Quingentésimo ano (34)


"Sobre os rios que vão
por Babilonia m'achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião,
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.



. . .



2.
"Ali lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes,
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
c'o rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.



. . .



3.
"E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos,
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem,
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura".



 


Luís de Camões

Comentários

  1. Bom Sábado, Cheia!

    Aqui, Luís Vaz, retoma a medida antiga - redondilha maior - com a mesmíssima mestria com que utiliza a medida nova :)

    Isto é que é comemorar o seu quingentésimo aniversário.


    Abraço

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    Respostas
    1. Ola, Maria João!

      Agradeço as suas explicações, sabia que era redondilha, mas não sabia se era maior, se era medida nova ou antiga.

      Resto de dia tranquilo.

      Um abraço.

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    2. Ensinar o poucochinho que se sabe é, penso eu, um dever de cada um de nós, Cheia.

      A chamada medida nova corresponde aos decassílabos e aos alexandrinos. Até Sá de Miranda, só se utilizava a medida velha, a redondilha maior e a menor, esta última com cinco sílabas métricas.

      Sá de Miranda foi o verdadeiro introdutor da medida nova em Portugal.

      Outro abraço

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    3. Muito obrigado.

      Sempre a aprender.


      Mais um abraço.

      Excluir
  2. Grata pela partilha, José! :))
    Boa noite!

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