Quingentésimo ano (162)

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades


"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,


 


"Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,


 


- «Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!


 


Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!


 


A formusura desta fresca serra


E a sombra dos verdes castanheiros,


O manso caminhar destes ribeiros,


 


O dia em que nasci moura e pereça,


Não o queira jamais o tempo dar;


Não torne mais ao mundo, e, se tornar,


Eclipse nesse passo o Sol padeça.


 


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.


 


- "Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.


 


Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.


 


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Ceo eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste


 


«Entrava a fermosíssima Maria »


Pelos paternais paços sublimados,


Lindo o gesto, mas fora de alegria,


E seus olhos em lágrimas banhados;


Os cabelos angélicos trazia


Pelos ebúrneos ombros espalhados


Diante do pai ledo, que a agasalhava,


Estas palavras tais, chorando, espalha:  (canto III, estrofe 102)


 


«« Aquele que me deste por marido,


      Por defender sua terra amedrontada,


       Co' o pequeno poder, oferecido


       Ao duro golpe está de maura espada;


        E, se não for contigo socorrido,


         Ver-me-ás dele e do Reio ser privada


          Viúva e triste e posta em vida escura,


           Sem marido, sem Reino e sem ventura.   (canto III, estrofe 104)


 


Camões, grande Camões, quão semelhante


Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!


Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,


Arrostar co` o  sacrílego gigante;


(Bocage)


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Eternas são e serão estas palavras .
    Obrigada.

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  2. Bom dia, José.
    Obrigada por este medley camoniano.
    Bom feriado.

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    Respostas
    1. Foi só um "cheirinho", para abrir o apetite , na esperança que voltem a ler a obra do nosso grande Camões.

      Boa semana, Isabel.

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  3. Bom dia, Cheia!

    Um magnífico medley de Camões muitíssimo bem rematado por uma estrofe de

    Bocage!

    Bem me avisou que a publicação de hoje seria diferente... :)

    Feliz Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas!

    Abraço

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    Respostas
    1. Foi um " cheirinho" dos belíssimos textos do nosso grande Camões, para abrir o "apetite" aos leitores e às leitoras.
      Boa semana ,Maria João!

      Um abraço.

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    2. E foi esse delicioso cheirinho que me inspirou, Cheia! Obrigada!

      Outro abraço

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  4. Tão bonito este poema, José

    Beijinhos
    Feliz Dia

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  5. Grata pela partilha, José! :))
    Boa noite e Boa semana!

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