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Mostrando postagens de novembro, 2024

Quingentésimo (335)

99. Cantiga a uma senhora de apelido Anjos, que lhe chamou diabo MOTO: Senhora, pois me chamais tão sem razão tão mau nome, inda o diabo vos tome, VOLTAS Quem quer que viu, ou que leu, terá por novo e moderno ter quem vive no Inferno o pensamento no Céu. Mas se a vós vos pareceu que me estava bem tal nome, esse diabo vos tome. Perdido mais que ninguém confesso, Senhora, ser; a uma Dama de apelido Anjos, que lhe chamou diabo mas «diabo» não quer aos «Anjos» tamanho bem. Pois logo não me convém, ou se me convém tal nome será para que vos tome. Se vos benzeis com cautela, como de Anjo, e não de luz, mal pode fugir da Cruz quem vós tendes posto nela. Mas já que foi minha estrela, ser «diabo», e ter tal nome, guardai-vos, que vos não tome Já que chegais tanto ao cabo, co as mãos postas aos Céus, vou sempre pedindo a Deus que vos leve este «diabo». Eu, Senhora, não me gabo; mas, pois que me dais tal nome, tomo-o, para que vos tome.

Quingentésimo (334)

36. Cantiga a este moto: Quem se confia em olhos, nas meninas deles vê, que meninas não têm fé. VOLTAS Quem põe suas confianças em meninas sem assento, ofereça o sofrimento a duzentas mil mudanças. Mostram no ar esperanças, mas em seus olhos se vê como não têm n'alma fé. Enganam ao parecer, porque, no caso de amar, são mulheres no matar e meninas no querer. Quem em seus olhos se crer, cem mil graças neles vê; vê-las, sim, mas não ter fé. Amostram-vos num momento favores assi a molhos; mas na mudança dos olhos se lhe muda o pensamento. Em nada têm assento, e o que mais neles se vê é fermosura sem fé.

Quingentésimo (333)

108. Esparsa Cantiga a um fidaldo, na Índia, que lhe tardava com uma camisa galante, que lhe prometera Quem no mundo quiser ser havido por singular, para mais se engrandecer há-de trazer sempre o dar nas ancas do prometer. E já que vossa mercê largueza tem por divisa, como todo mundo vê, há mister que tanto dê que venha [a] dar a camisa.

O Império

O Império  -   As teias que o Império teceu 89 A Marina e o Roberto terminaram os estudos na Universidade de Coimbra, o facto de ser o primeiro casal a licenciar-se, na única Universidade do país, foi muito comemorado por todas as faculdades, com o desejo de um bom regresso a casa e de muitas felicidades Em casa, a Anastácia fez um almoço especial, para comemorarem o acontecimento, que tinha tanto de alegria como de tristeza, devido à separação dos dois casais Mas, primeiro era preciso festejar a alegria e a felicidade da Marina e do Roberto, por terem conseguido concretizar o seu sonho, e não menos alegria e felicidade de quem os ajudou a concretizá-lo: a Anastácia e o Elisiário Assim que terminaram as licenciaturas, a Marina e o Roberto começaram a preparar o regresso a Luanda, se quando vieram para Coimbra, a viagem, entre Lisboa e Coimbra, tinha sido o cabo dos trabalhos, como seria com uma criança de quatro anos? Valeu-lhes, o facto do Elisiário conhecer um Conde, que todos os ano...

Quingentésimo (332)

109. Trovas que o Autor mandou da cadeia em que o tinha embargado por üa dívida Miguel Roiz, «Fios-Secos» de alcunha, que se embarcava para fora, ao Conde do Redondo, Vizo-Rei, pedindo-lhe o fizesse desembargar Que diabo há tão danado que não tema a cutilada dos fios secos da espada do fero Miguel armado? Pois se tanto um golpe seu soa na infernal cadeia, do que o demónio arreceia, como não fugirei eu? Com razão lhe fugiria, se contra ele, e contra tudo, não tivesse um forte escudo só em Vossa Senhoria. Portanto, Senhor, proveja, pois me tem ao remo atado, que, antes que seja embarcado, eu desembargado seja.

