Quingentésimo (349)
034.
Glosa
a este moto alheio:
Vejo-a n'alma pintada
quando me pede o desejo
o natural que não vejo.
Se só no ver puramente
me transformei no que vi,
de vista tão excelente
mal poderei ser ausente
enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
a traz tão bem debuxada,
e a memória tanto voa
que se a não vejo em pessoa,
vejo-a n'alma pintada.
O desejo, que se estende
ao que menos se concede,
sobre vós pede e pretende,
como o doente que pede
o que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência não vejo,
tenho piadade e pejo
de me ver tão pobre estar,
que então não tenho que dar
quando me pede o desejo,
Como aquele que cegou
é cousa vista e notória
que a natureza ordenou
que se lhe dobre em memória
o que em vista lhe faltou;
assi a mim, que não rejo
os olhos ao que desejo,
na memória e na firmeza
me concede a natureza
o natural que não vejo.
Bom dia, Cheia!
ResponderExcluirLinda, linda, esta glosa de Camões!
Um abraço grato por mais esta partilha.
Fico contente por estar a gostar destas obras do Mestre.
ExcluirBoa noite, Maria João!
Um abraço.
Diríamos a Camões: desafio ganho soberanamente.
ResponderExcluirBom fim de semana caro Amigo.
Um abraço
Empenhou-se para conquistar a admiração da Nação.
ExcluirBom domingo e boa semana, caro Amigo.
Um abraço.
A memória para lá da visão na ausência repõe a natureza.
ResponderExcluirBom Sábado.
A natureza dobra memória, quando falta a visão.
ExcluirBoa noite e bom domingo, Isabel.
Grata pela partilha, José! :))
ResponderExcluirBoa noite e Boa semana!
Muito obrigado!
ExcluirBoa tarde, Zé!