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Mostrando postagens de janeiro, 2024

Quingentésimo ano (32)

O retrato de Vénus   Os crespos fios d'ouro se esparziam Pelo colo, que a neve escurecia; Andando, as lácteas tetas lhe tremiam, Com quem Amor brincava, e não se via; Da alva petrina flamas lhe saíam, Onde o Menino as almas acendia; Pelas lisas colunas lhe trepavam Desejos, que como hera se enrolavam. C'um delgado sendal as partes cobre, De quem vergonha é natural reparo, Porém nem tudo esconde, nem descobre, O véu, dos roxos lírios pouco avaro; Mas, para que o desejo acenda o dobre, Lhe põe diante aquele objeto raro. Já se sentem no Céu, por toda a parte, Ciúmes em Vulcano, amor em Marte. —   Os Lusíadas , Canto II  

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 46 O Jeremias e a Leopoldina tinham começado a namorar, pouco depois do Januário ter  embarcado para o Brasil, planeavam casar-se assim que ele regressasse, mas ainda  não tinha tido coragem de lhe pedir a filha, em casamento Muitos rapazes não se sentiam muito à vontade, para pedirem as namoradas em casamento, como se sabe, os pais são exigentes com os pretendentes das suas filhas, para eles, não há rapazes que mereçam as suas princesas São capazes de todos os sacrifícios pela família: emigram, deixam a mulher e os filhos, vivem o sonho de lhes dar uma vida melhor, se necessário for, trabalham dia e noite Quando lhes aparece, pela frente, um magarefe, que não conhecem de lado nenhum, ficam em pânico, não querendo de maneira nenhuma, abrir mão das suas filhas, que lhe deram tanto trabalho a criar Temem que sejam mal tratadas, sabem que a violência doméstica é uma chaga incurável Esquecem-se que, também, já tiveram de arranjar coragem para enfr...

Quingentésimo ano (31)

Religião   Desce do Céu imenso, Deus benino, Para encarnar na Virgem soberana. "Porque desce divino em cousa humana?" "Para subir o humano a ser Divino". "Pois como vem tão pobre e tão minino, Rendendo-se ao poder da mão tirana?" "Porque vem receber morte inumana Para pagar de Adão o desatino". "Pois como? Adão e Eva o fruto comem Que por seu próprio Deus lhe foi vedado?" "Si, por que o próprio ser de deuses tomem". "E por essa razão foi humanado?" "Si. Porque foi com causa decretado, Se o homem quis ser deus, que Deus seja homem   Luís de Camões

Quingentésimo ano (30)

As armas e os barões assinalados Que, da ocidental praia lusitana, Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da   Taprobana , Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram. ..... Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte —   Os Lusíadas , Canto I  

Quingentésimo ano (29)

Olhai que há tanto tempo que, cantando O vosso Tejo e os vossos lusitanos, A Fortuna me traz peregrinando, Novos trabalhos vendo e novos danos: ..... A troco dos descansos que esperava, Das capelas de louro que me honrassem, Trabalhos nunca usados me inventaram, Com que em tão duro estado me deitaram ..... Vede, Ninfas, que engenhos de senhores O vosso Tejo cria valerosos, Que assim sabem prezar, com tais favores, A quem os faz, cantando, gloriosos!" —   Os Lusíadas , Canto VII

Quingentésimo ano (28)

Amor é um brado afeito Que Deus no Mundo pôs e a Natureza Para aumentar as coisas que criou. De amor está sujeito Tudo quanto possui a redondeza; Nada sem este efeito se gerou. Por ele conservou A causa principal o Mundo amado Donde o pai famulento foi deitado. As coisas ele as ata e as conforma Com O Mundo,e reforma A matéria. Quem há que não o veja? Quanto meu mal deseja, sempre forma. Luís de Camões

Quingentésimo ano (27)

Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho, logo, mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está ligada. Mas esta linda e pura semideia, Que, como um acidente em seu sujeito, Assim como a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia: E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma Luís de Camões

Reconciliação!