Nuvens negras

Nuvens negras   Mães sem filhos E sem maridos Gritos escondidos Tudo destruído Terra em fogo Este mundo mete nojo Arruaceiros vomitam nacionalismo Alimentam-se de ódio e gritos Para eles tudo é inimigo Multidões acreditam em aldrabões Comem convoluções E embebedam-se em reuniões Adoram os falcões Que lhes prometem melões Só colhem desilusões Mastigam vinganças ente as nações Arrastam gente, que odeia o outro Só porque é diferente Acreditam em quem só mente Uma negra semente Pode dar cabo da boa gente Que acredita em gente influente Que lhes diz que os outros comem cobras e lagartos Quando são tudo boatos Fazendo com que o ódio lhes tolde os sentidos. José Silva Costa        

Quingentésimo (331)

3. Cantiga a esta cantiga alheia: Vida da minh'alma não vos posso ver: isto não é vida para se sofrer! Quando vos eu via, esse bem lograva, a vida estimava; mais então vivia, porque vos servia só para vos ver. Já que vos não vejo, para que é viver? Vivo sem rezão, porque em minha dor não a pôs Amor, que inimigos são. Mui grande treição me obriga a fazer que viva, Senhora, sem vos poder ver. Não me atrevo já, minha tão querida, a chamar-vos vida, porque a tenho má. Ninguém cuidará, que isto pode ser, sendo-me vós vida, não poder viver!

O 25 de Novembro!

Vaidades e vinganças Querem fazer do 25 de novembro a continuação do 25 de abril, por que razão se esquecem do 11 de março? Nunca festejarei, nem o 11 de março, nem o 25 de novembro, são datas para esquecer, porque dividem a sociedade portuguesa, e tudo o que não precisamos são mais divisões, violência, destruições……. No 11 de março os comunistas conseguiram derrotar a direita representada pelo General Spínola Nacionalizaram tudo, prenderam alguns patrões e outros fugiram para o estrangeiro, foi um trocar de cadeiras, durante a ditadura os trabalhadores foram para as prisões, no 11 de março calhou aos patrões, mas houve quem beneficiasse de muitos milhões, na hora do aperto, antes de apanharem os aviões, passaram procurações, que se tornaram em doações Passados 50 anos, muita coisa voltou ao antigo, os patrões recuperaram as suas fortunas, alguns mudaram de negócio: CUF-Companhia União Fabril, não tinha nada a ver com saúde Do nada nasceram dois grandes grupos, na distribuição alimenta...

Quingentésimo (330)

23 Trovas a üa Dama que lhe jurara sempre por seus olhos não crer tão grão juramento. Quando me quer enganar a minha bela perjura, para mais me confirmar o que quer certificar, pelos seus olhos mo jura. Como meu contentamento todo se rege por eles, imagina o pensamento que se faz agravo a eles sempre por seus olhos não crer tão grão juramento. Porém, como em casos tais ando já visto e corrente, sem outros certos sinais, quanto me ela jura mais tanto mais cuido que mente. Então, vendo-lhe ofender uns tais olhos como aqueles, deixo-me antes tudo crer, só pela não constranger a jurar falso por eles.

Quingentésimo (329)

Cantiga a este moto: Ojos, herido me habéis, acabad ya de matarme; mas, muerto, volve á mirarme, por que me resucitéis. VOLTAS Pues me distes tal herida, con gana de darme muerte, el morir me es dulce suerte, pues con morir me dais vida. Ojos, ¿qué os detenéis? Acabad ya de matarme; mas muerto volved á mirarme, por que me resuscitéis. La llaga cierto ya es mía, aunque, ojos, vos no queráis; mas si la muerte me dais, el morir me es alegría. Y así digo que acabéis, ojos, ya de matarme; mas muerto, volved á mirarme, por que me resucitéis.

Quingentésimo (328)

Cantiga ao mesmo moto a esta cantiga alheia: Na fonte está Leanor lavando a talha e chorando, as amigas perguntando: vistes lá o meu amor? VOLTAS Posto o pensamento nele, porque a tudo o Amor a obriga, cantava, mas a cantiga eram suspiros por ele. Nisto estava Leanor o seu desejo enganando, às amigas perguntando: vistes lá o meu amor? O rosto sobre üa mão, os olhos no chão pregados, que, do chorar já cansados, algum descanso lhe dão. Desta sorte Leanor suspende de quando em quando sua dor; e, em si tornando, mais pesada sente a dor. Não deita dos olhos água, que não quer que a dor se abrande Amor, porque em mágoa grande seca as lágrimas a mágoa. Que, despois de seu amor soube novas, perguntando, d'emproviso a vi chorando. Olhai que extremos de dor!

