrupção Fome, corrupção, imigração A corrupção aperta o coração África, mãe, madrasta A fome, multidões arrasta A esperança basta Para percorrer o Continente, a pé   Arriscam a vida Porque, na verdade, já a perderam Se conseguirem atravessar o mar Beber a água da Europa Se não forem recambiados Ressuscitam   Tantas desigualdades! Uns com tudo Outros sem nada Antes escravizados Agora esfomeados Morrem aos punhados À vista dos nossos telhados Mal tratados Pela nossa indiferença De obesos   atulhados Nas bandas gástricas Da abundância.   G 7 mais um Conferência UE   África São só promessas De milhões de nada De consciências comprometidas A esconderem-se das vidas Que sangram nas avenidas Enquanto os donos do Mundo Se empanturram de comidas.  

A negra morte

Sexta-feira negra, na escola de Beslan, na república da Ossétia do Norte, no sul da Rússia, onde um comando terrorista tchetcheno mantinha centenas de reféns desde o dia   01/09/2004. O Sol raiou O dia amanheceu A alegria floriu As crianças sorriam Festejavam o início das aulas Com a participação de: Avós, pais, irmãos e professores Era a recepção às frágeis flores. De repente escureceu A euforia morreu As flores murcharam Os sicários sequestraram a alegria Porque ela os ofendia Como sanguinários matadores Cobardes atiradores E até as mulheres Que os acompanhavam Não tinham espirito maternal Fizeram àqueles inocentes Todo o mal Mataram tenras esperanças De alegres crianças Fuzilaram também Mães, filhos, avós e netos Deitaram abaixo os tectos Três dias de inferno. Mortos de fome e sede Sujeitaram-se a urina beber Era muito cedo para morrer. Nas horas aflitas Todas as palavras lhes foram ditas Nenhuma lhes amoleceu o   que não tinham : coração Eram feitos de ódio.                 

A vida

A vida é uma flor Que desabrocha lentamente É como um rio Começa na nascente Dentro de um ventre Da fusão da semente O vento leva-lhe as pétalas E o tempo o perfume.   A vida é uma flor muito bem urdida Vai-se tecendo, momento a momento,   com a ajuda do tempo Perfuma   tudo o que a rodeia Quando chega ao fim a teia,   voa numa manta de vento.

A flor

Quando nasce uma criança: É o Natal a chorar É o presépio a cantar É uma Estrela no altar É o Mundo que avança É a Natureza que dança É a esperança que nasce É o amor que renasce É o amanhecer de um sorriso É o florir de um grito É uma flor sem idade É um presente à humanidade É o futuro, é a alegria É um raio de luz É a maior magia.

A Dor

O cais pintado de negro O rio alteroso As ruas desertas A manhã chorosa.   A guerra no horizonte O barco atracado à ponte O vento a assobiar no monte O sol escondido de vergonha.   As mães desesperadas Os filhos criados A guerra a roubar-lhos Os soldados conscientes.   As namoradas inconformadas Com o cheiro a morte no ar A putrefacção dos corpos viçosos A substituir o perfume dos vinte anos.   O monstro de bojo cheio A afastar-se do cais Os olhos rasos de sais Todo o porto aos ais.   Os órfãos a gemerem Por lhes matarem os pais O país doente O futuro sem semente.   A multidão atracada à dor De olhos cerrados A sonhar com o regresso De braços estendidos A desviarem o ar Que lhes massacra os sentidos.

A despedida

Fico, no cais, atracada à minha dor De olhos fechados pelo amor De braços presos no horror De te perder na guerra. Morro aqui à tua espera Com os teus últimos beijos Presos nos sentidos. Abro os olhos E, à memória, só me vêm maus pensamentos O coração não aguenta   Tão grande separação. Beijo os   cabelos Perfumados pelos teus dedos Sinto-os entrelaçados nas recordações Que embalaram o meu corpo Agora, condenado a definhar Com a tua ausência. Sem o teu carinho e amor Meus olhos fecho, para sempre, Meu amor.      