Reconciliação! Depois de tantos anos a votarem contra o misero aumento de 10€, para os  pensionistas Certamente com medo que se metessem no marisco e tivessem alguma congestão Agora, mais uma vez, querem-nos enganar, dizendo que connosco se querem reconciliar No leilão das promessas, se quiserem que nenhuma pensão fique abaixo do ordenado mínimo  só têm de cantar, todos os dias, o hino nacional, a olhar para a fotografia do promotor Dois candidatos a primeiro- ministro: um, até 10 de março, será o culpado de tudo o que de ruim aconteceu, até da morte da minha avó! O, outro, como nunca teve funções governativas, nunca cometeu nenhum erro  A Câmara de Espinho fez com o seu escritório de advogados uns contratos de ajuste direto, cujo Presidente era seu amigo Aproveitando essa amizade, na recuperação de um palacete, conseguiu a isenção de impostos, sujeita à não alteração da fachada, o que não aconteceu Não contente, ainda, conseguiu que os materiais de construção fossem comprados à taxa m...

Golas! (Republicação)

Fogo! por cheia, em 18.09.19   Golas de fogo   Aldeias Seguras Golas de fogo Os negócios com o fogo Vão aos bolsos do povo Por isso, é que tudo arde, de novo Todos os anos! A prevenção! Não Senão, lá se vão os negócios Para muitos tão proveitosos Porque os preços, para a Proteção Civil São a dobrar! Os jornalistas falam demais Os jornalistas sabem demais Ai censura! Em certas ocasiões, davas tanto jeito Metias todo o pessoal em respeito Isto de Governar em democracia é uma chatice Andam, sempre, a escrutinar tudo E a denunciar a aldrabice Os incêndios, para muitos, são uma mina Muito melhor, que o negócio da china.   P. S : As "golas" vão a julgamento José Silva Costa          

Quingentésimo ano (26)

Quem vê, Senhora, claro e manifesto O lindo ser de vossos olhos belos, Se não perder a vista só em vê-los, Já não paga o que deve a vosso gesto. Este me parecia preço honesto; Mas eu, por de vantagem merecê-los, Dei mais a vida e alma por querê-los, Donde já não me fica mais de resto. Assim que a vida e alma e esperança, E tudo quanto tenho, tudo é vosso, E o proveito disso eu só o levo. Porque é tamanha bem-aventurança O dar-vos quanto tenho e quanto posso, Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.   Luís de Camões

Quingentésimo ano (25)

Quem diz que Amor é falso ou enganoso, Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce e é piadoso. Quem o contrário diz não seja crido; Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens, e inda aos deuses, odioso. Se males faz Amor, em mi se veem; Em mi mostrando todo o seu rigor, Ao mundo quis mostrar quanto podia. Mas todas suas iras são de amor; Todos estes seus males são um bem, Que eu por todo outro bem não trocaria.   Luís de Camões

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 45 Em Luanda, os cativos ficavam em grandes barracões esperando o embarque, quando os navios demoravam para transportar a “carga” Os Jesuítas, que possuíam numerosos escravos em Luanda, tinham um importante papel durante essa estadia, catequizando as almas Antes de embarcar, todos os escravos eram batizados com nomes bíblicos, recebendo a nova alcunha por escrito, num papel Eram orientados a esquecer os costumes da sua terra e a serem felizes na nova fé Desde que regressara do Brasil, que o Januário tinha notado que a filha, a Leopoldina, tinha muita intimidade com um rapaz, que a acompanhava nos trabalhos do campo, o que não era habitual, por que raramente os homens trabalhavam nas lavras Achava que não deveria fazer perguntas, mais tarde ou mais cedo perceberia o que se passava, ou alguém o informaria do que se passava entre os dois pombinhos Poucos dias depois, a Rosinha perguntou ao marido, o que é que achava daquele novo associado Respondeu...