Quingentésimo (327)

59. Glosa ao mesmo moto Posible es a mi cuidado poderme hacer satisfecho, si fuera posible al hado hacer no echo lo echo, y futuro lo pasado. Si olvido pudiera haber, fuera remedio sufrible; mas ya que no puede ser, para contento me hacer, todo es poco lo posible.

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 88 Chegou o grande dia da festa do nascimento da Milay, o palácio foi pequeno, para tanta gente, valeu-lhes o jardim, que acomodou os que não conseguiram entrar no palácio Gente de todas as idades compareceram, para participarem no grande acontecimento, a cidade desaguou no palácio do Governador Estava tudo muito bem organizado, as tias da Milay e os criados esmeram-se para que tudo corresse muito bem, e foi o que aconteceu, todos lhes deram os parabéns, e até o avô ficou surpreendido com o bom trabalho, para homenagear a primeira neta. Toda a família se mostrou muito agradecida para com todos os convidados, por terem aceitado abrilhantar a festa com as suas presenças. Mas, as quatro tias foram as que se mantiveram, toda a festa, numa roda-viva cumprimentando todos e mostrando-se a todos Não queriam perder a oportunidade de criarem amizades, que as pudessem levar ao conhecimento de toda a cidade, principalmente aos rapazes das suas idades, sed...

Quingentésimo (326)

45. Glosa a este moto alheio: Minha alma, lembrai-vos dela. Pois o ver-vos tenho em mais que mil vidas que me deis, assi como a que me dais, meu bem, já que mo negais, meus olhos, não mos negueis. E se a tal estado vim, guiado de minha estrela, quando houverdes dó de mim, minha vida, dai-lhe a fim, minha alma. lembrai-vos dela.

Quingentésimo (325)

17. Cantiga a este cantar velho: Coifa de beirame namorou Joane. VOLTAS por cousa tão pouca andas namorado? Amas a toucado e não quem o touca? Ando cega e louca por ti, meu Joane; tu, pelo beirame. Amas o vestido? És falso amador. Tu não vês que Amor se pinta despido? Cego e perdido andas por beirame, e eu por ti, Joane. Se alguém te vir, que dirá de ti? Que deixas a mi por cousa tão vil! Terá bem que rir, pois amas beirame, e a mim não, Joane. Quem ama assi há-de ser amada; ando maltratada de amores, por ti. Ama-me a mi, e deixa o beirame, que é razão, Joane! A todos encanta tua parvoíce; de tua doudice Gonçalo se espanta e zombando canta: -Coifa de beirame namorou Joane! Eu não sei que viste neste meu toucado, que tão namorado dele te sentiste. Não te veja triste: ama-me, Joane, e deixa o beirame! (Joane gemia, Maria chorava, assi lamentava o mal que sentia; os olhos feria, e não o beirame que matou Joane.) Não sei de que vem Amares vestido; que o mesmo Cupido vestido não tem. Sabes ...

Quingentésimo ano (324)

103. Cantiga a este vilancete pastoril -Deus te salve, Vasco amigo Não me falas ? Como assi ? -Bofé, Gil, não estava aqui VOLTAS Pois onde te hão-de falar, se não estás onde apareces? -Se Madanela conheces, nela me podes achar. -E como te hão-de ir buscar, aonde fogem de ti? -Pois nem eu estou em mi.

