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Mostrando postagens de setembro, 2024

Quingentésimo ano (275)

63. Cantiga a este mato seu: Da alma, e de quanto tiver, quero que me despojeis, contanto que me deixeis os olhos para vos ver.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                VOLTAS Cousa que este corpo não tem que já não tenhais rendida; depois de tirar-lhe a vida, tirai-lhe a morte também. Se mais tenho que perder mais quero que me leveis, cantento que me deixeis os olhos para vos ver.

Quingentésimo ano (274)

Cantiga  a esta cantiga velha: Falso cavaleiro ingrato, enganais-me: vós dizeis que eu vos mato, e vós matais-me                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           VOLTAS Costumadas artes são para enganar inocências, piadosas aparências sobre isento coração. Eu vos amo, e vós, ingrato, magoais-me, dizendo que eu vos mato, e vós matais-me. Vede agora qual de nós anda mais perto do fim, que a justiça faz-se em mim e o pregão diz que sois vós. Quando mais verdade trato, levantais-me que vos desamo e vos mato, e...

Quingentésimo ano (273)

117. Labirinto do Autor a queixar-se do mundo Corre sem vela e sem leme o tempo desordenado, dum grande vento levado; o que perigo não teme é de pouco exprimentado. As rédeas trazem na mão os que rédeas não tiveram: vendo quando mal fizeramdum grande vento levado; vendo quando mal fizeram a cobiça e ambição disfarçados se acolheram. A nau que se vai perder destrue mil esperanças; vejo o mau que vem a ter; vejo perigos correr quem não cuida que há mudanças. Os que nunca sem sela andaram na sela postos se vêm: de fazer mal não deixaram; de demónio hábito têm os que o justo profanaram. Que poderá vir a ser o mal nunca refreado? Anda, por certo, enganado aquele que quer valer, levando o caminho errado. É para os bons confusão ver que os maus prevaleceram; posto que se detiveram com esta simulação, sempre castigos tiveram. Não porque governe o leme em mar envolto e turbado, quem tem seu rumo mudado, se perece, grita e geme em tempo desordenado. Terem justo galardão e dor dos que mereceram, ...

Quingentésimo ano (272)

112. Trovas mandadas ao Vizo-Rei, com o mato anterior: Conde, cujo ilustre peito merece nome de Rei, do qual muito certo sei que lhe fica sendo estreito o cargo de Vizo-Rei; servirdes-vos de ocupar-me, tanto contra meu planeta, não foi senão asas dar-me o cargo de Vizo-Rei; servirdes-vos de ocupar-me, tanto contra meu planeta, não foi senão asas dar-me, com as quais vou a queimar-me, como faz a borboleta. E se eu a pena tomar que tão mal cortada tenho, será para celebrar vosso valor singular, dino de mais alto engenho. Que, se o meu vos celebrasse, necessário me seria que os olhos da águia tomasse, só para que não cegasse no sol de vossa valia. Vossos feitos sublimados, nas armas dinos de glória, são no mundo tão soados que em vós de vossos passados se ressuscita a memória. Pois aquele animo estranho, pronto para todo efeito, espanta todo o conceito, como coração tamanho vos pode caber no peito. A clemência que asserena coração tão singular, se eu nisso pusesse a pena, seria encerrar o...

Quingentésimo ano (271)

101. Volta a D. António, senhor de Cascais, que prometera a Luís de Camões seis galinhas recheadas por uma cópia que Ihe fizera, e Ihe mandava, por princípio de paga, meia galinha Cinco galinhas e meia deve o Senhor de Cascais; e a meia vinha cheia de apetites para as mais.

Manigâncias

Manigâncias Doce outono, suave outubro, com o orçamento ao rubro, o Governo aposta tudo, na compra dos votos dos reformados, desta vez só para os mais pobres, menos mal Vai dar até 200 euros, nas pensões de outubro, não vá diabo tecê-las e o país tenha de ir, outra vez, para eleições, cumprir legislaturas não é connosco Assim, os reformados poderão correr às lojas dos chineses, comprar coisas inúteis, para entupirem as casas e ficar com a sensação de que vivem na abastança Mas atenção, não entrem em euforia, não é para sempre, é só um mês: o de outubro, o mês do Orçamento, esse magno documento, que permite ao Governo beneficiar quem quiser, se conseguir a sua aprovação É por isso que o Presidente anda tão excitado, todos os dias reza a todos os Santinhos, para que o Orçamento seja aprovado, dizendo que desta vez é diferente: há guerras, incertezas, o diabo a quatro, esquecendo-se de acrescentar que é o seu Partido que está no Governo, e que fez tudo o que estava ao seu alcance, para lá...

