Vidas (8)
Continuação (8)
A terceira classe, terceira professora, três professoras em três anos! Na terceira classe havia exame para passar para a quarta classe. No seguimento das anteriores, esta professora, também queria que os seus alunos fizessem boa figura.
Numa tarde, depois de entrarem, após o intervalo para o almoço, a professora apercebeu-se que estava a cair neve, foi à rua certificar-se do que estava a ver, correu para a sala de aulas, dizendo : “agarrem nas vossas coisas e corram para casa. Não se entretenham a brincar com a neve, porque está a nevar muito, o que pode provocar muita dificuldade para chegarem a casa”
No dia seguinte estava tudo branquinho: telhados, campos, o que fez com que Francisco tivesse de ir cortar uns ramos de oliveira, para a cabra comer. Estávamos em 1954, o ano em o país ficou pintado de branco de alto-a-baixo
Pouco antes do ano escolar acabar, a professora foi incumbida de fazer uma lista dos alunos mais pobres, para irem uma semana de férias, para a beira-mar, junto a uma praia
A professora disse-lhe que o nome dele fazia parte da lista. Dias depois, informou-o de que o seu nome tinha sido riscado, pelo Regedor, por o pai não apoiar o Salazar
José ficou muito revoltado, já sonhava com o mar, as brincadeiras com os colegas e com a praia. Parece que para os pais não foi grande surpresa, mas não deixaram de mostrar a sua indignação!
Francisco, não falava de política! Mas, ao contrário de outros pais, não tirava o filho da escola, para ir guardar as bestas, dos Senhores, quando começava aceifa
Dizia que ali ninguém passava da cepa torta. Por isso, tudo faria para que os seus filhos fossem para lisboa
Quando o ano escolar estava a terminar, foram a São Miguel do Pinheiro, para fazerem o exame da passagem para a quarta classe. Acabaram o exame e saíram, uma rapariga mais velha que ele, de quem gostava muito, e ela dele, correu para ele, dizendo que não tinha feito os problemas, estava tão nervosa que se esqueceu de tudo. Ele tentava acalmá-la, quando surgiu o pai dela
Leu-o lhe a sentença:” não voltas para a Escola, estás uma mulher, vais trabalhar.” Ela, lavada em lágrimas, pediu-lhe que a deixasse ir mais um ano, queria, pelo menos, fazer a terceira classe, mas ele estava irredutível, agarrou-lhe na mão e seguiram para casa, nem tiveram tempo de se despedirem! José ficou com os olhos pregados nela, até deixar de os ver, nunca mais se viram!
Agradeceu ao pai, mentalmente, por ele ser diferente e dizer sempre que os estudos eram o mais importante para os seus filhos
No início do último ano escolar, regressou a professora do segundo ano, a Senhora da telefonia sem fios. Já a conheciam, sabiam que iria ser muito exigente com os três, que chegaram à quarta classe: dois rapazes e uma rapariga. Dos que entraram no início da Escola, só dois chegaram à quarta classe. A rapariga viera de outra Escola, depois de ter feito os dois primeiros anos
Nos dois últimos meses, a professora deu-lhes aulas aos sábados e domingos, queria que estivessem bem preparados para o exame a realizar na sua Vila, onde todos a conheciam
Num sábado, deixou-os na sala de aulas e saiu. Eles fizeram trinta por uma linha: escreveram no quadro, saltaram por cima das carteiras, partiram um tinteiro. Quando regressou e viu a sala de aulas naquele estado, deu-lhes doze palmadas em cada mão e mandou-os sair
José, que morava ao lado da Escola, entrou em casa a esfregar as mãos, sentou-se à mesa, mas não pegava no garfo, fazendo com que a mãe preguntasse o que tinha acontecido. Mas o José continuava sem querer dizer o que tinham feito.
Continua
Como gosto tanto destas recordações ... também fui da altura das reguadas nas mãos, de ficar de pé de costas para a turma de castigo, de ir a outra escola fazer o exame da 4ª classe
ResponderExcluirBeijinhos José
Feliz Dia
Fico muito contente por gostares das boas recordações da infância! " Recordar é viver"!
ExcluirFeliz resto de dia!
Beijinhos
Grata pela partilha, José! :))
ResponderExcluirDia Feliz!
Muito obrigado pelas suas assíduas visitas
ExcluirFeliz resto de dia!
Descrições de Vida importantíssimas. Os seus relatos mereciam ser coligidos em livro. Devidamente trabalhados, sem qualquer desprimor ou outro sentido, porque não pensa nisso? Parabéns também aos seus Pais!
ResponderExcluirA informação da neve em 1954 é muito peculiar.
Votos de muita e santa Saúde!
Agradeço as suas incentivadoras e amáveis palavras .Por enquanto não penso em publicar nada, em livro. É dispendioso, e se tiver interesse pode ser que alguém publique. Vou tentando escrever, para ficar e não se perder.
ExcluirFeliz resto de dia, com muita saúde!
Retrato de uma país bafiento onde se vivia pobremente...abraço José
ResponderExcluirUm país atrasado, sem liberdade e muito mal governado.
ExcluirUm abraço
O valor de uns pais que na altura davam valor à escola.
ResponderExcluirContinuar a gostar imenso destas memórias.
Infelizmente, eram poucos os que davam valor ao futuro, só viam o presente.
ExcluirFeliz noite!
Fui do tempo das reguadas, mas felizmente nunca apanhei. Que país sem liberdade nessa altura
ResponderExcluirComo sempre um relato que dá gosto ler.
Beijos José
Muito obrigado! Era um país amordaçado.
ExcluirBoa noite, Manu!
Beijinhos
As reguadas aqueciam sentimentos
ResponderExcluirBom fim de Semana pra vocês
com alegria, esperança e saúde da boa José
As mãos ficavam bem quentinhas.
ExcluirUm bom fim-de-semana para vocês, mesmo que o tempo não ajude!
Pena daqueles que sempre tiveram ganas de estudar e não puderam continuar..isso sim entristece-me.
ResponderExcluirSeguindo, estou a adorar
Agradeço as suas amáveis palavras! Foram tempos muito difíceis, alguns pais ainda não tinham consciência de quanto importante era saber ler.
ExcluirBoa noite!
Creio que chamavam "Colónias" a essas idas à praia...
ResponderExcluirAcho que sim! Fiquei tão revoltado, que tudo ficou apagado.
Excluir