Quingentésimo ano (323)

27. Trovas a üna Senhoras que haviam de ser terceiras para com üa Dama sua Pois a tantas perdições, Senhoras, quereis dar vida, ditosa seja a ferida que tem tais cerurgiões! Pois ventura me subiu a tanta altura que me sejais valedoras, ditosa seja a tristura que se cura por vossos rogos, Senhoras! Ser minha pena mortal, já que entendeis que é assim, não quero falar por mim, que por mim fala meu mal. Sois fermosas, haveis de ser piadosas, por ser tudo düa cor; que pois Amor vos fez rosas milagrosas, fazei milagres d'amor. Pedi a quem vós sabeis que saiba de meu trabalho, não pelo que eu nisso valho, mas pelo que vós valeis. Que o valer de vosso alto merecer, com lho pedir de giolhos, fará que em meu padecer possa ver o poder que têm seus olhos. Vossa muita fermosura co a sua tanto val que me rio de meu mal quando cuido em quem mo cura. A meus ais peço-vos que lhe valhais, Damas de Amor tão validas, que nunca tal dor sintais que queirais onde não sejais queridas.

Quingentésimo ano (322)

92. Cantiga a esta cantiga alheia Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha: VOLTAS Perdigão, que o pensamento subiu em alto lugar, perde a pena do voar, ganha a pena do tormento. Não tem no ar nem no vento asas, com que se sustenha: não há mal que lhe não venha. Quis voar a üa alta torre mas achou-se desasado; e, vendo-se depenado, de puro penado morre. Se a queixumes se socorre, lança no fogo mais lenha: não há mal que lhe não venha.

Quingentésimo ano (321)

72. Cantiga a este moto sei: Se de meu mal me contento, é porque para vós vejo em todo o mundo desejo e em ninguém merecimento. VOLTAS Para quem vos soube olhar, tão impossível foi ser o poder-vos merecer, como o não vos desejar. Pois logo a meu pensamento nenhum remédio lhe vejo, senão se der o desejo asas ao merecimento.

Quingentésimo (320)

24. Cantiga a este moto: Vi chorar uns claros olhos quando deles me partia. Oh! que mágoa! Oh! que alegria! VOLTAS Pelo meu apartamento se arrasaram todos d'água. Quem cuidou que em tanta mágoa achasse contentamento? Julgue todo entendimento qual mais sentir se devia: se esta dor, se esta alegria! Quando mais perdido estive, então deu a esta alma minha na maior mágoa que tinha o maior gosto que tive. Assi, se minh'alma vive foi porque me defendia desta dor esta alegria. O bem que Amor me não deu no tempo que o desejei, quando dele me apartei me confessou que era meu. Agora, que farei eu se a fortuna me desvia de lograr esta alegria? Não sei se foi enganado, pois me tinha defendido das iras de mal querido no mel de ser apartado. Agora peno dobrado, achando no fim do dia o princípio d'alegria.

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 87 Esperava-se a toda a hora, o nascimento do bebé da Mité e do Leopoldo O Governador estava mais nervoso que os futuros pais, não conseguia esquecer-se dos últimos momentos de vida da mulher, em que fez de tudo o que sabia, para a salvar, mas que, infelizmente, não foi suficiente Só pedia que o parto da Mité corresse tão bem como o da irmã, a Marina, que lhe escreveu, dizendo que tudo tinha corrido bem, muito bem assistida, pela Anastácia   Nasceu a Milay, a filha da Mité e do Leopoldo, tudo correu bem, todos estavam muito felizes, mas ninguém estava tão eufórico como o avô que, quando lhe colocaram a neta nos braços, não conseguia estar parado, não parava de chorar, até que tiveram de o ajudar a sentar-se, acalmá-lo, com receio que ele deixasse cair a bebé As tias não podiam estar mais embevecidas com a chegada da Milay, a residência do Governador nunca mais seria a mesma, dali em diante estaria aberta a toda a cidade Como lhes tinha sido pedi...

Quingentésimo (319)

20. Trovas   a üa Senhora que estava rezando por üas contas  Peço-vos que me digais as orações que rezastes se são pelos que matastes, se por vós, que assi matais? Se são por vós, sãoperdidas; que, qual será a oração que seja satisfação, Senhora, de tantas vidas? Que, se vedes quantos vêm a só vida vos pedir, como vos há Deus ouvir se vós não ouvis ninguém? Não podeis ser perdoada com mãos a matar tão prontas, que, se nüa trazeis contas, na outra trazeis espada Se dizeis que encomendando os que matastes andais, se rezais por quem matais, para que matais rezando? Que, se na força do orar levantais as mãos aos Céus, não as ergueis para Deus, erguei-las para matar. E quando os olhos cerrais todaenlevada na fé, cerram-se os de quem vos vê, para nunca verem mais. Pois se assi forem tratados os que vos vêm quando orais, essas horas que rezais são as horas dos finados. Pois logo, se sais servida que tantos mortos não sejam, não rezeis onde vos vejam, ou vede para dar vida. Ou, se quereis escu...