Quingentésimo ano (270)

Mote Descalça vai pela neve: Assim faz quem Amor serve. Voltas Os privilégios que os reis Não podem dar, pode Amor, Que faz qualquer amador Livre das humanas leis. Mortes e guerras cruéis, Ferro, frio, fogo e neve, Tudo sofre quem o serve. Moça fermosa despreza Todo o frio e toda a dor. Olhai quanto pode Amor Mais que a própria natureza: Medo nem delicadeza lhe impede que passe a neve. Assi faz quem Amor serve. Por mais trabalhos que leve, A tudo se ofereceria; Passa pela neve fria Mais alva que a própria neve; Com todo o frio se atreve... Vede em que fogo ferve O triste que o Amor serve.    

O Império

O Império – As teias que o Império teceu   80 A chegada do Afonso veio mostrar aos jovens pais, que criar uma criança exige muito de quem a cria, porque tem de estar disponíveis vinte e quatro horas por dia, durante muitos anos, até que aquele pequeno ser seja capaz de ser independente Valeu-lhes terem conhecido a Anastácia, que muito os tem ajudado, permitindo que tenham podido voltar às aulas, deixando o filho em boas mãos que, muito carinho tinham para, a todos, dar Na Universidade de Coimbra, a mais famosa do país, nunca se tinha visto nada parecido:  um casal, com um filho, a estudar. Exemplar, tanto nos estudos,  como pais, vindo de África, da colónia de Angola Angariou a amizade de uma residente, na cidade dos estudantes, que muito o ajudava, beneficiava, também, da ajuda de um professor, da jovem mãe, que se apaixonou pela senhora, que o levou para a sua casa e o mimava, como se fossem seus filhos       Na academia e na cidade não se falava de outra coisa, todos queriam conhece...

Quingentésimo ano (269)

Mote alheio Menina dos olhos verdes, Porque me não vedes? Voltas Eles verdes são, E têm por usança Na cor, esperança E nas obras, não. Vossa condição Não é de olhos verdes, Porque me não vedes. Isenções a molhos Que eles dizem terdes, Não são de olhos verdes, Nem de verdes olhos. Sirvo de giolhos, E vós não me credes Porque me não vedes. Havia de ser, Por que possa vê-los, Que uns olhos tão belos.  

Quingentésimo ano (268)

Mote Descalça vai pera a fonte Lianor pela verdura; Vai fermosa e não segura. Voltas Leva na cabeça o pote, O testo nas mãos de prata, Cinta de fina escarlata, Sainho de chamelote; Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura; Vai fermosa e não segura. Descobre a touca a garganta, Cabelos de ouro o trançado, Fita de cor de encarnado… Tão linda que o mundo espanta. Chove nela graça tanta, Que dá graça à fermosura; Vai fermosa e não segura.

Quingentésimo (267)

60. Cantiga a este moto alheio: Caterina bem promete; eramá I como ela mente I VOLTAS Caterina é mais fermosa para mim que a luz do dia; mas mais fermosa seria se não fosse mentirosa. Hoje a vejo piadosa, amanhã tão diferente que sempre cuido que mente. Caterina me mentiu muitas vezes, sem ter lei, mas todas lhe perdoei por üa só que cumpriu. Se, como me consentiu falar, o mais me consente, nunca mais direi que mente. Má, mentirosa, malvada, dizei: para que mentis? Prometeis, e não cumpris? Pois sem cumprir, tudo é nada. Não sois bem aconselhada; que quem promete, se mente, o que perde não no sente. Jurou-me aquela cadela de vir, pela alma que tinha; enganou-me; tem a minha; dá-lhe pouco de perdê-la. A vida gasto após ela, porque ma dá se promete, mas tira-ma quando mente. Tudo vos consentiria quanto quisésseis fazer, se esse vosso prometer fosse prometer um dia todo então me desfaria convosco; e vós, de contente, zombaríeis de quem mente. Prometou-me ontem de vir, nunca mais me aparec...

