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Mostrando postagens de setembro, 2020

Outubro

Bem-vindo, Outubro Vamos-te receber, mascarados Não fiques magoado Por não podermos sorrir Este vírus está-nos a ferir Bem gostava de te beijar e abraçar Como no ano passado Mas este ano é outro o fado Ninguém pode dizer que está descansado Espero que nos ajudes a chegar ao futuro Deixando, cada dia, para trás, o escuro Até conseguirmos, de novo, abraçar o outro Sair alegre, a cantar, sem medo de o encontrar Poder, de novo, de cara limpa, ver o sol e a lua Cumprimentar a miúda que passa na rua Ver tudo, de novo, sem máscara.   José Silva Costa          

As Cores

As cores   As cores Pintam as  flores Que bonitas cores! Vestem as árvores No outono Antes de perderem as folhas Para atapetarem as alamedas São as cores dos amores Quentes e brilhantes São as preferidas dos amantes Nas noites radiantes Quando se cruzam nos horizontes Dos beijos sonantes Que os unem aos sonhos das cores Quando dormem como flores Na cama perfumada da lua-de-mel.   José Silva Costa      

55 anos

55 anos   Hoje, fazemos 55 anos de casados Tínhamos vinte anos Tivemos de pedir autorização aos nossos pais O tempo já passado, lado a lado Evaporou-se como fogo ateado As filhas e o filho As netas e o neto São os frutos do nosso amor.   José Silva Costa  

O último helicóptero

As mazelas da guerra Continuação   A queda do último helicóptero   Todos os azares vinham ter connosco O último helicóptero, daquela série, avariou Ficou sem leme, tendo o piloto conseguido imobilizá-lo num morro Felizmente, não houve feridos: oficiais e piloto saíram ilesos Para guardar o helicóptero, fomos mobilizados A seguir ao almoço, um pelotão foi guardá-lo Ao fim do dia pediram-nos, pelo rádio, para lhes levarmos água A minha secção foi mobilizada para, ao nascer do sol, sairmos com os garrafões de água que conseguíssemos carregar Quando chegámos, andavam a lamber o capim Também tinham utilizado os componentes acrílicos do helicóptero, para durante a noite, captarem alguma água Ninguém sabia como o tirar dali  O Alferes responsável pela proteção estava preocupado, com aquela operação, e com razão Do Batalhão só lhe diziam que estavam a estudar o problema Respondeu-lhes com um ultimato, se não encontrassem uma solução, dentro de um prazo de que não me lembro, o helicóptero seria...

Santa Cruz dos Dembos

Mazelas da guerra Continuação Fazenda Santa Cruz dos Dembos   Um procedimento, que me chamou à atenção, foi o de que, quando caminhavam, nas picadas, e avistavam as nossas viaturas, as pessoas afastavam-se das bermas uns 10 a 20 metros  Não consegui saber a razão, mas suponho que deve ter a ver com procedimentos menos corretos, no início da guerra Para quem não saiba, quando a guerra começou, em 1961, no Norte de Angola, houve muita violência de parte a parte Por isso, talvez, ainda, se lembrassem dos tempos negros do início da guerra Durante os 9 meses que estivemos no Norte de Angola, acho que nenhum militar da minha companhia teve relações sexuais com as mulheres das povoações, ao contrário do que aconteceu, quando fomos para a zona de Nova Lisboa Dizia-se que o avião que levava o pré, para Maquela do Zombo, também transportava as prostitutas Durante os 9 meses que estivemos naquele acampamento, nunca lá vi nenhum civil, evitavam a nossa companhia Mesmo assim tínhamos, todos os dias...

Bem-vindo!

outono O tempo vai suavemente mudando A chuva, apesar de tardia, chegou Há muito que a desejávamos Nem todos! Porque ela não é tão agradável como o sol Mas, tal como ele, faz muita falta Vem ai o outono, com mais horas para o sono Com menos horas de sol, venho mais cedo para dentro de casa E, o trabalho não se vai azedar Se há reformados que não têm que fazer Todos os dias tenho de escolher, entre o muito que tenho para fazer Por mim, ficava aqui todo o dia a ler e escrever Mas não pode ser Tenho o quintal para me entreter e as roseiras, que são a paixão da minha mulher, para admirar Quando chove tenho água para engarrafar, para no verão regar Não utilizo água tratada, para regar Porque isso era, água, desperdiçar Às vezes fico a pensar Como é que há pessoas que se queixam que não sabem o que fazer! Quando tenho tanta coisa para me entreter Ficar aqui todo o dia a falar com vocês é que era  Se calhar não iam gostar da ideia Mas as plantas fariam uma gritaria, pedindo a minha presença P...

