A sedutora
Lisboa! A sedutora
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Estavas, Linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas. ( canto III, estrofe 120 de os Lusíadas)
Era a declamar estes versos, que ele os acordava
E, ficavam tão empolgados, que depois de saírem da aula, ainda iam para o Granada, um café ao lado da Escola, declamar mais versos
Os bons professores sabem como acordar, entusiasmar, interessar, motivar os alunos
Mesmo com os bons professores, não foi possível fazer o segundo ciclo liceal num ano (terceiro, quarto e quinto anos)
Candidatou-se a exame, mas reprovou. Para o ano escolar seguinte voltou a matricular-se, mas já não concluiu o ano letivo, foi chamado para cumprir o serviço militar obrigatório.
A esposa voltou para a casa dos pais, e não queria voltar a viver em Lisboa
Na terceira semana da recruta, num exercício, rachou o calcanhar direito
No fim desse ano nasceu a filha mais velha, no dia do seu primeiro mês, não a pode ver, fez-lhe os primeiros versos
Esteve cerca de um ano no depósito de indisponíveis, na Graça, em Lisboa
Foi presente a uma junta médica, que o declarou apto para todo o serviço militar
Voltou outra vez para as Caldas da Rainha, para fazer a recruta, como instruendo do curso de sargentos milicianos
Acabada a recruta, foi colocado na Escola Pratica de Cavalaria, em Santarém, onde concluiu o curso de sargentos miliciano, tendo sido graduado no posto de primeiro-cabo miliciano
Em Janeiro de 1969, foi colocado em Lisboa, no Regimento de Cavalaria nº7, onde deu instrução aos soldados, que foram com ele para Angola.
Foi obrigado a recensear-se, havia eleições Presidenciais, quando se realizaram já estava em Angola, e como não teve oportunidade de votar, talvez alguém tenha votado por ele
Calçada da Ajuda acima e abaixo, até Monsanto, onde eram treinadas as táticas de guerra, no Regimento de Lanceiros, 2 tinham à sua disposição uma pista de obstáculos, para se prepararem, para o que em Angola os esperava. Fizeram tiro com balas reais na Serra da Carregueira
Os derradeiros preparativos foram efetuados na Fonte da Telha e na Serra da Arrábida
Em Setúbal, bonita princesa do Sado, na sua avenida Luísa Todi, desfilaram, para que todos se despedissem dos jovens, e vissem como estavam saudáveis, forçados a irem para mais uma guerra sem sentido, como são todas as guerras
As pessoas aglomeram-se nos passeios, para dizerem adeus e desejarem boa sorte, às duas centenas de homens, que nunca mais voltariam a ver, todos, porque a alguns esperava-os a má sorte
Nas vésperas do dia de embarque, foi graduado no posto de furriel miliciano, o que fez com que a esposa recebesse quase 2.800 escudos, referentes aos dois terços do seu vencimento, o máximo que podia ser recebido na Metrópole
Juntaram quase 100.000 escudos, que serviram para remodelar a casinha de 50 m2, que não tinha casa de banho, nem água canalizada, nem eletricidade
A ligação da eletricidade, do exterior ao interior da casa, foi paga com os últimos 7.000 escudos, que recebeu como militar
Valeu a pena ter estudado, vale sempre a pena estudar, mais que não seja, para de outro modo, o mundo apreciar
Em Angola teve um aumento de vencimento, a que só os sargentos e oficias tiveram direito, uma vergonha revoltante, que só poderia ter acontecido num regime ditatorial
Os soldados, com toda a razão, ficaram revoltados, chegando a dizer aos graduados que fossem sozinhos para o mato, mas ninguém corrigiu a injustiça
Perdeu o Tejo, Lisboa, a Serra de Sintra: tudo, o Atlântico era a nova morada
Ia fazer 24 anos, fez em Angola os 24, 25 e 26 anos. A tropa roubou-lhe 4 anos de convívio com a família. Felizmente, não lhe roubou a vida, o que aconteceu a muitos
Uma guerra que poderia ter sido evitada, como acontece com todas as guerras, que só servem para causar destruição, dor e morte.
Continua
Grata pela partilha, José! :))
ResponderExcluirDia Feliz!
Muito obrigado!
ExcluirFeliz resto de dai , Zé!
Como me lembro de colegas meus a irem para o Ultramar ... tão desnecessário
ResponderExcluirGosto destas crónicas, José
Beijinhos
Feliz Dia
Quando fui para Angola, o barco (Vera Cruz) parou aí no Funchal, para embarcarem os militares da Madeira, e no regresso também.
ExcluirFeliz resto de dia, Luísa!
Beijinhos
E tanta gente por aí a dizer que antigamente é que era bom...
ResponderExcluirEra uma maravilha, nem se podia dizer, que não era!
ExcluirBoa tarde.
Que posso dizer às boas memórias José?
ResponderExcluirSaúde da boa, bela tarde pra vocês
Muito obrigado, João!
ExcluirBom resto de dia para vocês, com saúde e alegria.
Belas memórias.
ResponderExcluirTambém passou aqui pelas Caldas. Felizmente voltou são e salvo do Ultramar.
Grata pela partilha.
Beijinhos José
Passei por aí duas vezes, como não conclui a primeira recruta, por ter rachado o osso do calcanhar direito, passado um ano voltei, e correu tudo bem.
ExcluirFeliz noite, Manu!
Beijinhos
beijinhos e tudo de bom
ResponderExcluirMuito obrigado, Ana!
ExcluirFeliz noite.
Beijinhos
Gosto muito de ler estas memórias!
ResponderExcluir(Provavelmente já disse isto, mas se é verdade, porque não repetir?)
Uma noite muito boa!
Muito obrigado pelas amáveis palavras.
ExcluirDesejo-lhe uma feliz noite.
Gostei desta interessante narrativa e do poema inicial que a introduz. Saúde e Paz, que tanta falta faz.
ResponderExcluirUma das estrofes mais bonitas de os Lusíadas!
ExcluirBom dia e bom fim-de-semana, com saúde e alegria.
Já tinha saudades de ler as suas crónicas
ResponderExcluirMuito obrigado!
ExcluirBom domingo.
Sentie-me dentro do post tive familiares próximos que passaram por essa guerra, sem sentido, como todas as guerras.
ResponderExcluirForam 13 anos, muitos mortos, estropiádos, tanto dinheiro gasto, roubado, que tanto contribuiu para o nosso atraso.
ExcluirBoa semana.
Tanto sofrimento para quê... mas claro não se pode agora dizer que os combates portugueses de Portugal que foram obrigados a ir de cá não sofreram. Somos os colonizadores. Guerra sem justificação.
ResponderExcluirFelizmente que voltou são e salvo (sequelas ficam sempre do campo de batalha, esquecem-se para não magoar ainda mais).
Dia feliz.
Sofreram e muito! Não sei como poderão dizer que não sofreram. Tive sorte, a muitos calhou-lhes a morte, outros ficarama traumatizados para toda a vida.
ExcluirFeliz resto de dia.