Quingentésimo (266)

51. Glosa a este mato alheio: Campos bem-aventurados, tornai-vos agora tristes, que os dias em que me vistes alegre são já passados. Campos cheios de prazer, vós, que estais reverdecendo, já me alegrei com vos ver; agora venho a temer que entristeçais em me vendo. E, pois a vista alegrais dos olhos desesperados, não quero que me vejais, para que sempre sejais campos bem-aventurados. Porém, se por acidente, vos pesar de meu tormento, sabereis que Amor consente que tudo me descontente, senão descontentamento. Por isso vós, arvoredos, que já nos meus olhos vistes mais alegrias que medos, se mos quereis fazer ledos, tornai-vos agora tristes. Já me vistes ledo ser, mas despois que o falso Amor tão triste me fez viver, . ledos folgo de vos ver, porque me dobreis a dor. E se este gosto sobejo de minha dor me sentistes, julgai quanto mais desejo as horas que vos não vejo que os dias em que me vistes. O tempo, que é desigual, de secos, verdes vos tem; porque em vosso natural se muda o mal para ...

Quingentésimo (265)

81. Cantiga a üa Dama que lhe virou o rosto MOTO Olhos, não vos mereci que tenhais tal condição: tão liberais para o chão, tão irosos para mi. VOLTAS Baixos e honestos andais, por vos negardes a quem não quer mais que aquele bem que vós no chão espalhais. Se pouco vos mereci, não me estimais mais que o chão, a quem vós o galardão dais, e mo neguis a mi.

Quingentésimo (264)

14. Cantiga a este meto seu: Se Helena apartar do campo seus olhos, nascerão abrolhos. VOLTAS A verdura amena, gados, que pasceis, sabei que a deveis aos olhos de Helena. Os ventos serena, faz flores de abrolhos o ar de seus olhos. Faz serras floridas, faz claras as fontes: se isto faz nos montes, que fará nas vidas? Trá-las suspendidas como ervas em molhos, na luz de seus olhos. Os corações prende com graça inumana de cada pestana ü alma lhe pende. Amor se lhe rende, e, posto em giolhos, pasma nos seua olhos.

O Império

O Império – as teias que o Império teceu   79   A Anastácia e o Elisiário queriam aproveitar os últimos dias das férias escolares para irem ao cinema, teatro, museus, e isso faria com que dessem menos assistência nos cuidados com o Afonso, mas assim que elas acabassem, a Anastácia dedicar-se-ia de corpo e alma ao Afonso, para que o professor e os alunos voltassem aos seus trabalhos, com toda a tranquilidade, sabendo que o Afonso estava muito bem entregue à mais dedicada madrinha e ama No regresso às aulas, tanto os colegas da Marina, como os do Roberto queriam saber como era ser mãe e pai, se tinha corrido tudo bem, como estava o bebé e quem tomava conta dele, enquanto eles estavam nas aulas Eram os primeiros alunos africanos a frequentarem a Universidade: um casal com um filho, coisa nunca vista, e ainda por ciam eram os melhores das suas turmas Tomar conta do Afonso, fazer a comida e a lida da casa fazia com que a Anastácia andasse muito cansada, mas muito contente e alegre por vê-lo...

Quingentésimo ano (263)

62. Cantiga a Dona Guiamar de Blasfé, que se queimara no rosto com üa vela MOTO: Amor que todos ofende teve, Senhora, por gosto, que sentisse o vosso rosto o que nas almas acende. VOLTAS Aquele rosto que traz o mundo todo abrasado, se foi da flama tocado, foi porque sinta o que faz. Bem sei que Amor se lhe rende; porém o seu pros[s]uposto foi sentir o vosso rosto o que nas almas acende.

Quingentésimo (262)

106. Trovas a üa cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbora Aquela cativa, que me tem cativo, porque nela vivo já não quer que viva. Eu nunca vi rosa em suaves molhos, que para meus olhos fosse mais fermosa. Nem no campo flores, nem no céu estrelas, me parecem belas como os meus amores. Rosto singular, olhos sossegados, pretos e cansados, mas não de matar. üa graça viva, que neles lhe mora, para ser senhora de quem é cativa. Pretos os cabelos, onde o povo vão perde opinião que os louros são belos. Pretidão de Amor, tão doce a figura, que a neve lhe jura que trocara a cor. Leda mansidão que o siso acompanha; bem parece estranha, mas bárbora não. Presença serena que a tormenta amansa; nela enfim descansa toda a minha pena. Esta é a cativa que me tem cativo, e, pois nela vivo, é força que viva.

