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Mostrando postagens de maio, 2024

Quingentésimo ano (152)

O filho de Latona esclarecido, Que com seu raio alegra a humana gente, Matar pôde a Phytonica serpente Que mortes mil havia produzido. Ferio com arco, e de arco foi ferido, Com ponta aguda de ouro reluzente: Nas Thessalicas praias docemente Por a nympha Penea andou perdido. Não lhe pôde valer contra seu dano Saber, nem diligencias, nem respeito De quanto era celeste e soberano. Pois se hum deos nunca vio nem hum engano De quem era tão pouco em seu respeito, Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano? Luís de Camões

Quingentésimo ano (151)

O culto divinal se celebrava No templo donde toda criatura Louva o Feitor divino, que a feitura Com seu sagrado sangue restaurava. Amor alli, que o tempo me aguardava Onde a vontade tinha mais segura, Com huma rara e angelica figura A vista da razão me salteava. Eu crendo que o lugar me defendia De seu livre costume, não sabendo Que nenhum confiado lhe fugia; Deixei-me captivar: mas hoje vendo, Senhora, que por vosso me queria, Do tempo que fui livre me arrependo. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 62   A Marina, a filha mais nova do Governador, era uma rapariga muito inteligente, frequentava uma escola, onde estudavam os filhos da elite de Luanda Sonhava ir estudar para a Universidade de Coimbra, mas não queria ir sozinha. Assim, o seu plano era ir com o namorado, para a Metrópole Dias depois, o pai pediu-lhe para levar, lá a casa, o namorado, queria conhecê-lo e fazer-lhe algumas perguntas Ficou muito contente, sabia que o namorado iria impressionar o seu pai O Governador perguntou-lhe por que razão estava apaixonado pela sua filha Roberto respondeu-lhe que estava apaixonado pela Marina, por ser uma rapariga muito bonita e muito inteligente Depois, quis saber o que fazia ou o que queria fazer, o jovem disse-lhe que ainda não trabalhava, que queria estudar, que a Marina o estava a ensinar a ler e escrever É ótimo, que queiras saber ler e escrever, respondeu o pai da jovem, porque eu não quero genros, que sejam analfabetos Mas, para apre...

Quingentésimo ano (150)

O cysne quando sente ser chegada A hora que põe termo á sua vida, Harmonia maior, com voz sentida, Levanta por a praia inhabitada. Deseja lograr vida prolongada, E della está chorando a despedida: Com grande saudade da partida, Celebra o triste fim desta jornada. Assi, Senhora minha, quando eu via O triste fim que davão meus amores, Estando posto ja no extremo fio; Com mais suave accento de harmonia Descantei por os vossos desfavores La vuestra falsa fe, y el amor mio. Luís de Camões

Quingentésimo ano (149)

Num tão alto lugar, de tanto preço, este meu pensamento posto vejo, que desfalece nele inda o desejo, vendo quanto por mim o desmereço. Quando esta tal baixeza em mim conheço, acho que cuidar nele é grão despejo, e que morrer por ele me é sobejo e mor bem para mim do que mereço. O mais que natural merecimento de quem me causa um mal tão duro e forte o faz que vá crecendo de hora em hora. Mas eu não deixarei meu pensamento, porque, inda que este mal me causa a morte, un bel morir tutta la vita onora. Luís de Camões

Quingentésimo ano (148)

N'hum bosque, que das Nymphas se habitava, Sibella, Nympha linda, andava hum dia; E subida em huma árvore sombria, As amarellas flores apanhava. Cupido, que alli sempre costumava A vir passar a sésta á sombra fria, Em hum ramo arco e settas, que trazia, Antes que adormecesse, pendurava A Nympha, como idoneo tempo víra Para tamanha empresa, não dilata; Mas com as armas foge ao moço esquivo. As settas traz nos olhos, com que tira. Ó Pastores! fugi, que a todos mata, Senão a mim, que de matar-me vivo. Luís de Camões

Quingentésimo ano (147)

Nos braços de hum Sylvano adormecendo Se estava aquella Nympha qu'eu adoro, Pagando com a boca o doce foro, Com que os meus olhos foi escurecendo. Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo Que a maior formosura do teu côro Em hum poder tão vil perca o decoro Que o merito maior lhe está devendo? Eu levarei daqui por presupposto Desta nova estranheza que fizeste, Que em ti não póde haver cousa segura. Que, pois o claro lume, o bello rosto Áquelle monstro tão disforme déste, Não creio qu'haja Amor, senão Ventura. Luís de Camões

