A sedutora

Lisboa! A sedutora


19


Chegou o dia da prova escrita, com muito nervoso miudinho, lá foi até à Praça José Fontana, conhecer mais um Liceu, aquele que homenageia o seu poeta preferido


Correu bem, quando saíram os resultados, estava aprovado, ia à prova oral


No dia em que fosse fazer a prova oral, telefonaria à namorada para lhe dizer o resultado, dizia-lhe que era muito importante ir graduado em sargento, para ela poder ir ter com ele ao teatro de guerra, caso houvesse condições para isso, mesmo que pensasse que isso nunca aconteceria


Ela não tinha telefone, mas uma vizinha tinha, por ser telefonista da Anglo Portugueese Telephone, empresa inglesa, que explorava os telefones de Lisboa e Porto, e dava trabalho a muitas mulheres, como telefonistas, as chamadas eram manuais, tinha de se pedir à telefonista para marcar o número para onde se queria falar, uma vez que a empresa não fez grandes investimentos, porque o contrato de conceção estva a terminar


No dia em que fez o exame da prova oral, mal soube que tinha ficado aprovado, dirigiu-se para o jardim defronte do Liceu, onde havia uma cabine telefónica pública, e ligou para a namorada, para lhe dar a boa novidade


Foi um dia determinante para o seu futuro, conseguiu subir um degrau, em vez de ser incorporado como praça, passou a ter acesso à classe se sargentos 


Em breve iam casar-se, como tinham 20 anos, eram menores, tiveram de pedir autorização aos pais para se poderem casar


O patrão e os irmãos juntaram-se para lhe oferecerem, como prenda de casamento: a cama e o colchão, as mesas-de-cabeceira, uma mesa e dois bancos, uma excelente prenda para encherem o quarto, vazio, que tinham alugado


Dois meses depois, em setembro, casaram-se, foram viver para o quarto, que tinham alugado  na Rua da Imprensa à Estrela, por de trás do Palácio de São Bento, residência oficial do Presidente do Conselho de Ministros


Um prédio de dois andares, no rés-do-chão viviam: a dona casa, o marido, a filha e o filho, maiores, um casal com um filho bebé e o casal em lua-de-mel, no andar de cima viviam: um maestro, a esposa e os nove filhos


O jovem casal todos os dias adormecia ao som do piano. Ela, como passava mais tempo em casa, dizia que já não podia ouvir mais piano


Ele tinha de ir todos os dias para a escola, não queria deixar de estudar, mesmo que a primeira etapa já estivesse conquistada


Tinha um novo professor de português (Manuel dos Santos Alves) um Camoniano, que andava a elaborar um dicionário de Os Lusíadas, de vez em quando dizia que ao mesmo tempo que ele andava a decifrar Os Lusíadas, outros andavam a ler A Bola


Também tinha livros de interpretação de Os Lusíadas, que vendia aos alunos


A sua aula era a última da noite, das 23 às 24 horas, todas as noites chegava com o vespertino debaixo do braço, foi ele que os informou que a guerra entre os israelitas e os árabes tinha começado, a guerra dos seis dias


Quando entrava na sala de aula, já alguns estavam a dormir, acordava-os declamando os versos de Camões.


Continua


 

Comentários

  1. Tempos do caraças José
    mas era assim
    e o que havia a cada dia, de luta

    Belo dia com alegria pra vocês.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os tempos mudaram, mas para os pobres as dificuldades mantêm-se.
      Também vos desejo um belo dia com saúde e alegria, João.

      Excluir
  2. A luta constante de quem não baixa os braços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando não se nasce em berço de ouro, só se consegue alguma coisa com muito esforço.

      Feliz resto de dia, Isabel!

      Excluir
  3. Respostas
    1. Muito obrigado pelas amáveis palavras!
      Feliz resto de dia, cara amiga!