Quingentésimo ano (24)

Eu cantarei de amor tão docemente, Por uns termos em si tão concertados, Que dois mil acidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente. Farei que amor a todos avivente, Pintando mil segredos delicados, Brandas iras, suspiros magoados, Temerosa ousadia e pena ausente. Também, Senhora, do desprezo honesto De vossa vista branda e rigorosa, Contentar-me-ei dizendo a menor parte. Porém, pera cantar de vosso gesto A composição alta e milagrosa Aqui falta saber, engenho e arte.   Luís de Camões

Quingentésimo ano (23)

Eu cantei já, e agora vou chorando O tempo que cantei tão confiado: Parece que no canto já passado Se estavam minhas lágrimas criando. Cantei; mas se me alguém pergunta, quando? Não sei; que também fui nisso enganado. É tão triste este meu presente estado, Que o passado por ledo estou julgando. Fizeram-me cantar manhosamente Contentamentos não, mas confianças: Cantava, mas já era ao som dos ferros. De quem me queixarei, se tudo mente? Porém que culpas ponho às esperanças, Onde a fortuna injusta é mais qu’os erros? Luís de Camões

Quingentésimo ano (22)

Busque Amor novas artes, novo engenho, Para matar-me, e novas esquivanças; Que não pode tirar-me as esperanças, Que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, Andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas, conquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê. Que dias há que n’alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como, e dói não sei por quê.

Quingentésimo ano (21)

Batalha de Aljubarrota 28 "Deu sinal a trombeta Castelhana, Horrendo, fero, ingente e temeroso; Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana Atrás tornou as ondas de medroso; Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana; Correu ao mar o Tejo duvidoso; E as mães, que o som terríbil escutaram, Aos peitos os filhinhos apertaram. 29 "Quantos rostos ali se vêem sem cor, Que ao coração acode o sangue amigo! Que, nos perigos grandes, o temor É maior muitas vezes que o perigo; E se o não é, parece-o; que o furor De ofender ou vencer o duro amigo Faz não sentir que é perda grande e rara, Dos membros corporais, da vida cara. 30 "Começa-se a travar a incerta guerra; De ambas partes se move a primeira ala; Uns leva a defensão da própria terra, Outros as esperanças de ganhá-la; Logo o grande Pereira, em quem se encerra Todo o valor, primeiro se assinala: Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia Dos que a tanto desejam, sendo alheia. 31 "Já pelo espesso ar os estridentes Farpões, setas e vári...

Quingentésimo ano (20)

Busque Amor novas artes, novo engenho, Para matar-me, e novas esquivanças; Que não pode tirar-me as esperanças, Que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, Andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas, conquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê. Que dias há que n’alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como, e dói não sei por quê.  

Quingentésimo ano (19)

  A chaga que, Senhora, me fizestes, Não foi para curar-se em um só dia; Porque crescendo vai com tal porfia, Que bem descobre o intento que tivestes.   De causar tanta dor não vos doestes? Mas, a doer-vos, dor me não seria, Pois já com esperança me veria Do que vós, que em mim visse, não quisestes.   Os olhos com que todo me roubastes foram causa do mal que vou passando; E vós estais fingindo o não causastes.   Ma eu me vingarei. E sabeis quando? Quando vos vir queixar porque deixastes Ir-se a minha alma neles abrasando. Luís Vaz de Camões  

Quingentésimo ano (18)

Amor, com a esperança ja perdida Teu soberano templo visitei: Por signal do naufragio que passei, Em lugar dos vestidos, puz a vida. Que mais queres de mi, pois destruida Me tẽes a gloria toda que alcancei? Não cuides de render-me; que não sei Tornar a entrar-me onde não ha sahida. Vês aqui a vida, e a alma, e a esperança, Doces despojos de meu bem passado, Em quanto o quiz aquella que eu adoro. Nellas podes tomar de mi vingança: E se te queres inda mais vingado, Contenta-te co'as lagrimas que chóro.

O Império

O Império – As teias que o Império teceu 44 A chegada de portugueses e espanhóis às américas fez descer a temperatura da Terra A colonização dos continentes americanos, que foi levada a cabo por portugueses e espanhóis provocou tantas mortes entre os povos indígenas que teve efeitos significativos no clima da Terra, levando a um drástico arrefecimento do planeta Uma conclusão da University College London, Reino Unido Dos cerca de 60 milhões de pessoas, que viviam nas Américas, no fim do século XV (cerca de 10% da população do mundo) diminuiu para apenas 5 ou 6 milhões, em cem anos (BBC/ZAP) (18/11/2023) Este período de arrefecimento é conhecido por Pequena Era do Gelo, e foi uma época em que as tempestades de neve eram comuns em Portugal, e o Rio Tamisa, em Londres, congelava durante o inverno, com vários países europeus a viverem períodos de fome  A Rosinha ouviu todos os membros das duas famílias, sobre o que pensavam ou sugeriam para modernizar os métodos de produção, para aumentare...

