A sedutora

Lisboa! A sedutora


(2)


Lisboa fervilhava de criados e criadas, enquanto as províncias iam ficando sem jovens, que já não se sujeitavam aos trabalhos do campo, onde labutavam os pais e os avós


Na grande cidade poucas mulheres trabalhavam, só as mais pobres, as outras, competia ao marido assegurar o rendimento, para o sustendo da casa, incluindo o contrato de criada ou criadas


Nos bairros chiques, as casas tinham porteira, e nas traseiras, as escadas em ferro (as escadas de serviço) por onde leiteiros, carvoeiros, padeiros, merceeiros ……….. transportavam, diariamente, os bens de primeira necessidade de que as  famílias precisavam


Às porteiras competia a limpeza da entrada e escada interior, algumas tinham as chaves de todos os condomínios para que, caso os condóminos se esquecessem das suas, elas lhe abrissem a porta da casa


Na rua da Imprensa Nacional, uma porteira tinha muito brio em que a escada estivesse, sempre, a brilhar: ela lavava-a e dava-lhe cera, o marido puxava o brilho, viviam felizes por único filho andar no sétimo ano do Liceu, prestes a entrar para a Universidade, o que não era habitual, os filhos dos pobres chegarem ao ensino superior


Como sempre, há bons e maus patrões: os que respeitavam os rapazes e as raparigas, tratados com dignidade, como dizia o contrato verbal, mesa, cama e roupa lavada


Mas também havia quem lhes batesse, quem abusasse das raparigas, comer e cama indignos


Criadas e criados estavam numa situação muito fragilizada, sem familiares por perto, entregues à sua sorte, na grande cidade, dependentes da mesa e da cama, quase impossibilitados de dizerem não, sem horário de trabalho, nem feriados, nem férias


Nos estabelecimentos estavam afixados os horários de trabalho, mas era só para inglês ver


De anos a anos apareciam os fiscais do trabalho, para verificarem o horário de trabalho, se os empregados estavam inscritos na Caixa de Previdência, e no caso dos que trabalhavam com produtos alimentares era obrigatório ter cartão de sanidade


Para além dos criados e criadas, existiam os vendedores ou compradores com os seus pregões


A mulher da fava-rica:“ fava-rica, dos figos: “quem quer figos, quem quer almoçar”, a varina: “sardinha vivinha, da costa”, o homem do ferro velho: “quem tem trapos, jornais ou garrafas para vender”, e sem pregões, as lavadeiras de Caneças, que todas as semanas entregavam a roupa lavada e levavam a suja, e os vendedores de água de Caneças, em bilhas de barro


Não faltavam os peditórios para os Bombeiros Voluntários, para os Invisuais e para os Inválidos do Comércio: colocavam um carro em cima de uma camioneta, sem tapais, e vários homens abordavam os transeuntes e os lojistas, para lhes venderem as rifas, para o sorteio do carro


Nos anos 60 ter um carro era o sonho de muita gente, que só o conseguiria num sorteio ou na participação de um concurso


Somos muito solidários, mas com engodo, ainda, muito mais!


Continua


 

Comentários

  1. Lisboa de sins e nãos
    brejeira de sempre
    e lavar de mãos, omnipresente
    como em todas as cidades José

    Bom e belo dia com alegria pra vocês
    e à clareza do que li, os meus parabéns.

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    1. Bom dia, João!
      Não há flores sem espinhos.
      Um bom dia para vocês, com saúde e alegria.

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    2. Bom fim de Semana com alegria
      embora a manhã seja fria
      neste bom dia

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    3. Bom dia, João!
      Também vos desejo um bom dia e um bom fim-de-semana, com saúde e alegria.

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  2. Respostas
    1. Muito obrigado!
      Bom dia e feliz semana, Ana!
      Beijinhos

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  3. Parabéns José...isto é História. Quem diria que tão pouco tempo passou sobre esses acontecimentos, e hoje pouquíssimos os recordam.abraço e bom fim-de-semana

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  4. Haja quem conte a vida como ela foi.
    Obrigada, José. Um dia bom.

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  5. Haja quem conte a vida com ela foi.
    Obrigada. José. Um dia bom.

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    1. Muito obrigado.
      Boa tarde, Isabel.

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    2. Desculpe-me a duplicação. Julguei não ter passado o primeiro.

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    3. Não tem de pedir desculpa, acontece.
      Bom resto de dia, Isabel

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  6. Em jovem, trabalhando, sempre tive cartão de sanidade. Outros tempos.
    .
    Cumprimentos cordiais e poéticos
    .

    .

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    1. Sem dúvida! Tempos muito diferentes. Também tive cartão de sanidade, dos 12 aos 16 anos, enquanto trabalhei com produtos alimentares.
      Boa tarde.
      Um abraço

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  7. Aqui Lisboa bem contada ... lembro-me de situações destas, até mesmo aqui no Funchal

    Beijinhos, José
    Feliz Dia

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  8. Excelente descrição da Lisboa antiga! Uma partilha escrita com tamanha vivacidade que me transportou até essas vivências que não tive mas que conheço de outras leituras e reportagens que vi.
    Obrigada José e um bom dia!

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    1. Uma escrita onde tento contar o que vivi e vi.
      Eu é que agradeço as amáveis palavras.
      Boa tarde, Ana!

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  9. Muito interessante, esta descrição de Lisboa noutros tempos! Espero que prossiga, contando como se mantém sedutora, até aos nossos dias
    Uma boa tarde

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  10. Um retrato perspicaz de uma Lisboa de um certo tempo.

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    1. Uma Lisboa que está em constantes alterações, como de resto acontece com quase tudo.
      Boa tarde, com saúde e alegria.

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  11. Que importante foi a conquista de direitos das empregadas domésticas! Gostei muito de ler todo este texto, José! Uma excelente parte 2.

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  12. Boa noite José
    Obrigada pela partilha. Fico curiosa!
    Feliz noite
    Bjs

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  13. E assim se mantém viva a memória de um povo

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    1. Para que os mais novos tenham uma ideia da evolução a que temos assistido.
      Bom fim-de-semana.

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  14. E agora o mais difícil é manter um carro!
    Bom fim de semana! Abraço.

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  15. Nunca me canso dos teus poemas à nossa Lisboa!
    Que encanto, amigo José!
    Beijinhos, uma boa semana!

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  16. Excelente partilha, José!
    Dia Feliz!

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  17. Tempos passados, boas memórias e fava rica!
    Adorei ler.
    Tudo de bom, caro amigo.
    Bjs

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