A sedutora

Lisboa! A sedutora


20


 


Estavas, Linda Inês, posta em sossego,


De teus anos colhendo doce fruito


Naquele engano da alma, ledo e cego,


Que a Fortuna não deixa durar muito,


Nos saudosos campos do Mondego,


De teus fermosos olhos nunca enxuito,


Aos montes ensinando e às ervinhas


O nome que no peito escrito tinhas. ( canto III, estrofe 120 de os Lusíadas)


 


Era a declamar estes versos, que ele os acordava


E, ficavam tão empolgados, que depois de saírem da aula, ainda iam para o Granada, um café ao lado da Escola, declamar mais versos


Os bons professores sabem como acordar, entusiasmar, interessar, motivar os alunos


Mesmo com os bons professores, não foi possível fazer o segundo ciclo liceal num ano (terceiro, quarto e quinto anos)


Candidatou-se a exame, mas reprovou. Para o ano escolar seguinte voltou a matricular-se, mas já não concluiu o ano letivo, foi chamado para cumprir o serviço militar obrigatório.


A esposa voltou para a casa dos pais, e não queria voltar a viver em Lisboa


Na terceira semana da recruta, num exercício, rachou o calcanhar direito


No fim desse ano nasceu a filha mais velha, no dia do seu primeiro mês, não a pode ver, fez-lhe os primeiros versos


Esteve cerca de um ano no depósito de indisponíveis, na Graça, em Lisboa


Foi presente a uma junta médica, que o declarou apto para todo o serviço militar


Voltou outra vez para as Caldas da Rainha, para fazer a recruta, como instruendo do curso de sargentos milicianos


  Acabada a recruta, foi colocado na Escola Pratica de Cavalaria, em Santarém, onde concluiu o curso de sargentos miliciano, tendo sido graduado no posto de primeiro-cabo miliciano


Em Janeiro de 1969, foi colocado em Lisboa, no Regimento de Cavalaria nº7, onde deu instrução aos soldados, que foram com ele para Angola.


Foi obrigado a recensear-se, havia eleições Presidenciais, quando se realizaram já estava em Angola, e como não teve oportunidade de votar, talvez alguém tenha votado por ele


Calçada da Ajuda acima e abaixo, até Monsanto, onde eram treinadas as táticas de guerra, no Regimento de Lanceiros, 2 tinham à sua disposição uma pista de obstáculos, para se prepararem, para o que em Angola os esperava. Fizeram tiro com balas reais na Serra da Carregueira


Os derradeiros preparativos foram efetuados na Fonte da Telha e na Serra da Arrábida


Em Setúbal, bonita princesa do Sado, na sua avenida Luísa Todi, desfilaram, para que todos se despedissem dos jovens, e vissem como estavam saudáveis, forçados a irem para mais uma guerra sem sentido, como são todas as guerras


As pessoas aglomeram-se nos passeios, para dizerem adeus e desejarem boa sorte, às duas centenas de homens, que nunca mais voltariam a ver, todos, porque a alguns esperava-os a má sorte


Nas vésperas do dia de embarque, foi graduado no posto de furriel miliciano, o que fez com que a esposa recebesse quase 2.800 escudos, referentes aos dois terços do seu vencimento, o máximo que podia ser recebido na Metrópole


Juntaram quase 100.000 escudos, que serviram para remodelar a casinha de 50 m2, que não tinha casa de banho, nem água canalizada, nem eletricidade


A ligação da eletricidade, do exterior ao interior da casa, foi paga com os últimos 7.000 escudos, que recebeu como militar


Valeu a pena ter estudado, vale sempre a pena estudar, mais que não seja, para de outro modo, o mundo apreciar


Em Angola teve um aumento de vencimento, a que só os sargentos e oficias tiveram direito, uma vergonha revoltante, que só poderia ter acontecido num regime ditatorial


Os soldados, com toda a razão, ficaram revoltados, chegando a dizer aos graduados que fossem sozinhos para o mato, mas ninguém corrigiu a injustiça


 Perdeu o Tejo, Lisboa, a Serra de Sintra: tudo, o Atlântico era a nova morada  


Ia fazer 24 anos, fez em Angola os 24, 25 e 26 anos. A tropa roubou-lhe 4 anos de convívio com a família. Felizmente, não lhe roubou a vida, o que aconteceu a muitos


Uma guerra que poderia ter sido evitada, como acontece com todas as guerras, que só servem para causar destruição, dor e morte.


Continua


 

Comentários

  1. Grata pela partilha, José! :))
    Dia Feliz!

    ResponderExcluir
  2. Como me lembro de colegas meus a irem para o Ultramar ... tão desnecessário
    Gosto destas crónicas, José

    Beijinhos
    Feliz Dia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando fui para Angola, o barco (Vera Cruz) parou aí no Funchal, para embarcarem os militares da Madeira, e no regresso também.
      Feliz resto de dia, Luísa!
      Beijinhos

      Excluir
  3. E tanta gente por aí a dizer que antigamente é que era bom...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Era uma maravilha, nem se podia dizer, que não era!

      Boa tarde.

      Excluir
  4. Que posso dizer às boas memórias José?

    Saúde da boa, bela tarde pra vocês

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado, João!
      Bom resto de dia para vocês, com saúde e alegria.

      Excluir
  5. Belas memórias.
    Também passou aqui pelas Caldas. Felizmente voltou são e salvo do Ultramar.
    Grata pela partilha.
    Beijinhos José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Passei por aí duas vezes, como não conclui a primeira recruta, por ter rachado o osso do calcanhar direito, passado um ano voltei, e correu tudo bem.
      Feliz noite, Manu!
      Beijinhos

      Excluir
  6. Gosto muito de ler estas memórias!
    (Provavelmente já disse isto, mas se é verdade, porque não repetir?)
    Uma noite muito boa!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelas amáveis palavras.
      Desejo-lhe uma feliz noite.

      Excluir
  7. Gostei desta interessante narrativa e do poema inicial que a introduz. Saúde e Paz, que tanta falta faz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Uma das estrofes mais bonitas de os Lusíadas!
      Bom dia e bom fim-de-semana, com saúde e alegria.

      Excluir
  8. Já tinha saudades de ler as suas crónicas

    ResponderExcluir
  9. Sentie-me dentro do post tive familiares próximos que passaram por essa guerra, sem sentido, como todas as guerras.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foram 13 anos, muitos mortos, estropiádos, tanto dinheiro gasto, roubado, que tanto contribuiu para o nosso atraso.
      Boa semana.

      Excluir
  10. Tanto sofrimento para quê... mas claro não se pode agora dizer que os combates portugueses de Portugal que foram obrigados a ir de cá não sofreram. Somos os colonizadores. Guerra sem justificação.
    Felizmente que voltou são e salvo (sequelas ficam sempre do campo de batalha, esquecem-se para não magoar ainda mais).
    Dia feliz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sofreram e muito! Não sei como poderão dizer que não sofreram. Tive sorte, a muitos calhou-lhes a morte, outros ficarama traumatizados para toda a vida.
      Feliz resto de dia.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Lua Cheia

A candeia!