Quingentésimo ano (146)

No tempo que de amor viver sohia, Nem sempre andava ao remo ferrolhado; Antes agora livre, agora atado, Em várias flammas variamente ardia. Que ardesse n'hum só fogo não queria O Ceo porque tivesse exprimentado Que nem mudar as causas ao cuidado Mudança na ventura me faria. E se algum pouco tempo andava isento, Foi como quem co'o pêzo descansou Por tornar a cansar com mais alento. Louvado seja Amor em meu tormento, Pois para passatempo seu tomou Este meu tão cansado soffrimento! Luís de Camões

Quingentésimo ano (145)

No mundo quiz o Tempo que se achasse O bem que por acêrto, ou sorte vinha; E por exprimentar que dita tinha, Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse. Mas porque o meu destino me mostrasse Que nem ter esperanças me convinha, Nunca nesta tão longa vida minha Cousa me deixou ver que desejasse. Mudando andei costume, terra, estado, Por ver se se mudava a sorte dura; A vida puz nas mãos de hum leve lenho. Mas, segundo o que o Ceo me tẽe mostrado, Ja sei que deste meu buscar ventura Achado tenho ja que não a tenho. Luís de Camões

Quingentésimo ano (144)

No mundo poucos annos e cansados Vivi, cheios de vil miseria e dura: Foi-me tão cedo a luz do dia escura, Que não vi cinco lustros acabados. Corri terras e mares apartados, Buscando á vida algum remedio ou cura: Mas aquillo que, em fim, não dá ventura Não o dão os trabalhos arriscados. Criou-me Portugal na verde e chara Patria minha Alemquer; mas ar corruto, Que neste meu terreno vaso tinha, Me fez manjar de peixes em ti, bruto Mar, que bates a Abássia fera e avara, Tão longe da ditosa patria minha. Luís de Camões

O Império

O Império – As teias que o Império teceu   61 Três dias depois do funeral do Januário, a Milay, para o contentamento de toda a família, ajudando, também, a dissipar parte da tristeza causada pela morte do Januário, deu à luz a Eliane Todos ficaram muito contentes com a chegada da Eliane, os pais, os avós e restante família. Mas, o desaparecimento do Januário continuaria, por muito tempo, a fazer com que a família não superasse a tristeza provocada pela falta do seu mais destacado elemento que, sempre, se preocupou com os escravos, fazendo com que fosse um grande humanista Com a chegada da Eliane, também a Miquelina e o Ezequiel delegaram os seus compromissos, com a cooperativa, nos filhos, o Zacarias e a Milay, para se puderem dicar à neta, queriam aproveitar todo o tempo que fosse possível, para verem crescer a Eliane O grande sonho da Rosinha, do Ezequiel e da Miquelina era que as netas aprendessem a ler. Mas não conseguiam prever quando abriria a primeira escola em Angola          D...

Quingentésimo ano (143)

Nem o tremendo estrépito da guerra, com armas, com incêndios espantosos, que despacham pelouros perigosos, bastantes a abalar ũa alta serra, podem pôr medo a quem nenhum encerra, depois que viu os olhos tão fermosos, por quem o horror nos casos pavorosos de mi todo se aparta e se desterra. A vida posso ao fogo e ferro dar, e perdê-la em qualquer duro perigo, e nele, como Fénix, renovar. Não pode mal haver pera comigo, de que eu já me não possa bem livrar, senão do que me ordena Amor imigo. Luís de Camões

Quingentésimo ano (142)

Não vás ao monte, Nise, com teu gado; Que lá vi que Cupido te buscava: Por ti somente a todos perguntava, No gesto menos placido que irado. Elle publíca, em fim, que lhe has roubado Os melhores farpões da sua aljava; E com hum dardo ardente assegurava Traspassar esse peito delicado. Fuge de ver-te lá nesta aventura, Porque se contra ti o tens iroso, Póde ser que te alcance com mão dura. Mas ai! que em vão te advirto temeroso, Se á tua incomparavel formosura Se rende o dardo seu mais poderoso! Luís de Camões

Quingentésimo ano (141)

