O Império

O Império – As teias que o Império teceu


36


Toda a família estava radiante com a receção em Luanda


Não podiam ter tido mais sorte: terem caído nas boas graças do Governador


Passados alguns meses, os irmãos foram chamados ao Governador, que lhes entregou as chaves de duas casas, uma para cada família


Com a entrega das chaves, a vida dos dois casais, finalmente, depois de sete anos,


tinha voltado à normalidade


Uma normalidade, pela qual iriam pagar um preço alto, porque o novo trabalho, tanto do Januário como do Ezequiel, para além de conselheiros na defesa da cidade, tinham de  voltar ao negócio dos escravos, coisa que as suas mulheres não queriam


Salvador de Sá, o novo Governador de Luanda, tinha sido financiado e mandado, para Angola, pelos fazendeiros, para expulsar os holandeses e enviar escravos, para o Brasil


Por isso, todos os seus colaboradores tinham de estar empenhados nessa missão


Mesmo que não concordassem com o desumano tráfego de seres humanos, não estavam em condições de recusar a ajuda do Governador


Talvez, pudessem prescindir da ajuda do Governador, quando o Januário voltasse do Brasil, se tudo corresse bem e já tivessem outro-meio de subsistência


Como elas ficaram muito aborrecidas por eles terem de colaborar no envio de escravos para o Brasil, o Januário e o Ezequiel garantiram à Rosinha e à Miquelina, que essa colaboração não iria ser por muito tempo


Pediram-lhes para continuarem com a agricultura, que se associassem a outras mulheres, que produzissem e vendessem, uma maneira de criarem os alicerces para, quando o Januário voltasse do Brasil, deixarem de depender do Governador


Ficaram entusiasmadas com a ideia, iriam, quanto antes, procurar parcerias, para desenvolverem o novo projeto


O Ezequiel ofereceu-se para acompanhar o irmão ao Brasil, mas o Januário não aceitou, dizendo-lhes que era uma missão muito arriscada, e que o melhor era ficar, para poder apoiar a família


Ficou aliviado, estava tudo decidido e organizado, já o podiam chamar, para a sua viagem ao Brasil, que tinha tanto de perigo como de fascínio: atravessar o Atlântico e conhecer a grande colónia do Brasil


Quando falava da viagem, no seio familiar, mostrava-se, sempre, muito confiante, dizendo que tuto iria correr muito bem, mesmo que tivesse medo de que não voltasse do outro lado mar, mas não o iria a ninguém revelar


Custava-lhe tanto deixar a mulher, os filhos e a restante família. Mas, se era essa a sua missão, tudo tinha de fazer para a realizar e as promessas cumprir.


 


Continuar


 


 

Comentários

  1. E aí vem mais uma viagem, mais uma aventura para seguirmos. :)
    Bom dia, José.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Havia uma grande apetência, por parte do Brasil, pela mão de obra angolana. Foi uma época intensa de trocas comerciais, entre as duas colónias.
      Bom dia, Isabel.

      Excluir
  2. Tiveram a sorte que muitos agora precisam...de lhes terem entregue as chaves de uma casa...:)))abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Era preciso cativá-los, para que apoiassem o negócio da escravatura, o grande negócio da altura.
      Um abraço

      Excluir
  3. Estou a torcer pelo Januário.
    Dia Feliz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vamos ver como vai decorrer a arriscada viagem ao Brasil.
      Boa tarde.

      Excluir
  4. Ainda vão ser as mulheres a encontrar um meio de subsistência decente, para a família
    Bom final de tarde

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Enquanto eles se entretêm com outras coisas, elas lançaram o embrião de uma associação, para produção de alimentos, que vai contribuir para o sustento da família.
      Feliz resto de dia.

      Excluir
  5. Ao lermos a história e estas histórias percebemos quão ridículo é julgar pessoas, algumas já tão velhas e sem discernimento, por aquilo que fizeram no passado.
    Talvez fosse mais simples deixar de julgar e não voltar a fazer. O negócio de escravos era de todo lamentável, mas depois de ver que aconteceu ontem no Alentejo, deixa-me a pensar que não aprendemos nada com o passado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ganhar dinheiro, acumular riqueza, impressionar com carros de alta gama, ou com grandes vivendas com piscina fazem com que, algumas pessoas, não olhem a meios, para atingirem os fins. Para estas pessoas, a história talvez as inspire a fazerem o mesmo.

      Excluir
  6. Grata pela partilha, José! :))
    Boa noite!

    ResponderExcluir
  7. Mais um excelente episódio. Obrigada.
    Beijinho, José. Boa noite.

    ResponderExcluir
  8. As independências antes da independência, valor fundamental para qualquer povo, para todas as Pessoas.
    E como continuamos na era contemporânea às voltas e reviravoltas na repetição dos mesmos enganos, das mesmas más acções, apesar das evoluções tecnológicas, sociais, continua a existir a exploração do mais fraco pelo mais forte.
    Por outro lado falando também de igualdade, parece que cada vez mais a mudança parece estar nas mãos das mulheres, vamos acompanhar este seu Império que se desenvolve em espelho aos grandes e pequenos impérios que existem.
    Obrigada pela partilha de mais um episódio, José!
    Noite tranquila.
    Beijinhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que as mulheres façam a diferença, porque os homens, parece que , cada vez, estão menos solidários, menos tolerantes. Estamos numa encruzilhada, em que já não é só o clima, que é agressivo, os humanos também o são, defendendo o seu quinhão, com unhas e dentes.
      Boa noite, Mafalda.
      Beijinhos

      Excluir
  9. Quando chegará a vida estável para estas familias?
    Uma noite feliz

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mais tarde ou mais cedo, encontrarão o seu rumo.
      Feliz noite e bom-fim-de-semana, Isabel.

      Excluir
  10. Agruras, alegrias e tristezas
    assim é a vida
    na clareza destas palavras José
    Bom fim de Semana em harmonia de bom dia.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A vida é feita de dias de todas as cores.
      Boa noite e bom fim-de-semana, para vocês, João.

      Excluir
  11. "...Custava-lhe tanto deixar a mulher, os filhos e a restante família..."
    Saúde e Paz!

    ResponderExcluir
  12. Que saudades de passar por aqui para ler este "Império". O tempo não me tem dado tréguas, mas hoje consegui e como sempre valeu a pena!
    Obrigada José!

    ResponderExcluir
  13. Ficar longe causa sempre dor .
    Gostei de mais este capítulo.
    Beijinhos José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia
      Muito obrigado por acompanhar estas teias.
      Feliz domingo, Manu!
      Beijinhos

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Lua Cheia

A candeia!