Quingentésimo (266)

51.
Glosa
a este mato alheio:
Campos bem-aventurados,
tornai-vos agora tristes,
que os dias em que me vistes
alegre são já passados.
Campos cheios de prazer,
vós, que estais reverdecendo,
já me alegrei com vos ver;
agora venho a temer
que entristeçais em me vendo.
E, pois a vista alegrais
dos olhos desesperados,
não quero que me vejais,
para que sempre sejais
campos bem-aventurados.
Porém, se por acidente,
vos pesar de meu tormento,
sabereis que Amor consente
que tudo me descontente,
senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
que já nos meus olhos vistes
mais alegrias que medos,
se mos quereis fazer ledos,
tornai-vos agora tristes.
Já me vistes ledo ser,
mas despois que o falso Amor
tão triste me fez viver, .
ledos folgo de vos ver,
porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
de minha dor me sentistes,
julgai quanto mais desejo
as horas que vos não vejo
que os dias em que me vistes.
O tempo, que é desigual,
de secos, verdes vos tem;
porque em vosso natural
se muda o mal para o bem,
mas o meu para mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
pelos tempos diferentes
que de Amor me foram dados,
tristes, aqui são presentes,
alegres, já são passados.

Comentários

  1. Momentos difíceis os do nosso Luis
    Belo Domingo José.

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    1. O Luís teve muitos azares.

      Bom domingo e boa semana, para vocês, com saúde e alegria, João.

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  2. Sempre em "descontentamento", o nosso Camões. Este seu trabalho de divulgação de Camões é notável. Podemos apreciar a Poesia do Génio e constatarmos como há um conjunto de aspetos que vão persistindo no que escreve de pessoal! Saúde e Paz!

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    1. O azar bateu-lhe muitas vezes à porta, daí o seu "azedume"

      Boa semana, com saúde e alegria.

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  3. Grata pela partilha, José! :))
    Boa noite e Boa semana!

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