O Império

O Império – As teias que o Império teceu


11


O Januário perdera o medo, já se sentia plenamente integrado naquela comunidade, queria aprender a língua, os costumes, para saber como proceder e ser admirado e respeitado, por todos


Em breve a sua Rosinha dar-lhe-ia um filho ou uma filha, queria ser um pai exemplar, tencionava conseguir um trabalho, um negócio, fosse o que fosse, tinha era de dar para terem uma vida digna e na cidade de Luanda


O que não sabia era que tinha infringido uma lei do Reino, que não permitia que brancos tivessem relações sexuais com pretas, nem pretos com brancas, para que não aparecessem mulatos


Uma lei de Filipe II de Portugal, publicada em 1620, por estarem a aparecer muitos mulatos e mulatas nas Ilhas de Cabo Verde


Ilhas que devem o seu nome ao facto dos portugueses terem dado esse nome a um cabo, na costa do Senegal, que servia de referência, quando queriam ir para essas ilhas, sabendo que estavam no mesmo paralelo a 500 km da costa.


Descobertas em 1462, as Ilhas de Cabo Verde tiveram um papel muito importante no desenvolvimento da escravatura, tornando-se numa grande plataforma para o comércio de escravos


Tendo sido o primeiro sítio onde foram utilizados escravos nas plantações de cana-de-açúcar, cultura do algodão e nas quintas de pecuária, chegavam a ter mais de 30 escravos, que asseguravam a ordenha das vacas, fazer os queijos, a manteiga e muitas outras tarefas


As Ilhas, e em primeiro lugar a de Santiago, foram povoadas por algarvios, madeirenses e nortenhos, por parte da Europa e também por escravos por parte de África


Esta mistura provocou o aparecimento de muitos mulatos e mulatas, que Filipe II quis conter com a sua lei de 1620 e, ainda, com o pedido de que enviassem mulheres brancas para Cabo Verde


Mas nem uma nem outra deram resultado, porque não conseguiram que brancos não tivessem relações sexuais com pretas, nem pretos com brancas


Como dizem na minha terra, a estopa ao pé do lume incendeia


Muitos comerciantes estabeleceram-se em Santiago, para se dedicarem ao comércio de escravos, faziam incursões à costa de África, mas precisavam de intérpretes, que tinha de saber mais que a língua, tinham de se saber movimentar nos meandros da escravatura, por isso nasceu a profissão de o língua, que não podia faltar, para ajudar a fazer os negócios


À ilha de Santiago chegavam muitos escravos, vindos do continente africano, para, depois serem enviados para as Antilhas, as Américas e a Europa, o que fazia com que a Ilha tivesse tido um grande desenvolvimento, que se manteve até os portugueses se estabelecerem na Guiné, que fez com que os comerciantes deixassem de utilizar a ilha de Santiago, e enviassem os escravos diretamente da costa Africana, para os destinos finais


 


A cativa de Camões


aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.


Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.


Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.


Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.


Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo


É força que viva.


 


Poema que terá sido inspirado num relacionamento amoroso, que o poeta terá tido com uma escrava, em Cabo Verde. Este poema está traduzido para Crioulo.


 


 


Continua


 


 

Comentários

  1. é um período triste da história da humanidade.
    beijinhos e obrigada pela partilha, José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Infelizmente, a história tem mais períodos tristes que alegres.
      Feliz dia, Ana.
      Beijinhos

      Excluir
  2. Viva Camões e a língua portuguesa.
    Grande abraço
    Eugénio

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pela visita.
      Viva o nosso grande poeta e a nossa língua, que tantos povos une.
      Um abraço
      José

      Excluir
  3. E um bocadinho de História não faz mal a ninguém...:))) abraço e dia tranquilo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É mais uma aventura, sem qualquer rigor histórico.
      Boa tarde e um abraço.

      Excluir
  4. Grata pela partilha, José! :))
    Dia Feliz!

    ResponderExcluir
  5. Mais uma excelente partilha, para recordar!

    Beijinhos, José
    Feliz Dia

    ResponderExcluir
  6. Nos jornais digladiam-se teses sobre a escravatura, e o José dá-nos escravatura sem teses. Aprecio bastante. Obrigada.
    Um beijinho. Boa quinta-feira. :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico contente pelo seu apreço. O que escrevo não tem rigor histórico. Mas, a história é feita de factos, e os factos não se podem inventar nem mudar. Temos de nos resignar com o que aconteceu, tentando não repetir, o que achamos que foi mal feito.

      Bom resto de dia.

      Excluir
  7. O amor contorna as leis, por não conhecer escravatura
    Tarde boa

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O amor vence todas as barreiras.
      Feliz resto de dia.

