Quingentésimo ano (348)

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Trovas
que Luís de Camões fez, na Índia,
a certos fidalgos a quem convidara para cear



A primeira iguaria foi posta
a Casco de Ataíde. entre dous pratos,
e diria assim:
Se não quereis padecer
üa ou duas horas tristes,
sabeis que haveis de fazer?
Volveros por do venistes,
que aqui não há que comer.
E posto que aqui leiais
trovinha que vos enleia,
corrido não estejais;
porque por mais que corrais
não heis-de alcançar a ceia.
A segunda, a D. Franeisco d'Almeida:
Heliogábalo zombava
das pessoas convidadas,
e de sorte as enganava
que as iguarias que dava
vinham nos pratos pintadas.
Não temais tal travessura,
pois já não pode ser nova;
que a ceia está mui segura
de vos não vir em pintura,


mas há-de vir toda em trova.
A terecira, a Heitor da Silveira:
Ceia não a papareis;
contudo, porque não minta,
para beber achareis,
não Caparica, mas tinta,
e mil cousas que papeis.
E vós torceis o focinho,
com esta anfibologia?
Pois sabei que a Poesia
vos dá aqui tinta por vinho,
e papéis por iguaria.
A quarta foi posta a João Lopes Leitão,
a quem o Autor mandou um moto,
que vai adiante, sobre uma peça
de cacha, que este mandas ü a da Dama:
Porque os que vos convidaram
vosso estâmago não danem,
por justa causa ordenaram


se trovas vos enganaram,
que trovas vos desenganem.
Vós tereis isto por tacha,
converter tudo em trovar;
pois se me virdes zombar,
não cuideis, Senhor, que é cacha,
que aqui não há cachar.
Finge que, responde João Lopes Leitão:
Pesar ora não de São!
Eu juro pelo Céu bento
se de comer me não dão,
que eu não sou camaleão
que me hei-de manter do vento.
Finge que responde o Autor:
Senhor, não vos agasteis,
porque Deus vos proverá;
e se mais saber quereis,
nas costas deste lereis
as iguarias que há.
Vira o papel, que dizia assi:
Tendes nem migalha assada,
cousa ne~nua de molho,
e nada feito em empada,
e vento de tigelada,
picar no dente em remalho.
De fumo tendes tassalhos


aves da pena que sente
quem de fome anda doente;
bocejar de vinho e de alhos,
manjar em branco excelente.
A quinta e derradeira iguaria foi posta
a Francisco de Melo e dizia:
De um homem que teve o ceptro
da veia maravilhosa,
não foi cousa duvidosa
que se lhe tornava em metro
o que ia a dizer em prosa.
De mim vos quero apostar
que faça cousas mais novas
de quanto podeis cuidar:
esta ceia, que é manjar,
vos faça na boca em trovas.


 

Comentários

  1. Bom dia, Cheia!

    Que delícia de trovas :)


    Que desse manjar etéreo
    Se faça, então, boa prova
    E se o recheio é mistério,
    A crosta, essa é toda Trova!

    Bom fim-de.semana e um abraço

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    1. Uma ementa oriental, com 5 iguarias.

      Boa noite e bom fim-de-semana, Maria João.

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    2. Sim, cinco pitéus de primeira água :)

      Boa noite e bom fim-de-semana, Cheia

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  2. Trovas e pintura, o convite para o alimento da alma.
    Bom dia, José.

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    Respostas
    1. Uma ementa oriental, com 5 iguarias.

      Bom fim-de-semana, Isabel.

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  3. Papéis e trovas, mais tintas / Não há manjar mais sublime / E inda qu'assim nos mintas / Teu estro tudo redime!
    Feliz fim de semana!

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    Respostas
    1. Uma bonita quadra, para cinco iguarias orientais, dedicadas a cinco homens ilustres.

      Bom fim-de-semana!

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  4. Levado da breca o nosso Luis
    Bom e belo sábado em toda a harmonia pra vocês, bom dia José.

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  5. Grata pela partilha, José! :))
    Boa noite e Boa semana!

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