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Quingentésimo ano (32)

O retrato de Vénus   Os crespos fios d'ouro se esparziam Pelo colo, que a neve escurecia; Andando, as lácteas tetas lhe tremiam, Com quem Amor brincava, e não se via; Da alva petrina flamas lhe saíam, Onde o Menino as almas acendia; Pelas lisas colunas lhe trepavam Desejos, que como hera se enrolavam. C'um delgado sendal as partes cobre, De quem vergonha é natural reparo, Porém nem tudo esconde, nem descobre, O véu, dos roxos lírios pouco avaro; Mas, para que o desejo acenda o dobre, Lhe põe diante aquele objeto raro. Já se sentem no Céu, por toda a parte, Ciúmes em Vulcano, amor em Marte. —   Os Lusíadas , Canto II  

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 46 O Jeremias e a Leopoldina tinham começado a namorar, pouco depois do Januário ter  embarcado para o Brasil, planeavam casar-se assim que ele regressasse, mas ainda  não tinha tido coragem de lhe pedir a filha, em casamento Muitos rapazes não se sentiam muito à vontade, para pedirem as namoradas em casamento, como se sabe, os pais são exigentes com os pretendentes das suas filhas, para eles, não há rapazes que mereçam as suas princesas São capazes de todos os sacrifícios pela família: emigram, deixam a mulher e os filhos, vivem o sonho de lhes dar uma vida melhor, se necessário for, trabalham dia e noite Quando lhes aparece, pela frente, um magarefe, que não conhecem de lado nenhum, ficam em pânico, não querendo de maneira nenhuma, abrir mão das suas filhas, que lhe deram tanto trabalho a criar Temem que sejam mal tratadas, sabem que a violência doméstica é uma chaga incurável Esquecem-se que, também, já tiveram de arranjar coragem para enfr...

Quingentésimo ano (31)

Religião   Desce do Céu imenso, Deus benino, Para encarnar na Virgem soberana. "Porque desce divino em cousa humana?" "Para subir o humano a ser Divino". "Pois como vem tão pobre e tão minino, Rendendo-se ao poder da mão tirana?" "Porque vem receber morte inumana Para pagar de Adão o desatino". "Pois como? Adão e Eva o fruto comem Que por seu próprio Deus lhe foi vedado?" "Si, por que o próprio ser de deuses tomem". "E por essa razão foi humanado?" "Si. Porque foi com causa decretado, Se o homem quis ser deus, que Deus seja homem   Luís de Camões

Quingentésimo ano (30)

As armas e os barões assinalados Que, da ocidental praia lusitana, Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da   Taprobana , Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram. ..... Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte —   Os Lusíadas , Canto I  

Quingentésimo ano (29)

Olhai que há tanto tempo que, cantando O vosso Tejo e os vossos lusitanos, A Fortuna me traz peregrinando, Novos trabalhos vendo e novos danos: ..... A troco dos descansos que esperava, Das capelas de louro que me honrassem, Trabalhos nunca usados me inventaram, Com que em tão duro estado me deitaram ..... Vede, Ninfas, que engenhos de senhores O vosso Tejo cria valerosos, Que assim sabem prezar, com tais favores, A quem os faz, cantando, gloriosos!" —   Os Lusíadas , Canto VII

Quingentésimo ano (28)

Amor é um brado afeito Que Deus no Mundo pôs e a Natureza Para aumentar as coisas que criou. De amor está sujeito Tudo quanto possui a redondeza; Nada sem este efeito se gerou. Por ele conservou A causa principal o Mundo amado Donde o pai famulento foi deitado. As coisas ele as ata e as conforma Com O Mundo,e reforma A matéria. Quem há que não o veja? Quanto meu mal deseja, sempre forma. Luís de Camões

Quingentésimo ano (27)

Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho, logo, mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está ligada. Mas esta linda e pura semideia, Que, como um acidente em seu sujeito, Assim como a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia: E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma Luís de Camões