Quingentésimo (318)

49. Improviso A üas Senhoras que, jogando perto de üa janela, Ihes cairam «três paus» e deram na cabeça de Camões: Para evitar dias maus da vida triste que passo, mandem-me dar um baraço, que já cá tenho três paus.

Quingentésimo (317)

52. Cantiga VOLTAS a este mato seu: Descalça vai pela neve: assi faz quem Amor serve. Os privilégios que os reis não podem dar, pode Amor, que faz qualquer amador livre das humanas leis. Mortes e guerras cruéis, ferro, frio, fogo e neve, tudo sofre quem o serve.  Moça fermosa despreza todo o frio e toda a dor (olhai quanto pode Amor mais que a própria natureza): medo nem delicadeza lhe impede que passe a nove; assi faz quem Amor serve. Por mais trabalhos que leve, a tudo se ofreceria; passa pela neve fria, mais alva que a própria neve; com todo o frio se atreve; vede em que fogo ferve o triste que o Amor serve.

Quingentésimo (316)

82. Cantiga a esta cantiga alheia: Pequenos contentamentos, i buscar quem contenteis, que a mim não me conheceis, VOLTAS Os gostos, que tantas dores fizeram já valer menos, não os aceita pequenas, quem nunca teve maiores. Bem parecem vãos favores, pois tão tarde me quereis qu'inda me não conheceis. Ofereceis-me alegria, tendo-me já cego e mouco: é baixeza aceitar pouco quem tanto vos merecia. Ide-vos por outra via, pois o bem que me deveis nunca mo satisfareis.

Quingentésimo (315)

116. Esparsa do Autor ao desconcerto do mundo Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos; e, para mais m'espantar, os maus vi sempre nadar em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim o bem tão mal ordenado, fui mau, mas fui castigado. Assim que, só para mim anda o mundo concertado.

Quingentésimo (314)

Trovas a üa dama doente Olhai que dura sentença foi Amor dar contra mi: que, porque em vós me perdi, em vós me busca a doença. Claro está que em vós só me achará; que em mim, se me vem buscar, não poderá mais achar que a forma do que eu fui já. Que se em vós Amor se pôs, Senhora, é forçado assi que o mal, que me busca a mi, que vos faça mal a vós. Sem mentir, Amor me quis destruir por modo nunca cuidado, pois vos há-de ser forçado pesar-vos de vos servir. Mas sois tão desconhecida, e são meus males de sorte que vos ameaça a morte porque me negais a vida. Se por boa tal justiça se pregoa, quando desta sorte for, havei vós perdão de Amor, que a parte já vos perdoa. Mas o que mais temo, enfim é que nesta diferença que se não torne a doença se me não tornais a mim. De verdade, que já vossa humanidade de que se queixe não tem; pois para as almas também fez Amor enfermidade.

Quingentésimo (313)

66. Cantiga a este moto seu: Pus o coração nos olhos e os olhos pus no chão, por vingar o coração. VOLTAS O coração envejoso como dos olhos andava, sempre remoques me dava que não era o meu mimoso: venho eu, de piadoso do senhor meu coração, boto os meus olhos no chão.

Quingentésimo (312)

29. Glosa a este mato alheio: Trabalhos descansariam se para vós trabalhasse; tempos tristes passariam se algüa hora vos lembrasse. GLOSA Nunca o prazer se conhece senão despois da tormenta; tão pouco o bem permanece que, se o descanso florece, logo o trabalho arrebenta. Sempre os bens se lograriam, mas os males tudo atalham; porém, já que assi porfiam, onde descansos trabalham, trabalhos descansariam. Qualquer trabalho me fora por vós grão contentamento; nada sentira, Senhora, se vira disto algüa hora em vós um conhecimento. Por mal que o mal me tratasse tudo por bem tomaria; posto que o corpo cansasse, a alma descansaria, se para vós trabalhasse. Quem vossas cruezas já sofreu, a tudo se pôs; costumado ficará; e muito milhor será, se trabalhar para vós. Tristezas esqueceriam, posto que mal me trataram; anos não me lembrariam, que, como estoutros passaram, tempos tristes passariam. Se fosse galardoado este trabalho tão duro, não vivera magoado; mas não o foi o passado, como o será o fu...