Não passes, caminhante. Quem me chama? Hũa memoria nova e nunca ouvida, De hum que trocou finita e humana vida Por divina, infinita, e clara fama. Quem he, que tão gentil louvor derrama? Quem derramar seu sangue não duvida, Por seguir a bandeira esclarecida De hum capitão de Christo que mais ama. Ditoso fim, ditoso sacrificio, Que a Deos se fez e ao mundo juntamente! Pregoando direi tão alta sorte. Mais poderás contar a toda a gente Que sempre deo na vida claro indicio De vir a merecer tão santa morte. Luís de Camões            

Quingentésimo ano (140)

Naiades, vós que os rios habitais, Que os saudosos campos vão regando, De meus olhos vereis estar manando Outros que quasi aos vossos são iguais. Dryades, que com setta sempre andais Os fugitivos cervos derribando, Outros olhos vereis, que triumphando Derribão corações, que valem mais. Deixai logo as aljavas e águas frias, E vinde, Nymphas bellas, se quereis, A ver como de huns olhos nascem mágoas. Notareis como em vão passão os dias; Mas em vão não vireis, porque achareis Nos seus as settas, e nos meus as águas. Luís de Camões

Quingentésimo ano (139)

Na metade do ceo subido ardia O claro, almo Pastor, quando deixavão O verde pasto as cabras, e buscavão A frescura suave da agua fria. Com a folha das árvores, sombria, Do raio ardente as aves se amparavão: O módulo cantar, de que cessavão, Só nas roucas cigarras se sentia. Quando Liso pastor n'hum campo verde Natercia, crua Nympha, só buscava Com mil suspiros tristes que derrama. Porque te vás de quem por ti se perde, Para quem pouco te ama? (suspirava) E o eco lhe responde: Pouco te ama. Luís de Camões

Quingentésimo ano (138)

Na desesperação já repousava O peito longamente magoado, E, com seu damno eterno concertado, Ja não temia, já não desejava; Quando huma sombra vãa me assegurava Que algum bem me podia estar guardado Em tão formosa imagem, que o traslado N'alma ficou, que nella se enlevava. Que credito que dá tão facilmente O coração áquillo que deseja, Quando lhe esquece o fero seu destino! Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente; Pois, postoque maior meu damno seja, Fica-me a glória já do que imagino. Luís de Camões  

Quingentésimo ano (137)

Memórias ofendidas que um só dia me não deixais em paz o pensamento, não me daneis o gosto do tormento, que quem vos ofendeu vos defendia. Que me quereis? Olhai que se injuria convosco o delicado sentimento que me ficou do eterno apartamento de quem já tem desfeita a morte fria. Deixaram-me co a mágoa das ofensas; levaram um remédio só que tinha. Quem irá vencer a pena que alma sente, Onde achará do dano as recompensas, se ainda de ser triste a dita minha me não deixa um momento ser contente? Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu   60   Quando teve alta, o genial Maciel, seguiu para a fortaleza de Massangano, onde antes estiveram a Rosinha, o Januário, a Miquelina e o Ezequiel, quando a fortaleza foi capital de Angola, na sequência da ocupação da cidade, pelos holandeses Foi solto para lutar pela sobrevivência. Tornou-se representante comercial dos negociantes de Luanda   Os pais e a avó disseram-lhe que o avô talvez já não se levantasse, ficou muito triste, chorou muito, quis ir vê-lo, eles disseram-lhe que fosse, que a acompanhavam, já estava em coma,  queria falar com ele, não parava de chorar, os familiares disseram – lhe que era melhor deixá-lo descansar. Mas, ela chorava e dizia que não queria que ele morresse A mãe agarrou-se a ela, beijou-a, apertou-a contra ela, dizendo-lhe que tudo o que nascia morria, já sabia que os animais morriam, compreendeu que isso, também, acontecia às pessoas. Em 1797, o novo Governador de Angola, D. Miguel António de Melo atestou, e...