      Excluir
  4. Gosto tanto, tanto, tanto, destas narrativas, José

    Beijinhos
    Feliz Dia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelas tuas encorajadoras palavras!
      Feliz dia, Luísa!
      Beijinhos

      Excluir
  5. Fico sempre com vontade de ler um pouco mais!
    Dia bom!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelo interesse demonstrado.
      Feliz resto de dia!

      Excluir
  6. Grandes e merecidas conquistas, José.
    Este foi um episódio alegre. :)
    Um dia bom. Beijinho.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vale a pena estudar, e o melhor investimento, que pais e avós podem fazer, é na instrução dos filhos e netos.
      Feliz resto de dia, Isabel.
      Beijinhos

      Excluir
  7. Achei piada à cena dos "versos de Camões" para acordar a malta. Imaginei como seria. Viva Camões!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Era uma maneira diferente de os acordar, de os fazer vibrar, porque não era fácil, depois de um dia de trabalho e de 3 horas de aulas, aguentar mais uma aula, com atenção.
      Camões, grande Camões, quão semelhante/ Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
      Igual causa nos fez, perder o Tejo, (Bocage)
      Igual causa, também, me fez perder o Tejo.

      Excluir
  8. Uma vida de luta e esforço , mas que valeu a pena.
    Gostei de ler mais este episódio.
    Dia feliz
    Beijinhos José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O investimento na educação é rentável.
      Fico muito contente por ter gostado.
      Bom fim-de-semana, Manu.
      Beijinhos

      Excluir
  9. Revejo nesta narrativa excelente as mesmas situações e episódios contados na família desses tempos, desde a casa partilhada com os pais e primos, aos vizinhos de cima, e até as telefonistas, os balneários públicos para os banhos, realidades de quem vivia nas cidades. O pormenor de Camões é fabuloso. Muito boas leituras, obrigada pela excelente partilha e bom fim-de-semana José!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelas amáveis palavras.
      Também lhe desejo boas leituras e um bom fim-de-semana.

      Excluir
  10. No Liceu Camões, um professor a declamar Camões
    Não podia ser mais a propósito.
    São sempre muito interessantes estas suas partilhas
    Bom descanso José.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não me exprimi corretamente, em vez de camoniano é camonianista. Acho que não dava aulas no Liceu Camões. Tive aulas com ele na Escola Académica, no Largo do Conde de Barão, em Lisboa. No Liceu Camões, fiz o exame do primeiro ciclo liceal, como aluno externo, que só se podia fazer com 18 anos ou mais anos.
      Desculpe tê-la induzido em erro.
      Bom domingo, Isa

      Excluir
    2. Obrigada pelo esclarecimento José

      Excluir
  11. Lindo trecho de uma partilha de vida difícil mas feliz. E já não há a cabine telefónica no jardim defronte ao Camões, liceu onde ainda lá andei e passo por ele todos os dias. Bfsem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pela informação. Há muito que lá não passo.
      Bom domingo.

      Excluir
  12. Ainda me lembro bem dessa empresa e das telefonistas com os seus armários enormes de madeira (acho que se chamavam pbx), cheios de fios e buracos onde encaixam os fios para estabelecer as ligações.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Como tudo mudou, hoje é quase tudo sem fios e automático!
      As telefonistas não podiam estar nas centrais telefónicas vestidas com calsas.
      Uma telefonista, que trabalháva na central telefónica de Sintra, (1969) teve de pedir autorização para entrar na central vestida com calsas, porque o seu meio de transporte era uma motorizada, mas tinha de as tirar antes de começar a trabalhar.
      Sim, chamava-se pbx.

      Excluir
  13. bom dia José
    estou a adorar esta viagem no tempo.
    obrigada pelo carinho
    beijinhos e feliz domingo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado.
      Boa tarde e boa semana, Ana!
      Beijinhos

      Excluir
  14. Ao ler estas belas palavras, parece que foi noutra vida...
    Beijinhos e ficamos aguardar pela a continuação!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foi, pelo menos, noutro século. Agradeço as encorajadoras palavras.
      Boa semana!
      Beijinhos

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Lua Cheia

A candeia!