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 86 No regresso a casa, pensou no que a comadre lhe tinha acabado de dizer, se ela estivesse certa, se todas casassem, realizariam o seu sonho: ter uma enorme família Apesar de estar contente por ver as filhas a constituírem família, a mágoa da perda da sua amada continuava a atormentá-lo, nunca a esqueceria, era o grande amor da sua vida As seis bonitas filhas que deixou, na hora da partida, sem tempo para a despedida, foi como se o tivesse encarregado de fazer também o lugar dela, tomando conta delas, para sempre, e assim estar, também, presente. Cada uma representava uma faceta da mãe, ajudando a que nunca a esquecesse Em Coimbra, a Anastácia, como era ela que mais tempo passava com o Afonso, mesmo custando-lhe muito, porque ia ficar sem ele, preparava-o para a sua grande aventura, a viagem para outro continente, muito diferente Assim, ia-lhe dizendo que quando os pais voltassem para a terra deles, ele iria conhecer os verdadeiros avós: o pai ...

Quingentésimo (311)

84. Glosa a este moto: Foi-se gastando a esperança, fui entendendo os enganos; do mal ficaram meus danos e do bem só a lembrança. Nunca em prazeres passados tive firmeza segura, antes tão arrebatados que inda não eram chegados quando mos levou ventura. E como quem desconfia ter em tal sorte mudança, no meio desta porfia, de quanto bem pretendia foi-se gastando a esperança. Não tive por desatino a ocasião de perdê-la; mas foi culpa do destino, que a ninguém, como mais dino, Amor pudera sustê-la. Dei-lhe tudo o que era seu, não receando tais danos deste, a quem alma lhe deu; quando já não era meu, foi entendendo os enganos. Fiquei, deste mal sobejo a quem a causa compete, dizer-lhe tudo o que vejo, que Amor aceita o desejo, mas mente no que promete. Que, se a mim se me obrigou a dar-me bens soberanos, foi engano que ordenou, que do bem tudo levou, do mal ficaram meus danos. E se de dor tão desigual sofro em mim com padecê-los, quero de novo sofrê-los; que, por a causa ser tal, não determ...

Quingentésimo (310)

64. Cantiga VOLTAS Glosa a este moto alheio: Amores de ua casada que eu vi pelo meu mel. Nüa casada fui pôr os olhos, de si senhores; cuidei que fossem amores, eles fizeram-se Amor. Faz-se o desejo maior donde o remédio não val em perigo de meu mal. Não me pareceu que Amor pudesse tanto comigo que donde entra por amigo se levante por senhor. Leva-me de dor em dor e de sinal em sinal, cada vez para mor mal.

Quingentésimo (309)

5. Cantiga VOLTAS a esta cantiga alheia: Pastora da serra, da serra da Estrela, perco-me por ela. Nos seus olhos belos tanto Amor se atreve, que abrasa entre a neve quantos ousam vê-los. Não solta os cabelos Aurora mais bela: perco-me por ela. Não teve esta serra no meio da altura mais que a fermosura que nela se encerra. Bem céu fica a terra que tem tal estrela: perco-me por ela. Sendo entre pastores causa de mil males, não se ouvem nos vales senão seus louvores. Eu só por amores não sei falar nela: sei morrer por ela. De alguns que, sentindo, seu mal vão mostrando, se ri, não cuidando que inda paga, rindo. Eu, triste, encobrindo só meus males dela, Sendo entre pastores causa de mil males, não se ouvem nos vales senão seus louvores. Eu só por amores não sei falar nela: sei morrer por ela. De alguns que, sentindo, seu mal vão mostrando, se ri, não cuidando que inda paga, rindo. Eu, triste, encobrindo só meus males dela, perco-me por ela. Se flores deseja por ventura delas, das que colh...