A A2

A Rodízio 12/12/2001 auto-estrada para o Algarve   Aos três brasileiros, dois guineenses e um ucraniano, que faleceram na construção de um viaduto, no concelho de Almodôvar     Já Dezembro era entrado Mais um ano quase acabado Vindos de tão longe, desafiar o fado Na auto-estrada, seu fim foi chegado.   Madrugada negra, no viaduto começado Quatro da manhã, ferro e cimento No escuro, surgiu o desabamento Seis vidas ceifadas, num momento.   Trabalhar, de noite ou   de dia Ao vento ou à chuva fria À procura de uma melhoria Numa vida cheia de monotonia.   Viestes do Brasil, da Ucrânia e da Guiné Com muitos   projectos e   muita fé Procurar, em Portugal, melhor sorte Mas aqui, encontrastes a morte.   A trinta e cinco metros de altura Numa vida, muito, muito dura Encontraram a sua sepultura Numa noite muito fria e escura.   A construção da auto- estrada tem de seguir em frente Ainda que esta venha a ser o cemitério de muita gente Que aguarda a sua conclusão impacientemente . Porque anseia che...

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Rodízio, 08/04/2003   A Guerra em Directo   A Primavera não trouxe flores A guerra só traz horrores As crianças gemem de dores As guerras são tumores.   As bombas nos televisores, As crianças jazem, sem dores. Os hospitais não têm dadores, Os aviões são vampiros voadores.   A câmara de filmar ensanguentada, O operador jaze morto, na estrada. A memória para sempre arrepiada Pela imagem, na televisão, passada.   A mãe beija a filha, que está magoada A criança abre os olhos, de assustada É a morte, pelo avião, anunciada, Foi o míssil, disparado, na madrugada.   O sangue corre pela estrada Na guerra a vida não vale nada Só, a morte merece ser louvada A guerra é, sempre, uma via desastrada.    

Albufeira

Albufeira O encanto encantado O Mundo no ponto desejado Um perfume a mar Em terra semeado Com o sol bronzeado. Nas praias, ou nas piscinas O ar aconchegado No corpo perfumado Vindo de longe, ou de perto À procura de um chão torrado Que o aqueça do inverno gelado E, esqueça todo o tempo passado Longe do sonho desejado. No calor do Verão Com os corpos vestidos de areia É o Mundo que te passeia Princesa lusa enredada na teia Gente de todo o mundo Sonhando com noites de lua cheia Que o ar incendeia. Um ponto de encontro De culturas, línguas e sono No doce e suave aconchego Dos teus braços salgados de de sul Ondulados com as dores do Mundo Quentes como a alfarroba, o figo e o medronho Que embebeda todos os sonhos. Gente de todo o Mundo Embebida de encantos Com corpos em em flor Bocas sequiosas de odor Envoltas em estrelas de desejo Dormem em ondas de amor Nas quentes noites de calor Na meia lua das casas da rua Onde a praia acorda nua. Nascem ondas de amor Com corpos salgados de furor Bocas...

Joana

Algarve, 12/09/2004   Joana, rosa enjeitada De um para outro lado empurrada Nem pelo pai, nem pela mãe amada No seu triste sorriso sufocada. Flor de alma magoada Corpo franzino desprezado Num vai vem esforçado. O verão incendiou-se O sol nunca mais brilhou A verde dúvida mói mais Que a negra morte. Foram tão duros os dias Que te traçaram a sorte. Joana, escura foi a noite Em que teus tristes olhos Vibraram sem crer No incesto que estavam a ver. A lua imolou-se no éter Por antever o que te ia acontecer Tudo começou a esmorecer Com o bárbaro anoitecer. Só as tuas bonecas te choraram Desfizeram-se em lágrimas A tua morte as matou Ninguém mais as embalou.    

Mosteiro de Arouca

Às Noviças, e a todos, a quem roubaram a liberdade Na juventude Quando o corpo se empertiga E o desejo o castiga O pensamento é o seu sustento Nada o prende, nem o vento. A liberdade é empolgamento Que não cabe em nenhum convento Por muito que o queiram tornar bento É, sempre, um lugar sem movimento. Para o amor não existem prisões Mosteiros, grades, divisões É a vida afogada, no fogo da clausura O sonho ceifado no raiar da aurora O ímpeto maternal subjugado pelas paredes. Noviças, monjas, abadessas no isolamento Nem a presença das aias lhes suavizava o sofrimento É a dimensão do mundo num momento A roda do tempo presa num fio de vento A morte antes da dor e do julgamento.