Quingentésimo ano (6)
Batalha do Salado
107
"Mas já co'os esquadrões da gente armada
Os Eborenses campos vão coalhados:
Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
Vão rinchando os cavalos jaezados.
A canora trombeta embandeirada,
Os corações à paz acostumados
Vai às fulgentes armas incitando,
Pelas concavidades retumbando.
108
"Entre todos no meio se sublima,
Das insígnias Reais acompanhado,
O valeroso Afonso, que por cima
De todos leva o colo alevantado;
E somente co'o gesto esforça e anima
A qualquer coração amedrontado.
Assim entra nas terras de Castela
Com a filha gentil, Rainha dela.
109
"Juntos os dous Afonsos finalmente
Nos campos de Tarifa estão defronte
Da grande multidão da cega gente,
Para quem são pequenos campo e monte.
Não há peito tão alto e tão potente,
Que de desconfiança não se afronte,
Enquanto não conheça e claro veja
Que co'o braço dos seus Cristo peleja.
110
"Estão de Agar os netos quase rindo
Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
As terras como suas repartindo
Antemão, entre o exército Agareno,
Que com título falso possuindo
Está o famoso nome Sarraceno.
Assim também com falsa conta e nua,
À nobre terra alheia chamam sua.
111
"Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
Do rei Saul, com causa, tão temido,
Vendo o pastor inerme estar diante,
Só de pedras e esforço apercebido,
Com palavras soberbas o arrogante
Despreza o fraco moço mal vestido,
Que, rodeando a funda, o desengana
Quanto mais pode a Fé que a força humana:
112
"Desta arte o Mouro pérfido despreza
O poder dos Cristãos, e não entende
Que está ajudado da Alta Fortaleza,
A quem o inferno horrífico se rende.
Co ela o Castelhano, e com destreza
De Marrocos o Rei comete e ofende.
O Português, que tudo estima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.
113
"Eis as lanças e espadas retiniam
Por cima dos arneses: bravo estrago!
Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
Uns Mafamede, e os outros Santiago.
Os feridos com grita o Céu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros meios mortos se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam.
114
"Com esforço tamanho estrui e mata
O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
De alcançar tal vitória tão barata
Inda não bem contente o forte braço,
Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Que pelejando está co'o Mauritano.
115
"Já se ia o Sol ardente recolhendo
Para a casa de Tethys, e inclinado
Para o Ponente, o Véspero trazendo,
Estava o claro dia memorado,
Quando o poder do Mauro grande e horrendo
Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortandade, que a memória
Nunca no mundo viu tão grã vitória.
116
"Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co'o sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno asperíssimo contrário
Do Romano poder, de nascimento,
Quando tantos matou da ilustro Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma.
117
"E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro de Cocito,
Quando a santa Cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito:
Permissão e vingança foi celeste,
E não força de braço, ó nobre Tito,
Que assim dos Vates foi profetizado,
E depois por Jesu certificado.
(canto III, est. 107-117)
Grande momento épico, caro Amigo.
ResponderExcluirUm bom fim de semana.
Um abraço
O nosso Camões deixou-nos estas maravilhas que, infelizmente, muitos desconhecem.
ExcluirBom fim-de-semana, caro Amigo.
Um abraço
Que partilha Caro José, obrigado, preciso mesmo de ler com calma, pois tantas são as palavras que nos fogem no dia a dia e o significado das mesmas.
ResponderExcluirGrata e bom dia de Reis.
O nosso Camões deixou-nos estas maravilhas, que deviam ser mais divulgadas.
ExcluirTambém lhe desejo um bom dia de Reis, Cara Sofia.
Tão verdade José, daí um muito obrigado pela partilha. E obrigado pelos seus gentis votos.
ExcluirEu é que agradeço a visita.
ExcluirBom fim-de-semana, Sofia.
Que delícia este Camões épico, todo em oitavas, mas sempre usando a "medida
ResponderExcluirnova": o decassílabo heroico que também usou na sua obra lírica, em soneto.
Abraço, Cheia
Um mestre na poesia.
ExcluirBoa tarde, Maria João .
Um abraço
Sem dúvida, Cheia!
ExcluirOutro abraço
"Juntos os dous Afonsos finalmente"
ResponderExcluirAfonso XI de Castela e Afonso IV de Portugal
"Os feridos com grita o Céu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros meios mortos se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam."
Mais visual é impossível.
Muito se aprende na Sociedade Perfeita com Camões. :)
Um Sábado feliz, José.
Ninguém cantou a nossa História, como ele.
ExcluirTambém lhe desejo um feliz Sábado, Isabel.
Grata pela partilha, José! :))
ResponderExcluirBom fim-de-semana!
Muito obrigado!
ExcluirBom domingo, Zé!
Parabéns. O Amigo traz-nos "Os Lusíadas" para lermos.
ResponderExcluirInteressante, como as "guerras de antanho" nos parecem "aceitáveis"!
"...Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
Uns Mafamede, e os outros Santiago. (...)"
Excelente 2024!
Com os séculos perdem a cor do sangue. Mas, hoje são muito mais violentas e mortíferas, e infelizmente, ainda há quem as aceite.
ExcluirBom 2024!
Que bela partilha épica, José!
ResponderExcluirSentimos estar entre sarracenos, castelhanos, reis, rainhas, pastores, a batalha, a descrição vívida e a métrica irrepreensível, a harmonia, enaltecem a narrativa, lembrando-nos da maestria poética de Camões, a imortalizar, como nenhum outro, a História dos portugueses e de Portugal.
Continuação de bom fim-de-semana, boa noite, José!
Beijinhos
Camões merecia que os 500 anos do seu nascimento fossem comemorados, não com foguetes, mas nas escolas, nas universidades, por todo o lado.
ExcluirEra bom que todos conhecêssemos a valiosa obra do nosso maior poeta.
Bom domingo, Mafalda!
Beijinhos
Gosto muito dos Lusíadas.
ResponderExcluirUma magnífica epopeia bem descrita.
Dia feliz
Também gosto muito de Os Lusíadas, uma obra empolgante.
ExcluirBoa semana.