O Império
O Império – As teias que o Império teceu
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O Januário perdera o medo, já se sentia plenamente integrado naquela comunidade, queria aprender a língua, os costumes, para saber como proceder e ser admirado e respeitado, por todos
Em breve a sua Rosinha dar-lhe-ia um filho ou uma filha, queria ser um pai exemplar, tencionava conseguir um trabalho, um negócio, fosse o que fosse, tinha era de dar para terem uma vida digna e na cidade de Luanda
O que não sabia era que tinha infringido uma lei do Reino, que não permitia que brancos tivessem relações sexuais com pretas, nem pretos com brancas, para que não aparecessem mulatos
Uma lei de Filipe II de Portugal, publicada em 1620, por estarem a aparecer muitos mulatos e mulatas nas Ilhas de Cabo Verde
Ilhas que devem o seu nome ao facto dos portugueses terem dado esse nome a um cabo, na costa do Senegal, que servia de referência, quando queriam ir para essas ilhas, sabendo que estavam no mesmo paralelo a 500 km da costa.
Descobertas em 1462, as Ilhas de Cabo Verde tiveram um papel muito importante no desenvolvimento da escravatura, tornando-se numa grande plataforma para o comércio de escravos
Tendo sido o primeiro sítio onde foram utilizados escravos nas plantações de cana-de-açúcar, cultura do algodão e nas quintas de pecuária, chegavam a ter mais de 30 escravos, que asseguravam a ordenha das vacas, fazer os queijos, a manteiga e muitas outras tarefas
As Ilhas, e em primeiro lugar a de Santiago, foram povoadas por algarvios, madeirenses e nortenhos, por parte da Europa e também por escravos por parte de África
Esta mistura provocou o aparecimento de muitos mulatos e mulatas, que Filipe II quis conter com a sua lei de 1620 e, ainda, com o pedido de que enviassem mulheres brancas para Cabo Verde
Mas nem uma nem outra deram resultado, porque não conseguiram que brancos não tivessem relações sexuais com pretas, nem pretos com brancas
Como dizem na minha terra, a estopa ao pé do lume incendeia
Muitos comerciantes estabeleceram-se em Santiago, para se dedicarem ao comércio de escravos, faziam incursões à costa de África, mas precisavam de intérpretes, que tinha de saber mais que a língua, tinham de se saber movimentar nos meandros da escravatura, por isso nasceu a profissão de o língua, que não podia faltar, para ajudar a fazer os negócios
À ilha de Santiago chegavam muitos escravos, vindos do continente africano, para, depois serem enviados para as Antilhas, as Américas e a Europa, o que fazia com que a Ilha tivesse tido um grande desenvolvimento, que se manteve até os portugueses se estabelecerem na Guiné, que fez com que os comerciantes deixassem de utilizar a ilha de Santiago, e enviassem os escravos diretamente da costa Africana, para os destinos finais
A cativa de Camões
aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.
Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo
É força que viva.
Poema que terá sido inspirado num relacionamento amoroso, que o poeta terá tido com uma escrava, em Cabo Verde. Este poema está traduzido para Crioulo.
Continua
é um período triste da história da humanidade.
ResponderExcluirbeijinhos e obrigada pela partilha, José
Infelizmente, a história tem mais períodos tristes que alegres.
ExcluirFeliz dia, Ana.
Beijinhos
Viva Camões e a língua portuguesa.
ResponderExcluirGrande abraço
Eugénio
Muito obrigado pela visita.
ExcluirViva o nosso grande poeta e a nossa língua, que tantos povos une.
Um abraço
José
E um bocadinho de História não faz mal a ninguém...:))) abraço e dia tranquilo
ResponderExcluirÉ mais uma aventura, sem qualquer rigor histórico.
ExcluirBoa tarde e um abraço.
Grata pela partilha, José! :))
ResponderExcluirDia Feliz!
Muito obrigado!
ExcluirBoa tarde, Zé!
Mais uma excelente partilha, para recordar!
ResponderExcluirBeijinhos, José
Feliz Dia
Muito obrigado.
ExcluirFeliz tarde, Luísa.
Beijinhos
Nos jornais digladiam-se teses sobre a escravatura, e o José dá-nos escravatura sem teses. Aprecio bastante. Obrigada.
ResponderExcluirUm beijinho. Boa quinta-feira. :)
Fico contente pelo seu apreço. O que escrevo não tem rigor histórico. Mas, a história é feita de factos, e os factos não se podem inventar nem mudar. Temos de nos resignar com o que aconteceu, tentando não repetir, o que achamos que foi mal feito.
ExcluirBom resto de dia.
O amor contorna as leis, por não conhecer escravatura
ResponderExcluirTarde boa
O amor vence todas as barreiras.
ExcluirFeliz resto de dia.
Olá José!
ResponderExcluirOutro grande capítulo da nossa história, que a par da história da aparente integração do Januário, também conta, e canta através de Camões, parte da história do nosso povo, deveras triste das pessoas cativas, tão comovente nesta aventura que nos conta aqui no Império!