Quingentésimo (308)

8. Cantiga VOLTAS a este cantar velho: Sois fermosa e tudo tendes, senão que tendes os olhos verdes. Ninguém vos pode tirar [o] serdes bem assombrada; mas heis-me de perdoar, que os olhos não valem nada. Fostes mal aconselhada em querer que fossem verdes: trabalhai de os esconderdes. A vossa testa é jardim, onde Amor se desenfada; é branca e bem talhada, que parece de marfim. Assim é; e, quanto a mim, isso nasce de a terdes tão perto dos olhos verdes. Os cabelos desatados o mesmo Sol escurecem; senão que, por serem ondados, algum tanto desmerecem: mas, à fé, que se parecem a furto dos olhos verdes, não vos pese de os terdes. As pestanas têm mostrado ser raios que abrasam vidas; se não foram tão compridas tudo o mais era pintado: elas me tinham levado já sem o vós saberdes, se não foram os olhos verdes. O mimo desse carão nem pôr-lhe os olhos consente: e ser liso e transparente rouba todo o coração. Inda assim achareis gente que lhe não pese de o terdes; As pestanas têm mostrado ser rai...

Luto

Valência   Respeitar a Natureza Em Valência, no século passado, com recurso à hidráulica, desviaram o rio Fizeram-no tendo em conta a precipitação da altura, não sei se tiveram em conta outros fatores que, por vezes se associam, causando grandes tragédias Em Lisboa, também, acabaram com os sete rios, que nasciam perto de onde está localizado o Jardim Zoológico O espaço, nas cidades é muito valioso, rios a dividi-las não é harmonioso, o melhor é entaipá-los, construir muitos prédios volumosos Quando acontecem as grandes tragédias, poderão, sempre, distribuir as responsabilidades: a maré cheia, as sargetas que não estavam limpas, as pessoas terem continuado a circular nos seus automóveis até ficarem debaixo de água, a construção de muitos pisos abaixo do chão …..    Em Valência, ainda, não se sabe quantos perderam a vida. Mas, as duas centenas confirmadas causam-nos muita tristeza, e os que tiveram a sorte de não perdê-la, ficaram sem nada Espero que sirva de alerta, para os senhores que...

Quingentésimo (307)

55. Cantiga VOLTAS a este moto: Ferro, fogo, frio e calma, todo o mundo acabarão; mas nunca vos tirarão, alma minha da minh'alma! Não vos guardei, quando vinha, em torre, força, ou engenho; que mais guardada vos tenho em vós, que sois alma minha. Ali, nem frio nem calma, não podem ter jurdição; na vida sim, porém não em vós, que tenho por alma.

Gripe!

Gripe! O motor da Europa está gripado A economia alemã está doente A volksewagen vai fechar fábricas, na Alemanha Despedir trabalhadores Baixar os ordenados em 10% A globalização colocou-nos nas mãos da China Transferimos as nossas indústrias para países, que ainda praticam a escravidão Foi grande a ilusão de que podíamos competir com eles Já se sabe que as empresas procuram ter o máximo de lucro Pouco se preocupando com as condições em que vivem os trabalhadores Desde que seja mais barato, tudo bem A invasão da Ucrania veio as coisas agravar Não podemos deixar o Putin fazer o que quer Estamos obrigados a sofrer.   José Silva Costa

Quingentésimo (306)

19. Cantiga VOLTAS a esta cantiga alheia: Minina fermosa dizei: de que vem serdes rigorosa a quem vos quer bem? Não sei quem assela vossa fermosura; que quem é tão dura não pode ser bela. Vós sereis fermosa, mas a razão tem que quem é irosa não parece bem. A mostra é de bela, as o obras são cruas; pois qual destas duas ficará na sela? Se ficar irosa não vos está bem. fique antes fermosa, que mais força tem. O Amor, fermoso se pinta e se chama: se é amor, ama, se ama, é piadoso. Diz agora a grosa que este texto tem, que quem é fermosa há-de querer bem. Havei dó, minina, dessa fermosura; que se a terra é dura, seca-se a bonina. Sede piadosa; não veja ninguém que, por rigorosa, percais tanto bem.