Quingentésimo ano (11)
Velho do Restelo
94
"Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
95
- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
96
- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
97
- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?
98
- "Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d'ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d'armas te deitou:
99
- "Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá:
100
- "Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
101
- "Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?
102
- "Ó maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pôs em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória.
103
- "Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu
Em mortes, em desonras (grande engano).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!
104
- "Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co'o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição!" -
Grande Camões
ResponderExcluirdiziamos nós quando Miudos
que vendeu o olho por dois tostões
Belo dia pra vocês José.
Muito Grande, inventou o velho do Restelo, para dizer duras verdades.
ExcluirUm bom dia para vocês com saúde e alegria, apesar do frio, João.
Confesso que já não O lia desde o ensino secundário e dá sempre uma sensação de nostalgia..
ResponderExcluirBeijinhos
Merece ser mais conhecido e lido.
ExcluirBeijinhos, Ana!
O famoso episódio do Velho do Restelo... :)
ResponderExcluirOutro abraço, Cheia
Um episódio, onde são ditas duras verdades, sobre como os políticos enganam os povos.
ExcluirUm abraço, Maria João.
E continua tão actual o "Velho do Restelo"
ResponderExcluirResto de dia feliz.
Um episódio muito bem escrito, para nos mostrar como os políticos conseguem
Excluirentusiasmar os povos, para lhes darem o poder, e isso parece que vai acontecer sempre.
Boa noite.
Toda a realidade tem duas faces.
ResponderExcluirNoite descansada, José.
A dos que se empolgam com os tambores e a bandeira, e a dos que isso não vale nada, porque a nossa pátria é onde vivemos.
ExcluirNoite tranquila, Isabel.
Grata pela partilha, José! :))
ResponderExcluirBoa noite!
Muito obrigado!
ExcluirFeliz noite, Zé!
Olá José!
ResponderExcluirEm 500 anos a poesia de Camões mantém a actualidade, seria de esperar que algo tivesse mudado. O que pensaria Camões se visse, e vivesse, o Portugal de hoje, cinco séculos passados sobre os Lusíadas? Que poemas em soneto dedicaria, e a quem, quais as reflexões do velho do Restelo?
Obrigada pela selecção dos sonetos, José, trazem muito para reflectir.
Noite boa, José!
Beijinhos
As reflexões do velho do Restelo poderiam ser dedicadas aos atuais políticos.
ExcluirBoa sexta-feira, Mafalda!
Beijinhos