Quingentésimo ano (51)

Tanto de meu estado me acho incerto,


que em vivo ardor tremendo estou de frio;


sem causa, juntamente choro e rio,


o mundo todo abarco e nada aperto.



É tudo quanto sinto, um desconcerto;


da alma um fogo me sai, da vista um rio;


agora espero, agora desconfio,


agora desvario, agora acerto


 


Estando em terra, chego ao Céu voando,


nũ’ hora acho mil anos, e é de jeito


que em mil anos não posso achar ũ' hora.



Se me pergunta alguém porque assi ando,


respondo que não sei; porém suspeito


que só porque vos vi, minha Senhora.


 


Luís de Camões


 

Comentários

  1. Bom dia, Cheia!

    Estarei confusa ou este fabuloso soneto já veio ao Sociedade Perfeita?

    Bem, a este soneto conheço-o eu muito bem, não sei porque é que a minha memória me diz que já conversei com ele quando o não vejo nas minhas conversas com Camões... Ah, talvez lhe tenha respondido nalgumas das mais antigas conversas, quando eu ainda não conhecia o Sociedade Perfeita...
    De qualquer forma, hoje é dia de ir ao hospital veterinário com a Mistral, não me posso comprometer com nada.

    Um abraço

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    1. Boa noite, Maria João!

      Deve ter sido quando ainda não conhecia a Socieadeperfeita. Mas isso não quer dizer que não tenha tido uma excelente conversa com Camões, que muito gostei de ler. Muitos parabéns, Maria João.

      Espero que tenha corrido bem a visita ao hospital veterinário.

      Noite tranquila.

      Um abraço.

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  2. Com toda a confusão destes últimos tempos, só agora vi que foi exactamente aqui que iniciei esta última série de conversas com Camões...

    E cá está ele:
    SONETO III
    *

    Alínea M
    *


    "Tanto de vosso estado me acho incerta"

    que acautelada fico e desconfio

    de quanto me dizeis. Se vos sorrio,

    de gentileza, apenas, faço oferta...
    *


    Não sei, Senhor, se me tomais por certa,

    nem se há verdade em vosso desvario,

    mas sei que em caso algum eu desafio

    suspeição que me instigue a estar alerta...
    *


    Mantende os pés na terra e não cuideis

    de ao Céu chegar por mor de haverdes visto

    meu vulto na janela debruçado;
    *


    Meus predicados, não os conheceis

    e, na verdade, nem me sois benquisto

    que a outro eu hei, Senhor, por mais amado.
    *


    Mª João Brito de Sousa

    31.01.2021 - 00.10h
    ***

    Um abraço

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    1. Mais um grande desafio ao Camões.

      Só comecei a publicar esta série de sonetos este ano.

      Um abraço. Maria João!

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    2. Estou exausta, Cheia...

      Acabo de chegar do hospital veterinário com a minha gata Mistral e os valores de glicémia dela continuam altíssimos. Mandaram-me duplicar a dose de insulina e continuar a administrar-lhe soros várias vezes ao dia.

      Um abraço

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  3. Grata pela partilha, José! :))
    Dia Feliz!

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  4. Recordando Camões, há quantos anos não lia os seus sonetos. Brilhantes publicações.

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  5. Sofrer de amor, é louvor
    mas com esta arte de assim ser
    deixo o meu louvor
    Boa e bela Quarta feira pra vocês, em beleza José.

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    Respostas
    1. Bom dia, João.

      Amar é muito bom, mas sofrer é que não.

      Um bom dia para vocês com saúde e alegria.

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