Quingentésimo (261)

33. A B C em motos AAAA Ana quisestes que fosse o vosso nome da pia, para mor minha agonia. Apeles, se fora vivo e a ver-vos alcançara, por vós retratos tirara. Aquiles morreu no templo, contemplando de giolhos; eu, quando vejo esses olhos. Artemisa sepultou a seu irmão e marido; vós a mim, e a meu sentido. B Bem vejo que sois, Senhora, extremo de fermosura, para minha sepultura. CC Cleópatra se matou vendo morto a seu amante; e eu por vós, em ser constante. Cassandra disse de Tróia que havia ser destruída; e eu por vós, d'alma e da vida. DD Dido morreu por Enéas, e vós matais quem vos ama; julgai se sois cruel dama! Dianira, inocente, da má morte causadora; vós, da minha, sabedora. E Eurídice foi a causa de Orfeu ir ao Inferno; vos, de ser meu mal eterno. FF Fedra, só de puro amor, morreu por seu enteado; eu, morro de desamado. Febo vai escurecendo ante vossa claridade; e eu, sem ter liberdade. GG Galateia sois, Senhora, Da fermosura extremo; e eu, perdido Polifemo. Genebra, que f...

Quingentésimo ano (260)

    32. Glosa a este moto seu (acróstico): A morte, pois que sou vosso, não na quero, mas se vem, [h]a-de ser todo meu bem. Amor, que em meu pensamento com tanta fé se fundou, me tem dado um regimento que, quando vir meu tormento, me salve com cujo sou. E com esta defensão, com que tudo vencer posso, diz a causa ao coração: não tem em mim jurdição A morte, pois que sou vosso. Por exprimentar um dia Amor se me achava forte nesta fé, como dizia, me convidou com a morte, só por ver se a tomaria. E, como ele seja a cousa onde está todo o meu bem, respondi-lhe (como quem quer dizer mais, e não ousa): não na quero, mas se vem... Não disse mais, porque então entendeu quanto me toca; e se tinha dito o não, muitas vezes diz a boca o que nega o coração. Toda a cousa defendida em mais estima se tem: por isso é cousa sabida que perder por vós a vida [h]a-de ser todo meu bem.

Quingentésimo ano (259)

Redondilhas, de Luís de Camões Texto-base: CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas de Luís Camões. Direção Literária Dr. Álvaro Júlio da Costa Pimpão. Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro < http://www.bibvirt.futuro.usp.br > A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: FCCN - Fundação para a Computação Científica Nacional ( http://www.fccn.pt ) IBL - Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro ( http://www.ibl.pt ) Disponível em: http://web.rccn.net/camoes/camoes/index.html Agradecimentos especiais à Dra. Maria Teresa Perdigão Costa Bettencourt d'Ávila, herdeira do Dr. Álvaro Júlio da Costa Pimpão (responsável pela direção literária da obra-base), que gentilmente autorizou-nos a publicação desta obra. Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futur...

Quingentésimo ano (258)

Vós, que escuitais em Rimas derramado Dos suspiros o som que me alentava Na juvenil idade, quando andava Em outro em parte do que sou mudado; Sabei que busca só do ja cantado No tempo em que ou temia ou esperava, De quem o mal provou, que eu tanto amava, Piedade, e não perdão, o meu cuidado. Pois vejo que tamanho sentimento Só me rendeo ser fábula da gente, (Do que comigo mesmo me envergonho) Sirva de exemplo claro meu tormento, Com que todos conheção claramente Que quanto ao mundo apraz he breve sonho. Luís de Camões

Quingentésimo ano (257)

Se me vem tanta gloria só de olhar-te, He pena desigual deixar de ver-te; Se presumo com obras merecer-te, Grão paga de hum engano he desejar-te. Se aspiro por quem es a celebrar-te, Sei certo por quem sou que hei de offender-te; Se mal me quero a mi por bem querer-te, Que premio querer posso mais que amar-te? Porque hum tão raro amor não me soccorre? Oh humano thesouro! oh doce gloria! Ditoso quem á morte por ti corre! Sempre escrita estaras nesta memoria; E esta alma viverá, pois por ti morre, Porque ao fim da batalha he a victoria. Luís de Camões