Quingentésimo ano (136)

Memória de meu bem, cortado em flores por ordem de meus tristes e maus Fados, deixai-me descansar com meus cuidados nesta inquietação de meus amores. Basta-me o mal presente e os temores dos sucessos, que espero, infortunados; sem que venham, de novo, bens passados afrontar meu repouso com suas dores. Perdi nũa hora quanto em termos tão vagarosos e largos alcancei; deixai-me, pois, lembranças desta glória. Cumpre acabe a vida nestes ermos, que neles com meu mal acabarei mil vidas, não ũa só, dura memória! Luís de Camões  

Imigrantes

Imigrantes Vindes à procura de um lugar seguro De um país de emigrantes, maduro Cujos governantes vos querem dignificar Não vos querem ver chegar de mãos a abanar Só vos deixam entrar, se tiverdes dinheiro para, no hotel, ficar Precisamos de mão-de-obra, para fazer o que nós já não queremos fazer Como somos muito hospitaleiros, não queremos que vivam em palheiros Com os bons ordenados, bem podeis viver com muita dignidade Até tendes a facilidade de escolher entre o campo e a cidade O que mais prezamos é a igualdade Sabemos bem o que é ser emigrante Temos emigrantes por todo o mundo Sabemos bem o que é ser bem recebido Fomos a salto á procura do desconhecido Agora, já sabemos ao que vamos Formamos os nossos jovens, para emigrarem Para os outros países desenvolverem Porque não fomos capazes de rentabilizar o dinheiro, que recebemos Um perdeu-se, o outro foi mal gasto Continuamos sem capacidade para os segurar Nem as especiarias, nem o ouro, nem os euros nos conseguiram tirar do nosso lug...

Quingentésimo ano (135)

Males, que contra mim vos conjurastes, Quanto ha de durar tão duro intento? Se dura, porque dure meu tormento, Baste-vos quanto ja me atormentastes. Mas se assi porfiais, porque cuidastes Derribar o meu alto pensamento, Mais póde a causa delle, em que o sustento, Que vós, que della mesma o ser tomastes. E pois vossa tenção com minha morte He de acabar o mal destes amores, Dai ja fim a tormento tão comprido. Assi de ambos contente será a sorte; Em vós por acabar-me, vencedores, Em mim porque acabei de vós vencido. Luís de Camões

Quingentésimo ano (134)

Lembranças saudosas, se cuidais De me acabar a vida neste estado, Não vivo com meu mal tão enganado, Que não espere delle muito mais. De longo tempo ja me costumais A viver de algum bem desesperado: Ja tenho co'a Fortuna concertado De soffrer os tormentos que me dais. Atada ao remo tenho a paciencia Para quantos desgostos der a vida; Cuide quanto quizer o pensamento. Que pois não posso ter mais resistencia Para tão dura quéda, de subida, Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento. Luís de Camões

Quingentésimo ano (133)

Julga-me a gente toda por perdido, Vendo-me, tão entregue a meu cuidado, Andar sempre dos homens apartado, E de humanos commercios esquecido. Mas eu, que tenho o mundo conhecido, E quasi que sôbre elle ando dobrado, Tenho por baixo, rustico, e enganado Quem não he com meu mal engrandecido. Vá revolvendo a terra, o mar, e o vento, Honras busque e riquezas a outra gente, Vencendo ferro, fogo, frio e calma. Que eu por amor sómente me contento De trazer esculpido eternamente Vosso formoso gesto dentro da alma. Luís de Camões

Quingentésimo ano (132)

Já tempo foi que meus olhos folgavam de ver os verdes campos graciosos; tempo foi já também que os sonorosos ribeiros meus ouvidos recreavam. Foi tempo que nos bosques me alegravam os cantares das aves saudosos, os freixos e altos álamos umbrosos cujos ramos por cima se ajuntavam. Permanecer não pude em tal folgança; não me pôde durar esta alegria, não quis este meu bem ter segurança; ainda neste tempo eu não sentia do fero Amor a força e a mudança, os laços e as prisões com que prendia. Luís de Camões

Quingentésimo ano (131)