Quingentésimo ano (17)

Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Ceo eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento Ethereo, onde subiste, Memoria desta vida se consente, Não te esqueças de aquelle amor ardente, Que ja nos olhos meus tão puro viste. E se vires que póde merecer-te Algũa cousa a dor que me ficou Da mágoa, sem remedio, de perder-te; Roga a Deos que teus annos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.

Quingentésimo ano (16)

Alma gentil, que á firme eternidade Subiste clara e valerosamente, Cá durará de ti perpetuamente A fama, a gloria, o nome e a saudade. Não sei se he mor espanto em tal idade Deixar de teu valor inveja á gente, Se hum peito de diamante, ou de serpente, Fazeres que se mova a piedade. Invejosa da tua acho mil sortes, E a minha mais que todas invejosa, Pois ao teu mal o meu tanto igualaste. Oh ditoso morrer! sorte ditosa! Pois o que não se alcança com mil mortes, Tu com huma só morte o alcançaste.

Quingentésimo ano (15)

Alegres campos, verdes arvoredos, Claras e frescas águas de cristal, Que em vós os debuxais ao natural, Discorrendo da altura dos rochedos: Silvestres montes, asperos penedos Compostos de concêrto desigual; Sabei que sem licença de meu mal Ja não podeis fazer meus olhos ledos. E pois ja me não vêdes como vistes, Não me alegrem verduras deleitosas, Nem águas que correndo alegres vem. Semearei em vós lembranças tristes, Regar-vos-hei com lagrimas saudosas, E nascerão saudades de meu bem.

Fazer dinheiro

SIBS: a fazedora de dinheiro   Há muito que a SIBS queria uma taxa sobre as operações fectuadas no multibanco. Como isso não foi permitido, este ano, arranjou maneira de nos fazer gastar 2€, por mês, para fazermos pagamentos............   Segundo a SIBS, apenas em " situações muito pontuais poderá ser necessária a associação de um novo cartão, real ou virtual, dependendo da oferta do Prestador de Serviços de Pagamento/Instituição Financeira ". Quais são essas situações muito ponutais?  O meu Banco, do qual tenho um cartão de débito e um de crédito, obrigou-me a criar um caratão virtual, com o custo de 24€, por ano, para poder continuar a fazer as operações, que fazia sem pagar nada. Se não fosse obrigatório ter uma conta bancária, fechava-a e metia o dinheiro no colchão.   José Silva Costa  

Quingentésimo ano (14)

  O Adamastor 37 "Porém já cinco Sóis eram passados Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca doutrem navegados, Prósperamente os ventos assoprando, Quando uma noite estando descuidados, Na cortadora proa vigiando, Uma nuvem que os ares escurece Sobre nossas cabeças aparece.   38 "Tão temerosa vinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo; Bramindo o negro mar, de longe brada Como se desse em vão nalgum rochedo. - "Ó Potestade, disse, sublimada! Que ameaço divino, ou que segredo Este clima e este mar nos apresenta, Que mor cousa parece que tormenta?" -   39 "Não acabava, quando uma figura Se nos mostra no ar, robusta e válida, De disforme e grandíssima estatura, O rosto carregado, a barba esquálida, Os olhos encovados, e a postura Medonha e má, e a cor terrena e pálida, Cheios de terra e crespos os cabelos, A boca negra, os dentes amarelos.   40 "Tão grande era de membros, que bem posso Certificar-te, que este era o segundo De Rodes estranh...