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 78   A Anastácia disse que ia fazer um jantar, para comemorar a união, porque a comida também serve para ajudar a consolidar o amor O Elisiário disse que não sabia cozinhar, mas que dali em diante, sempre que pudesse, a ia ajudar na lida casa, e que muito esperava aprender com ela Ela agradeceu-lhe, mostrando que estava muito contente, por ter um companheiro, que compreendia quão importante é a colaboração na manutenção da habitação, para que o casal tenha mais tempo livre, para melhor o aproveitarem, fazendo o que lhes dá prazer Foi um jantar muito animado, a comida tem o condão de animar todas as festas e comemorações, os dois casais brindaram a tudo e mais alguma coisa, nunca aquela casa tinha estado tão cheia de felicidade e alegria, o amor tudo contagia, fazendo com que as  pessoas que se sentem amadas experimente muita felicidade e alegria A festa prolongou-se pela noite dentro, ninguém queria ser o responsável pelo fim do dia mais longo e...

Quingentésimo ano (256)

Se como em tudo o mais fostes perfeita, Foreis de condição menos esquiva, Fôra a minha fortuna mais altiva, Fôra a sua altiveza mais sujeita. Mas quando a vida a vossos pés se deita, Porque não a acceitais, não quer que eu viva: Ella propria de si ja a mi me priva; Que, porque me engeitais, tambem me engeita. Se nisso contradiz vossa vontade, Mandai-lhe vós, Senhora, que dê fim Á minha profundissima tristeza. Pois ella não mo dá, porque piedade Tenha deste meu mal, mas porque em mim Possais assi fartar vossa crueza. Luís  de Camões

Quingentésimo ano (255)

Quem, Senhora, presume de louvar-vos Com discurso que baixe de divino, De tanto maior pena será dino, Quanto vós sois maior ao contemplar-vos. Não aspire algum canto a celebrar-vos, Por mais que seja raro, ou peregrino; Pois de vossa belleza eu imagino Que só comvosco o Ceo quiz comparar-vos. Ditosa esta alma vossa, a que quizestes Pôr em posse de prenda tão subida, Qual esta que benigna, em fim, me déstes. Sempre será anteposta á mesma vida: Esta estimar em menos me fizestes, Se antes que ess'outra a quero ver perdida. Luís de Camões

Quingentésimo ano (254)

Que esperais, esperança?  Desespéro. Quem disso a causa foi?  Hũa mudança. Vós, vida, como estais?  Sem esperança. Que dizeis, coração?  Que muito quero. Que sentis, alma, vós?  Que amor he fero. E, em fim, como viveis?  Sem confiança. Quem vos sustenta, logo?  Huma lembrança. E só nella esperais?  Só nella espero. Em que podeis parar?  Nisto em que estou. E em que estais vós?  Em acabar a vida. E ténde-lo por bem?  Amor o quer. Quem vos obriga assi?  Saber quem sou. E quem sois?  Quem de todo está rendida. A quem rendida estais?  A hum só querer. Luís de  Camões

Quingentésimo ano (253)

Quão cedo te roubou a Morte dura, Ânimo ilustre, a grandes  cousas dado, Deixando o frio corpo assim lançado Em estranha mas nobre sepultura!   Desta vida de cá, quepouco dura, Todo de sangue imigo já banhado, Por  mão de teu valor foste levado Aos campos da imortal vida segura.   O esp`rito  goza da ditosa idade, E o corpo, mãocabendo cá na terra, Às aves que o levassem se entregou.   Deixaste a todos mágoa e saüdade; Buscaste morte honrosa em dura guerra, O tejo deu-te e o Ganges te levou. Luís de Camões

Quingentésimo ano (252)

Onde acharei lugar tão apartado, E tão isento em tudo da ventura, Que, não digo eu de humana criatura, Mas nem de feras seja frequentado? Algum bosque medonho e carregado, Ou selva solitaria, triste e escura, Sem fonte clara, ou placida verdura; Em fim, lugar conforme a meu cuidado? Porque alli nas entranhas dos penedos, Em vida morto, sepultado em vida, Me queixe copiosa e livremente. Que, pois a minha pena he sem medida, Alli não serei triste em dias ledos, E dias tristes me farão contente. Luís de Camões

Quingentésimo ano (251)