Santa Cruz dos Dembos

Mazelas da guerra Fazenda Santa Cruz dos Dembos                                                                              Continuação Um procedimento, que me chamou à atenção, foi o de que, quando caminhavam, nas picadas, e avistavam as nossas viaturas, as pessoas afastavam-se das bermas uns 10 a 20 metros  Não consegui saber a razão, mas suponho que deve ter a ver com procedimentos menos corretos, no início da guerra Para quem não saiba, quando a guerra começou, em 1961, no Norte de Angola, houve muita violência de parte a parte Por isso, talvez, ainda, se lembrassem dos tempos negros do início da guerra Durante os 9 meses que estivemos no Norte de Angola, acho que nenhum militar da minha companhia teve relações sexuais com as mulheres das povoações, ao contrário do que aconteceu, quando fomos para a zona de Nova Lisboa Dizia-se que o avião que levava o pré, para Maquela do Zombo, também transportava as prostitutas Durante os 9 meses que estivemos naquele acampamento, nunca lá vi n...

A simplicidade

A Simplicidade   Nas ondas da tua mente Navega o teu aspeto atraente Nos olhos tens o presente O teu coração a ninguém mente Como é diferente! Quem é inteligente Com humildade cativa toda a gente Tem um coração transparente Que tudo sente Que a todos diz presente Seja qual for a situação, nunca está ausente A simplicidade é a sua semente. José Silva Costa        

Ano letico

Regresso às aulas Este regresso às aulas não tem a magia dos outros anos O medo, as máscaras, as regras, tolhem os movimentos Este ano, infelizmente, não vamos ver a euforia de beijinhos e braços de outros momentos Vão ser experiências novas, que temos de aprender e algumas antigas, que temos de esquecer Estamos todos ansiosos para ver o que vai acontecer Quem vai pela primeira vez, é quem fica mais a perder Mas a vida é mesmo assim, temos de estar preparados para estar sempre a aprender Não damos o devido valor a este tempo, em que temos quem nos ensine, e perguntas podemos fazer Mais tarde é que vamos a orelha torcer Por não termos dado atenção a tudo o que nos queriam dizer Vão muito, ficar a saber para, a vida, ganhar A escola é um mar de conhecimentos, que devemos aproveitar Quanto mais soubermos, melhor o podemos utilizar Para proveito próprio, e os outros ajudar Há quem sinta uma grande felicidade, por os outros poder iluminar Da escola vai-nos, sempre, alguma saudade ficar Mais...

Vidas!

Ilha de Lesbos Campo de refugidos Moria   Uma desgraça nunca vem só Confinados devido a Covid-19 Deitaram fogo às instalações Que lhes tolhiam os movimentos Mas as chamas depressa chegaram ao resto do acampamento Tiveram de fugir sem nada e sem tempo Com o que tinham em cima da pele, naquele momento É tão triste não ter eira nem beira Arder numa fogueira À procura de uma terra que os queira Depois de atravessar tanta fronteira Nenhuma os quer  São olhados como se tivessem lepra Há vidas que, por muitos anos que vivam, morreram à nascença.   José Silva Costa    

O medo

As mazelas da guerra Continuação O medo   Na primeira noite que dormimos no mato, o medo era de cortar à faca No silêncio da noite, o mais pequeno ruído parece um furacão Também tinha medo, mas estava mais à vontade por já ter dormido algumas vezes nas eiras Um condutor preferiu dormir dentro da viatura, em vez da tenda Noite dentro, contatou-me, dizendo que tinha uma cobra dentro da viatura Lá fui, para ver a cobra, chegados à viatura, vi o limpa-para-brisas a trabalhar Pedi-lhe para desligar o limpa-para-brisas, que a cobra se ia embora, e nós íamos dormir Como o limpa-para-brisas era acionado manualmente, o que deve ter acontecido, é tê-lo ligado, ao mexer-se, possivelmente com o joelho No dia seguinte voltámos ao acampamento, tendo tudo corrido bem A primeira etapa estava concluída. A partir dali, os relatórios quinzenais seriam emitidos sem sairmos de casa, até porque, em breve, ficaríamos desfalcados, com dois pelotões destacados, para a zona do Quitexe Antes de ir para o Quitexe...

O sol

O Sol     Continuas, quente Mas as manhãs estão diferentes Cada vez chegas mais tarde e partes mais cedo Vais para outras paragens, para o outro hemisfério Menos horas de sol, maior escuridão As noites ficam longas Fico mais tempo no aconchego do lar Com mais tempo para te recordar Assim que te escondes, no Atlântico, e me dizes: até amanhã”  Volto sozinho e triste, para casa Não quero que digas que ando com o mar De manhã volto a esperar-te Para aqueceres o meu dia.   José Silva Costa