Já não sinto, Senhora, os desenganos com que minha afeição sempre tratastes, nem ver o galardão que me negastes, merecido por fé, há tantos anos. A mágoa choro só, só choro os danos de ver por quem, Senhora, me trocastes; mas em tal caso vós só me vingastes de vossa ingratidão, vossos enganos. Dobrada glória dá qualquer vingança que o ofendido toma do culpado, quando se satisfaz com cousa justa; mas eu, de vossos males e esquivança — de que agora me vejo bem vingado — não o quisera eu tanto à vossa custa. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu   59 A vitória de Correia de Sá, na reconquista de Luanda, em 15 de Agosto de 1648, deixou uma memória tão viva nos povos que, ainda, em 1812 se celebrava, em Luanda, uma festa de ação de graças, para lembrar o acontecimento A Leopoldina, bem como a Rosinha, já há muito tempo que andavam preocupadas por não terem ninguém que as ajudasse, quando alguém ficava doente, a não ser os curandeiros, que resolviam tudo, evocando os espíritos, método em quem elas não acreditavam Queriam criar um posto de socorros, com mezinhas, com tudo o que pudessem, para ajudar quem precisasse Estavam preocupadas com a quantidade de mulheres, que morriam no parto, tinham de fazer qualquer coisa, para evitar que as jovens continuassem a morrer Decidiram pedir que marcassem uma reunião das cooperantes, para saberem a opinião delas, saber o que é que elas sabiam, no sentido de contarem com as que pudessem ajudar, nos partos mais complicados              José Álvares Mac...

Quingentésimo ano (130)

Ja claro vejo bem, ja bem conheço Quanto augmentando vou o meu tormento; Pois sei que fundo em água, escrevo em vento, E que o cordeiro manso ao lobo peço; Que Arachne sou, pois ja com Pallas teço; Que a tigres em meus males me lamento; Que reduzir o mar a hum vaso intento, Aspirando a esse ceo que não mereço. Quero achar paz em hum confuso inferno; Na noite do sol puro a claridade; E o suave verão no duro inverno. Busco em luzente Olympo escuridade, E o desejado bem no mal eterno, Buscando amor em vossa crueldade. Luís de Camões

Quingentésimo ano (129)

Já a saudosa Aurora destoucava os seus cabelos de ouro delicados, e as flores nos campos esmaltados do cristalino orvalho borrifava; quando o fermoso gado se espalhava de Sílvio e de Laurente pelos prados; pastores ambos, e ambos apartados de quem o mesmo Amor não se apartava. Com verdadeiras lágrimas, Laurente «Não sei – dezia – ó Ninfa delicada, porque não morre já quem vive ausente, pois a vida sem ti não presta nada». Responde Sílvio: «Amor não o consente, que ofende as esperanças da tornada». Luís de Camões

Quingentésimo ano (128)

 Indo o triste pastor todo embebido na sombra de seu doce pensamento, tais queixas espalhava ao leve vento cum brando suspirar da alma saído: «A quem me queixarei, cego, perdido, pois nas pedras não acho sentimento? Com quem falo? A quem digo meu tormento que onde mais chamo, sou menos ouvido? Oh! bela Ninfa, porque não respondes? Porque o olhar-me tanto me encareces? Porque queres que sempre me querele? Eu quanto mais te vejo, mais te escondes! Quanto mais mal me vês, mais te endureces! Assi que co mal cresce a causa dele.» Luís de Camões.

Quingentésimo ano (127)

Illustre e digno ramo dos Menezes, Aos quaes o providente e largo Ceo (Que errar não sabe) em dote concedeo, Rompessem os Maometicos arnezes; Desprezando a Fortuna e seus revezes, Ide para onde o Fado vos moveo; Erguei flammas no mar alto Erythreo, E sereis nova luz aos Portuguezes. Opprimi com tão firme e forte peito O Pirata insolente, que se espante E trema Taprobana e Gedrosia. Dai nova causa á côr do Arabo Estreito; Assi que o Roxo mar, daqui em diante O seja só com sangue de Turquia! Luís de Camões.

Quingentésimo ano (126)

Grão tempo ha ja que soube da Ventura A vida que me tinha destinada; Que a longa experiencia da passada Me dava claro indicio da futura. Amor fero e cruel, Fortuna escura, Bem tendes vossa fôrça exprimentada: Assolai, destrui, não fique nada; Vingai-vos desta vida, que inda dura. Soube Amor da Ventura, que a não tinha, E porque mais sentisse a falta della, De imagens impossiveis me mantinha. Mas vós, Senhora, pois que minha estrella Não foi melhor, vivei nesta alma minha; Que não tẽe a Fortuna poder nella. Luís de Camões

Mãe!