      Excluir
  8. Olá José!
    Outro grande capítulo da nossa história, que a par da história da aparente integração do Januário, também conta, e canta através de Camões, parte da história do nosso povo, deveras triste das pessoas cativas, tão comovente nesta aventura que nos conta aqui no Império!
    Quando refere esta lei de D.Filipe II, de 1620, e não sei se durante os dois séculos seguintes se mais tarde quando no século XIX foi abolido o terrível tráfico humano com comércio de escravos, ouvi por estes lados de Sesimbra, que os barcos negreiros das companhias que ainda continuaram a traficar humanos, para fugir às malhas da lei, desembarcavam as Pessoas, homens mulheres e crianças, acorrentados uns aos outros, nas praias da Serra da Arrábida e fariam o caminho a pé pela serra até Vila Nova de Azeitão, depois passavam pela fonte para dar de beber aos escravos no local que é hoje Pinhal de Negreiros e que há 40 anos atrás tinha uma fonte conhecida como Fonte de Negreiros, onde no verão, em função da seca e falta de abastecimento de água, cheguei a acompanhar muitas vezes a família para ir buscar água em garrafões de vidro revestidos a palha.
    O papel da escravatura na cultura e história, bem como a nossa intervenção nessa triste época, está a fazer o seu interlúdio, será que vai apanhar a família de Januário e Rosinha de surpresa? Só o amar não tem amar(ras), é bem verdade.
    Que o amor tudo vença!
    Obrigada pela excelente partilha!
    Dia feliz José!
    Beijinhos!🐦
    Beijinhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agradeço a sua partilha, sobre como eram tratados os escravos e os vestígios, que ao fim de tantos séculos, ainda perduram.
      A Rosinha, quando conheceu o Januário, já tinha perdido os irmãos e o pai, para a escravatura.
      Boa tarde, Mafalda.
      Beijinhos

      Excluir
    2. É verdade José, vamos ficar para assistir de que lado fica o Januário, ou se tem opção, complicado em função do contexto e do Soba e a sua influência, ou antes, má influência!
      Dia feliz, José!
      Beijinhos!

      Excluir
    3. Muitas vezes agimos sob má influência ou condicionados por termos de dar comer aos filhos.
      Feliz resto de dia, Mafalda.
      Beijinhos

      Excluir
    4. Verdade, José, ou pior, fez-me lembrar escolhas impossíveis como a retratada na "Escolha de Sofia" e levada ao cinema numa interpretação soberba de Meryl Streep, escravatura e falta de liberdade, campos de concentração e navios negreiros, tráfico e guerra, realidades que impõem as suas próprias escolhas, infelizmente.
      Vou ficar curiosa com os próximos desenvolvimentos nas escolhas de Januário, isso é certo, José!
      Beijinhos🐦

      Excluir
  9. Adorei conhecer um pouco do império através da sua escrita. O José tem uma capacidade descritiva gráfica ;) Um abraço.

    ResponderExcluir
  10. Esperemos é que o Januário
    não seja também deportado
    ou algo assim, de sicário, brinco...
    Tempos do caraças, e pergunto eu
    não seriamos também escravos por aqui
    e sim que seriamos.
    Parabéns à clareza das palavras José.
    Bom fim de Semana desde já pra vocês.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode ser que ele se safe. Quanto à escravatura, infelizmente, continua, até aqui neste cantinho à beira mar plantado.
      Bom resto de dia, para vocês, com saúde e alegria, João.

      Excluir
  11. O Januário estará base da alteração de leis absurdas e, por outro lado, impossíveis de controlar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero bem que esteja porque, com diz, há muitas leis absurdas, difíceis de cumprir e controlar. O mundo está a mudar, mas em muitos locais, muito devagar.
      Feliz resto de dia.

      Excluir
  12. As histórias da humanidade tanto têm de bom como de mau. Fixemo-nos no bom, no amor que também existiu.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De acordo! Devemos ter muito orgulho na nossa História e na nossa Língua, que une muitos povos.
      Boa noite , Isabel.

      Excluir
  13. Amigo José, você viu os últimos episódios de "Visita Guiada"? Se viu, acho que fez muito bem. Saúde. E Paz, que tarda!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vi. Gosto muito de ver "Visita Guiada"
      Bom junho, com saúde e alegria.

      Excluir
  14. Lindíssimo este poema de Camões em redondilha menor...

    E começa a nascer em mim uma certa curiosidade em saber como é que Januário e Rosinha vão enfrentar a punição por terem quebrado uma lei do reino, ainda que a desconhecessem.
    Terei de esperar pelo próximo novelo das Teias que o Império Teceu :)

    Bom Domingo e outro abraço, Cheia!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Entretanto o Rei morreu, e o Reino ainda lhes agradeceu por esta convivência entre a Europa e a África.
      Feliz resto de dia e um abraço, Maria!

      Excluir
    2. Isso é que é um final feliz!

      Obrigada, Cheia!

      Outro abraço!

      Excluir
  15. Grata por esta partilha em que o amor fala mais alto.
    Beijinhos José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia, Manu!
      O amor move montanhas.
      Bom feriado.
      Beijinhos

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Lua Cheia

A candeia!