Sintra

Sintra   Minha romântica Sintra Estás mais bela que nunca O Covid-19 afastou de ti a multidão Que por todo o lado, tudo atravancava Há muito que não te beijava Quem é que a ti chegava! Estás mais radiosa Com essa cabeleira airosa A emoldurar o Palácio da Pena Vestida com encantadores palácios e jardins Com recônditos recantos Onde rainhas e princesas beijavam a lua, a ver o mar Os sonhos e os aís inundavam os ares O perfume dos pomares Inebriava todos os olhares Ao rio caíram, da rainha, os colares Nasceu uma nova vila, que já foi sede de Concelho Perdeste a vergonha, já não te importas de mostrar o joelho Nas tuas praias banha-se o mundo inteiro E, tu, de vez em quando, escondes-te por detrás do nevoeiro Jogando às escondidas, como faziam as princesas e rainhas Faz parte do romantismo De quem és a última rainha Fazendo com que os namorados, não te vendo o rosto, fiquem baralhados Estou, contigo, cada vez, mais encantado.   José Silva Costa                

Os meus 75!

75 anos!   Hoje completo a bonita idade de três quartos de século Mesmo que o Cartão de Cidadão diga que é no dia 15 Os meus pais não tiveram tempo de ir atempo registar-me A Junta de Freguesia era distante, não havia transportes Ainda que no Alentejo, cem quilómetros, seja já ali Eram precisas duas testemunhas e palmilhar alguns quilómetros, a pé As consequências da guerra continuavam a fazer-se sentir Fome, miséria, tudo racionado, só com senhas, o pouco, era comprado Estou muito grato por aqui ter chegado Felizmente, sem a ajuda de medicamento, nos últimos 20 anos, tomado Muitas coias, algumas, muito boas ter presenciado A começar por estas palavras, que podem chegar a todo o lado Outras muito dolorosas como, aos dez anos, do ninho ter sido afastado Como acontecia, por todo o país, em que muitos, ainda saíram mais cedo Não tendo tido direito a irem à Escola, em relação a eles, sou um privilegiado Porque o meu pai, sempre, disse que entre abandonar a escola, para não passar fome, ou ...

A primeira baixa

Mazelas da guerra Continuação A primeira baixa   Um soldado, ao não cumprir com o que lhe tinha sido ensinado: que nunca se desencravavam armas sem ser ao ar livre e com o cano para cima, disparou, sem querer, contra um camarada que estava sentado na cama, a escrever para a família A bala acertou num porta-moedas, que estava no bolso da camisa, fazendo com que os danos tenham sido fatais Na sede da Companhia, na Fazenda Costa, o tempo era queimado a fazer partidas uns aos outros O Furriel de Transmissões, que tinha acabado de chegar à Companhia, foi convencido a ficar, num buraco, por duas horas, com um saco à espera dos gambuzinos Também fiz parte de uma equipa formada, a pedido de uns soldados que nunca tinha visto ananases, para irmos aos ananases Munidos de um carrinho de mão e uma enorme escada, partimos de manhã, para uma mata fechada, depois de duas horas e devido à dificuldade de manobrar as ferramentas, um dos soldados sugeriu que ficasse para outro dia, por estar muito cansad...

O regresso

  Regresso às aulas   Algumas crianças, que andam em colégios particulares, já regressaram às aulas Mesmo com todas as restrições, pareciam muito felizes, por voltarem a ver os amigos Faltam os beijos e abraços, as liberdades para brincarem, como nos outros tempos Mas a vontade de voltarem a ver as amigas e os amigos é mais forte que o nervosismo dos pais Que querem garantias, uma palavra tão em voga, quando ninguém pode garantir seja o que for Há pais que não conseguem vencer o medo de mandarem os filhos para a escola Como se a vida não fosse uma grande aventura, em que o perigo está em todo o lado Devemos ter o máximo de cuidado Mas não podemos meter os nossos filhos em redomas de vidro Porque mais tarde ou mais cedo eles têm de enfrentar o perigo Portanto, o melhor é treiná-los para o que têm de saber evitar O que não depender de nós, o melhor é, o coração ao alto, colocar Martirizarmo-nos com antecedência não é o indicado O melhor é aguardar pelo resultado Que todos esperamos seja ...

A festa

Festa Festas e romarias! Podem acontecer todos os dias Conseguimos sobreviver sem festa Mas a do Avante vai avante Há quem ache que é a salvação Que vai provar que o vírus não existe Que podemos voltar ao antigamente Se for verdade e acontecer Então, poderei dizer Ai meu Setembro milagreiro Cura o Mundo inteiro Se queres ser o primeiro! Mês curandeiro Até poderias ser canonizado Como Santo Setembro Uma esperança para todos os Partidos Conseguirem arranjar mais dinheiro Para fazerem progredir este bonito Portugal Que está tão cansado de estar em último lugar Como gostávamos de estar entre os primeiros, no ganhar! Porque no gastar, já estamos  há muito tempo Um sonho de marinheiros Que gostam de circunavegações e encontros porreiros Gostamos muito de viajar, comer, ver, mesmo que não tenhamos dinheiro.   José Silva Costa