O início

O início   O moço, irreverente, disse adeus ao velho de barbas brancas Saltou de contente, por ver tanta gente a ovacioná-lo, a dizer Bem-vindo, Feliz Ano Novo, Próspero Ano Novo, Bom 2024, e enquanto isto, beijavam-se, abraçavam-se, bebiam champanhe, comiam passas, acompanhadas pelos seus desejos Estavam muito felizes, como se ele fosse o salvador, como se tivesse poder para satisfazer todos os seus pedidos, todos os seus desejos, ouviam música, continuavam a rejubilar com o fogo-de-artifício, dançavam. O jovem moço estava atónico com tanta alegria, com tanta esperança, mas não podia perder mais tempo, tinha os dias contados, não sabia  como satisfazer o que tinham pedido ao comerem as  passas Estava tão cansado e preocupado, que decidiu descansar, deitou-se junto a uma florida cameleira, um rouxinol cantou uma bonita melodia, quando acordou, já o sol beijava o Ano  Novo e o seu primeiro dia O frio estava a chegar, no início era sempre assim: ou chovia ou fazia frio. O que fazia com q...

Quingentésimo ano (13)

Tromba-Marítima   18 "Vi, claramente visto, o lume vivo Que a marítima gente tem por santo Em tempo de tormenta e vento esquivo, De tempestade escura e triste pranto. Não menos foi a todos excessivo Milagre, e coisa certo de alto espanto, Ver as nuvens do mar com largo cano Sorver as altas águas do Oceano.   19 "Eu o vi certamente (e não presumo Que a vista me enganava) levantar-se No ar um vaporzinho e subtil fumo, E, do vento trazido, rodear-se: Daqui levado um cano ao pólo sumo Se via, tão delgado, que enxergar-se Dos olhos facilmente não podia: Da matéria das nuvens parecia.   20 "Ia-se pouco e pouco acrescentando E mais que um largo masto se engrossava; Aqui se estreita, aqui se alarga, quando Os golpes grandes de água em si chupava; Estava-se co'as ondas ondeando: Em cima dele uma nuvem se espessava, Fazendo-se maior, mais carregada Co'o cargo grande d'água em si tomada.   21 "Qual roxa sanguessuga se veria Nos beiços da alimária (que imprudente, B...

Quingentésimo ano (12)

Ai, imiga cruel! Que apartamento É este que fazeis da pátria terra? Ai! quem do amado ninho vos desterra, Glória dos olhos, bem do pensamento?   Is tentar da Fortuna o movimento, E dos ventos cruéis a dura guerra? Ver brenhas de ondas? feito o mar em serra, Levantado de um vento e de outro vento?   Mas, já que vós partis sem vos partirdes, Parta convosco o Céu tanta ventura, Que se avantage aquela que esperardes.   E só desta verdade ide segura: Que fazeis mais saudades com vos irdes, Do que levais desejos por chegardes. Luís de Camões                          

Quingentésimo ano (11)

Velho do Restelo 94 "Mas um velho d'aspeito venerando, Que ficava nas praias, entre a gente, Postos em nós os olhos, meneando Três vezes a cabeça, descontente, A voz pesada um pouco alevantando, Que nós no mar ouvimos claramente, C'um saber só de experiências feito, Tais palavras tirou do experto peito: 95 - "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça Desta vaidade, a quem chamamos Fama! Ó fraudulento gosto, que se atiça C'uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles experimentas! 96 - "Dura inquietação d'alma e da vida, Fonte de desamparos e adultérios, Sagaz consumidora conhecida De fazendas, de reinos e de impérios: Chamam-te ilustre, chamam-te subida, Sendo dina de infames vitupérios; Chamam-te Fama e Glória soberana, Nomes com quem se o povo néscio engana! 97 - "A que novos desastres determinas De levar estes reinos e esta gente? Que...