  Ondas que por el mundo caminando Contino vais llevadas por el viento, Llevad embuelto en vos mi pensamiento, Do está la que do está lo está causando.   Dizilde que os estoy acrescentando, Dizilde que de vida no hay momento, Dizilde que no muere mi tormento, Dizilde que no vivo ya esperando.   Dizilde quan perdido me hallastes, Dizilde quan ganado me perdistes, Dizilde quan sin vida me matastes.   Dizilde quan llagado me feristes, Dizilde quan sin mi que me dexastes, Dizilde quan con ella que me vistes! Luís de  Camões

Quingentésimo ano (250)

Ja he tempo, ja, que minha confiança Se desça de huma falsa opinião: Mas Amor não se rege por razão; Não posso perder, logo, a esperança. A vida si; que huma aspera mudança Não deixa viver tanto hum coração, E eu só na morte tenho a salvação: Si: mas quem a deseja não a alcança. Forçado he logo que eu espere e viva. Ali dura lei de Amor, que não consente Quietação n'hum'alma que he captiva! Se hei de viver, em fim, forçadamente, Para que quero a gloria fugitiva De huma esperança vãa que me atormente? Luís de Camões

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 77 O Governador não a deixou ir sozinha, acompanhou-a à cooperativa, onde ambos foram recebidos com muita alegria, mas mais alegria houve, quando a Rosinha anunciou que tinha recebido uma carta do Roberto, dizendo que a Marina tinha tido um menino, e que se chama Afonso, por isso estavam muito felizes Todos foram contagiados pela alegria da avó e do avô, beijaram-se e abraçaram-se, desejando muitas felicidades para os jovens pais e herdeiro, pedindo que o tempo passasse depressa para conhecerem o Afonso e voltarem a ver a Marina e o Roberto Os avós também fizeram o mesmo pedido, a Rosinha acrescentou que era pena, o   Januário,não estar cá, para participar numa festa tão alegre e bonita No regresso, enquanto acompanhava a Rosinha a casa, o Governador, que não cabia em si de contentamento, desabafou, dizendo: “ tenho 6 filhas, e foi a mais nova que me deu o primeiro neto, as outras, não compreendo o que querem, continuam a rejeitar os pretendente...

Quingentésimo ano (249)

Ilustre Gracia, nombre de una moza, Primeira malhechora, en este caso, À Mondoñedo, à Palma, al cojo Traso; Sugeto digno de inmortal coroza;   Si en medio de la iglesia no rebosa El manto à vuestro rostro tan devaso, Por vos diràn  las gentes, recio y pso: Veis quiem com el demonio se retoza;   Puede mover los montes sin trabajo; Com palabras el curso al água enfrena; Por las ondas hará camino enjuto.   Averguenza su patrio y rico Tajo, Que por ellas hombres lleva, más que arena, De que paga al infierno gran tributo. Luís de Camões    

Quingentésimo ano (248)

Ja a roxa e branca Aurora destoucava Os seus cabellos de ouro delicados, E das flores os campos esmaltados Com crystallino orvalho borrifava; Quando o formoso gado se espalhava De Sylvio e de Laurente por os prados; Pastores ambos, e ambos apartados, De quem o mesmo amor não se apartava. Com verdadeiras lagrimas Laurente, Não sei, (dizia) ó Nympha delicada, Porque não morre ja quem vive ausente; Pois a vida sem ti não presta nada. Responde Sylvio: Amor não o consente: Que offende as esperanças da tornada. Luís de Camões

Quingentésimo ano (247)

Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjurárão: Os erros e a Fortuna sobejárão; Que para mi bastava Amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas, que passárão, Que ja as frequencias suas me ensinárão A desejos deixar de ser contente. Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa a que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças. De Amor não vi senão breves enganos. Oh quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Genio de vinganças! Luís de Camões

Quingentésimo ano (246)

Do están los claros ojos que colgada Mi alma de tras si llevar solían? Do están las dos mexillas quevencán La rosa quando está más colorada?   Do está rojadoca y  adornada Con  dientes que de nieve parecían? Los cabellos que el oro escurecán Do están, y aquella mano delicada?   O toda linda! do estarás ahora Que no te puedo ver, y el gran deseo De verte me da muerte cada hora!   Mas no mirais mi grande devaneo, Que tengo yo en mi alma a mi Señora, E diga: Donde estás que te no veo! Luís de Camões