Quando refere esta lei de D.Filipe II, de 1620, e não sei se durante os dois séculos seguintes se mais tarde quando no século XIX foi abolido o terrível tráfico humano com comércio de escravos, ouvi por estes lados de Sesimbra, que os barcos negreiros das companhias que ainda continuaram a traficar humanos, para fugir às malhas da lei, desembarcavam as Pessoas, homens mulheres e crianças, acorrentados uns aos outros, nas praias da Serra da Arrábida e fariam o caminho a pé pela serra até Vila Nova de Azeitão, depois passavam pela fonte para dar de beber aos escravos no local que é hoje Pinhal de Negreiros e que há 40 anos atrás tinha uma fonte conhecida como Fonte de Negreiros, onde no verão, em função da seca e falta de abastecimento de água, cheguei a acompanhar muitas vezes a família para ir buscar água em garrafões de vidro revestidos a palha.
O papel da escravatura na cultura e história, bem como a nossa intervenção nessa triste época, está a fazer o seu interlúdio, será que vai apanhar a família de Januário e Rosinha de surpresa? Só o amar não tem amar(ras), é bem verdade.
Que o amor tudo vença!
Obrigada pela excelente partilha!
Dia feliz José!
Beijinhos!🐦
Beijinhos
Agradeço a sua partilha, sobre como eram tratados os escravos e os vestígios, que ao fim de tantos séculos, ainda perduram.
ExcluirA Rosinha, quando conheceu o Januário, já tinha perdido os irmãos e o pai, para a escravatura.
Boa tarde, Mafalda.
Beijinhos
É verdade José, vamos ficar para assistir de que lado fica o Januário, ou se tem opção, complicado em função do contexto e do Soba e a sua influência, ou antes, má influência!
ExcluirDia feliz, José!
Beijinhos!
Muitas vezes agimos sob má influência ou condicionados por termos de dar comer aos filhos.
ExcluirFeliz resto de dia, Mafalda.
Beijinhos
Verdade, José, ou pior, fez-me lembrar escolhas impossíveis como a retratada na "Escolha de Sofia" e levada ao cinema numa interpretação soberba de Meryl Streep, escravatura e falta de liberdade, campos de concentração e navios negreiros, tráfico e guerra, realidades que impõem as suas próprias escolhas, infelizmente.
ExcluirVou ficar curiosa com os próximos desenvolvimentos nas escolhas de Januário, isso é certo, José!
Beijinhos🐦
Adorei conhecer um pouco do império através da sua escrita. O José tem uma capacidade descritiva gráfica ;) Um abraço.
ResponderExcluirMuito obrigado!
ExcluirBom resto de dia, João.
Um abraço
Esperemos é que o Januário
ResponderExcluirnão seja também deportado
ou algo assim, de sicário, brinco...
Tempos do caraças, e pergunto eu
não seriamos também escravos por aqui
e sim que seriamos.
Parabéns à clareza das palavras José.
Bom fim de Semana desde já pra vocês.
Pode ser que ele se safe. Quanto à escravatura, infelizmente, continua, até aqui neste cantinho à beira mar plantado.
ExcluirBom resto de dia, para vocês, com saúde e alegria, João.
O Januário estará base da alteração de leis absurdas e, por outro lado, impossíveis de controlar.
ResponderExcluirEspero bem que esteja porque, com diz, há muitas leis absurdas, difíceis de cumprir e controlar. O mundo está a mudar, mas em muitos locais, muito devagar.
ExcluirFeliz resto de dia.
As histórias da humanidade tanto têm de bom como de mau. Fixemo-nos no bom, no amor que também existiu.
ResponderExcluirDe acordo! Devemos ter muito orgulho na nossa História e na nossa Língua, que une muitos povos.
ExcluirBoa noite , Isabel.
Amigo José, você viu os últimos episódios de "Visita Guiada"? Se viu, acho que fez muito bem. Saúde. E Paz, que tarda!
ResponderExcluirVi. Gosto muito de ver "Visita Guiada"
ExcluirBom junho, com saúde e alegria.
Lindíssimo este poema de Camões em redondilha menor...
ResponderExcluirE começa a nascer em mim uma certa curiosidade em saber como é que Januário e Rosinha vão enfrentar a punição por terem quebrado uma lei do reino, ainda que a desconhecessem.
Terei de esperar pelo próximo novelo das Teias que o Império Teceu :)
Bom Domingo e outro abraço, Cheia!
Entretanto o Rei morreu, e o Reino ainda lhes agradeceu por esta convivência entre a Europa e a África.
ExcluirFeliz resto de dia e um abraço, Maria!
Isso é que é um final feliz!
ExcluirObrigada, Cheia!
Outro abraço!
Grata por esta partilha em que o amor fala mais alto.
ResponderExcluirBeijinhos José
Bom dia, Manu!
ExcluirO amor move montanhas.
Bom feriado.
Beijinhos