O Império

O Império  -  A teias que o Império teceu 43 Em tempo de paz, os agenciadores de escravos, os pumbeiros, vasculhavam o sertão angolano comprando os prisioneiros de tribos rivais Nas idas e vindas ao interior, levavam cerca de 150 escravos, para carregarem as mercadorias usadas como pagamento Demoravam cerca de um ou dois anos nas jornadas e voltavam com filas de 500 a 600 escravos Nas guerras de captura, os capitães partiam acompanhados por centenas de soldados europeus, mulatos brasileiros ou mesmo angolanos Enfrentavam as tribos e escravizavam os homens capturados. Em Luanda, os cativos ficavam em grandes barracões, esperando o embarque Quando os navios demoravam para os transportarem, os escravos trabalhavam na plantação e cultivo da mandioca A comodidade, fundada pelos dois casais, contribuiu para que os seus membros tenham tido bons rendimentos e um grande melhoramento no seu nível de vida, conseguiram acabar com a fome e construíram cubatas mais confortáveis O facto de se entre a...

Quingentésimo ano (10)

Ah! minha Dinamene! assim deixaste Quem nunca deixar pôde de querer-te! Que já, Ninfa gentil, não possa ver-te! Que tão veloz a vida desprezaste!   Como por tempo eterno te apartaste De quem tão longe andava de perder-te? Puderam essas águas defender-te Que não visses quem tanto magoaste?   Nem somente falar te a dura morte Me deixou, que apressada o negro manto Lançar sobre os teus olhos consentiste!   Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte! Qual vida perderei que valha tanto, Se inda tenho por pouco o viver triste?   Camões      

Quingentésimo ano (9)

Censura A estrofe 82, do canto X, e o parecer do Santo Ofício   82 "Aqui, só verdadeiros, gloriosos Divos estão, porque eu, Saturno e Jano, Júpiter, Juno, fomos fabulosos, Fingidos de mortal e cego engano. Só pera fazer versos deleitosos Servimos; e, se mais o trato humano Nos pode dar, é só que o nome nosso Nestas estrelas pôs o engenho vosso     "O  poema épico  mais genuíno é o canto da construção duma nação com a ajuda de  Deus  ou dos  deuses .  Os Lusíadas , como já a  Eneida , é uma epopeia moderna, em que o maravilhoso não passa dum artifício necessário, mas só literário. A  fé  única no Deus  cristão  é defendida por toda a obra. Não se pode pensar em  heresia  porque não fazia sentido, em tempos de  Contrarreforma , acreditar nos deuses do panteão greco-romano, e a prova é a não  censura  dos  inquisidores  aos « Deoses dos Gentios ». No episódio da  Máquina do Mundo  (estrofe 82 do  Canto X ), é a própria  personagem  da deusa  Tétis  que afirma: « eu, Saturno e Ja...

Quingentésimo ano (8)

Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor.

Quingentésimo ano (7)

Inês de Castro 118 "Passada esta tão próspera vitória, Tornando Afonso à Lusitana terra, A se lograr da paz com tanta glória Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste, e dino da memória, Que do sepulcro os homens desenterra, Aconteceu da mísera e mesquinha Que depois de ser morta foi Rainha.   119 "Tu só, tu, puro Amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga, É porque queres, áspero e tirano, Tuas aras banhar em sangue humano.   120 "Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruto, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.   121 "Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante se...

Quingentésimo ano (6)

Batalha do Salado   107 "Mas já co'os esquadrões da gente armada Os Eborenses campos vão coalhados: Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada; Vão rinchando os cavalos jaezados. A canora trombeta embandeirada, Os corações à paz acostumados Vai às fulgentes armas incitando, Pelas concavidades retumbando. 108 "Entre todos no meio se sublima, Das insígnias Reais acompanhado, O valeroso Afonso, que por cima De todos leva o colo alevantado; E somente co'o gesto esforça e anima A qualquer coração amedrontado. Assim entra nas terras de Castela Com a filha gentil, Rainha dela. 109 "Juntos os dous Afonsos finalmente Nos campos de Tarifa estão defronte Da grande multidão da cega gente, Para quem são pequenos campo e monte. Não há peito tão alto e tão potente, Que de desconfiança não se afronte, Enquanto não conheça e claro veja Que co'o braço dos seus Cristo peleja.   110 "Estão de Agar os netos quase rindo Do poder dos Cristãos fraco e pequeno, As terras com...