2024, Mãe! Mãe! Que palavra tão doce Que colo, abrigo Que beijos, que paz Sempre que sonho contigo Quanto brincas-te comigo? Que mãe tão amorosa Nos teus verdes dezoito anos Os teus peitos eram duas bonitas rosas Onde saciava a minha fome O que uma mãe sofre! Amamentar os filhos até aos dois anos Com medo que passassem fome Em terra de muita miséria De senhas de racionamento Por causa da guerra Malditas guerras, sempre as guerras a atormentarem-nos Uma maldição, a roubar-nos o pão e a vida Respeitem as mães, que vos criaram, com tanto carinho Não lhes matem os filhos, em disputas perdidas Para satisfazerem as vossas ambições desmedidas Que ganhais com tanta destruição? Arrasando toda a habitação, construída com o coração Minando todos os campos, que davam o pão.   Um dia muito feliz, para todas as Mães! José Silva Costa          

Dia da Mãe

Mãe! Mãe, beijos e abraços, amor Mãe, vida, mulher, futuro Fogo, sol, rio, aurora Cuidar, amamentar, Senhora Ensinar, tudo, professora Gerir a casa, administradora Fazer a comida, cozinheira São muitas, as suas competências Trabalhar fora, em casa, em todo o lado É a âncora do ninho Porto de abrigo, com muito mimo Para todas as mães, um feliz domingo Muito obrigado, pelas mulheres e homens, que têm gerado e criado Mãe, Mãe, Mãe, que palavra tão suave e doce A doçura de quem gera novas vidas.   Para todas as Mães, Feliz dia da Mãe Domingo tranquilo.   José Silva Costa                

Quingentésimo ano (125)

Guardando em mi a Sorte o seu direito. Em verde me cortou minha alegria. Oh quanto feneceo naquelle dia, Cuja triste lembrança arde em meu peito! Quando mais o imagino, bem suspeito Que a tal bem tal desconto se devia, Por não dizer o mundo que podia Achar-se em seus enganos bem perfeito. Pois se a Fortuna o fez por descontar-me Aquelle gôsto, em cujo sentimento A memoria não faz senão matar-me; Que culpas póde dar-me o pensamento, Se a causa qu'elle tẽe de atormentar-me, Tenho eu de soffrer mal o seu tormento? Luís de Camões

Quingentésimo ano (124)

Foi ja n'hum tempo doce cousa amar, Em quanto me enganou huma esperança: O coração com esta confiança Todo se desfazia em desejar. Oh vão, caduco e debil esperar! Como, em fim, desengana huma mudança! Que quanto he mor a bem-aventurança, Tanto menos se crê que ha de durar. Quem ja se vio com gostos prosperado, Vendo-se brevemente em pena tanta, Razão tẽe de viver bem magoado. Mas quem ja tẽe o mundo exprimentado, Não o magôa a pena, nem o espanta; Que mal se estranhára o costumado. Luís de Camões.

O Império

  O Império  -  As teias que o Império teceu   58 Mais tarde ou mais cedo, quando os avós estão colhendo os doces frutos dos cabelos prateados, chega a hora de se irem embora O Januário estava cada vez mais doente, constantemente com sazões, quase já não podia andar Como toda a família, a neta andava muito triste, sentia a falta do avô, queria ir para as lavras, correr, saltar brincar. Mas faltava o avô, para a acompanhar A avó bem tentava mantê-la ocupada, quando ela não queria ir para a creche, porque queria ficar ao pé do avô. Mas a sua vida tinha-se tornado num inferno, desde que o marido tinha ficado acamado A Rosinha estava preocupada, tinha de falar com a filha e o genro, para arranjarem uma estratégia, que a fosse afastando do avô, para minimizar a dor, que sentiria, quando o avô  morresse Todos estavam muito tristes, mas era inevitável, a vida do Januário estava por um fio, seria uma grande perda para todos. Tinha-se distinguido, por ser uma pessoa boa, amiga de toda a gente A...

Quingentésimo ano (123)

Formosos olhos, que na idade nossa Mostrais do Ceo certissimos signais, Se quereis conhecer quanto possais, Olhai-me a mim, que sou feitura vossa. Vereis que do viver me desapossa Aquelle riso com que a vida dais: Vereis como de Amor não quero mais, Por mais que o tempo corra, o damno possa. E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes, Como em hum claro espelho, alli vereis Tambem a vossa angelica e serena. Mas eu cuido que, só por me não verdes, Ver-vos em mim, Senhora, não quereis: Tanto gôsto levais de minha pena! Luís de Camões.