Quingentésimo ano (5)

 A violeta mais bela que amanhece No vale, por esmalte da verdura, Com seu pálido lustre e formosura, Por mais bela, Violante, te obedece.   Perguntas-me porquê? Porque aparece Em ti seu nome e sua cor mais pura; E estudar em teu rosto só procura Tudo quanto em beldade mais florece.    Ó luminosa flor, ó Sol mais claro, Único roubador do meu sentido, Não permitas que Amor me seja avaro!   Ó penetrante seta de Cupido, Que queres? Que te peça, por reparo. Ser, neste vale, Eneias desta Dido? Luís de Camões            

Quingentésimo ano (4)

 Será a serra de Sintra?   A formusura desta fresca serra E a sombra dos verdes castanheiros, O manso caminhar destes ribeiros, Donde toda a tristeza se desterra;   O rouco som do mar, a estranha terra, O esconder do sol pelos outeiros, O recolher dos gados derradeiros, Das nuvens pelo ar a branda guerra;   Enfim, tudo o que a rara natureza Com tanta variedade nos of`rece, Me está, se não te vejo, magoando.   Sem ti, tudo me enjoa e me aborrece; Sem ti, perpetuamente estou passando Nas mores alegrias mor tristeza. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império  teceu 42   Qualquer um servia para Governar Angola, desde que defendesse a escravatura André Vidal de Negreiros, herói da insurreição Pernambucana, a guerra contra a ocupação  holandesa no Brasil, recebeu como prémio o Governo de Angola,  governou de 1661 a 1666 Entrou em conflito com o novo rei do Congo, D. António Afonso, chamado na língua bacongo de Mani Mulaza A desavença, entre os dois, aconteceu na batalha de Ambuíla (1665), quando os mulatos de Negreiros resistiram com espingardas e debaixo de uma chuva de milhares de arqueiros de Mani Mulaza Mesmo com muitas glórias, Negreiros foi afastado por romper a paz com o Congo, conquistada logo após a reconquista de Luanda Para conseguirem escravos, os exploradores luso-brasileiros não poupavam esforços Valia tudo, desde a guerra de captura até ao pagamento de tributos Uma das maneiras mais comuns era a troca de mercadorias portuguesas (vinho, pólvora e sal-gema) ou brasileiras (fumo, cachaça e fari...

Quingentésimo ano (3)

Enquanto quis Fortuna que tivesse Esperança de algum contentamento, O gosto de um suave pensamento Me fez que seus efeitos escrevesse.   Porém, temendo Amor que aviso desse Minha escritura a algum juízo isento, Escureceu-me o engenho co` o tormento, Para que seus enganos não dissesse.   Ó vos que Amor obriga a ser sujeitos A diversas vontades: quando lerdes Num breve livro casos tão diversos   (Verdades puras são e não defeitos), Entendei que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos. Luís de Camões            

Quingentésimo ano (2)

Descrição de Portugal 20 "Eis aqui, quase cume da cabeça De Europa toda, o Reino Lusitano, Onde a terra se acaba e o mar começa, E onde Febo repousa no Oceano. Este quis o Céu justo que floresça Nas armas contra o torpe Mauritano, Deitando-o de si fora, e lá na ardente África estar quieto o não consente. 21 "Esta é a ditosa pátria minha amada, A qual se o Céu me dá que eu sem perigo Torne, com esta empresa já acabada, Acabe-se esta luz ali comigo. Esta foi Lusitânia, derivada De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo Filhos foram, parece, ou companheiros, E nela então os Íncolas primeiros.   ( canto III, est. 20-21)

Quingentésimo ano (1)

Camões Quingentésimo ano do nascimento de Camões … eu cano peito ilustre lusitano A quem Neptuno e Marte obedeceram   O dia em que nasci moura e pereça, Não o queira jamais o tempo dar; Não torne mais ao mundo, e, se tornar, Eclipse nesse passo o Sol padeça.   A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça, Mostre o mundo sinais de se acabar, Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, A mãe ao próprio filho não conheça.   As pessoas pasmadas, de ignorantes, As lágrimas no rosto, a cor perdida, Cuidem que o mundo já se destruiu.   Ó gente temerosa, não te espantes, Que este dia deitou ao mundo a vida Mais desgraçada que já mais se viu! Luís de Camões