Vidas (14)
Continuação (14)
Começou com o ordenado de setenta escudos mensais, cama e roupa lavada, foi aumentado vinte escudos de cada vez, atingindo os cento e noventa escudos
Em 1958, ainda se viam algumas carroças pelas ruas. Ao cimo da Rua da Imprensa Nacional, do lado direito de quem sobe, havia uma olaria, que mais tarde foi transformada numa loja de artigos de plástico
Foi um ano de eleições Presidenciais, em que o General Humberto Delgado terá ganho as eleições. Questionado sobre o que faria a Salazar, se ganhasse, deu uma resposta, que deve ter ditado a sentença da sua morte: “obviamente demito-o”. (em 1965, foi morto pela PIDE)
Em 1957 tinham começado as emissões regulares da televisão. Muito poucas pessoas tinham televisão, José e o patrão, de vez em quando, depois do jantar, iam ver a televisão, a um café na rua de São Marçalo. A patroa ia para o andar, os filhos deitar
Assistiram à apresentação, pelo saudoso Artur Agostinho, do novo concurso da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, as Apostas Mutuas Desportivas: o Totobola
José teve sorte com o local para onde foi trabalhar: a paróquia de São Mamede, o local onde começaram os Estudos Politécnicos, daí o nome de rua da Escola Politécnica, o Jardim Botânico, a Imprensa Nacional. E, onde viviam figuras ilustres, como o cineasta Leitão de Barros, que vivia na rua do Arco a São Mamede, o distinto cirurgião Dr. Celestino da Costa, que morava numa rua perpendicular à rua da Imprensa Nacional, um quarteirão abaixo do Lugar de Frutas e Hortaliças, em frente ao estabelecimento vivia o conde de Arrochela, que segundo o motorista, gostava de viver a noite Lisboeta
Ao colega de escola, um ano mais tarde, coube-lhe, em sorte, uma taberna, na Avenida Infante Dom Henrique
Alguns operários da Imprensa Nacional, que trabalhavam por turnos, quando acabavam o turno da noite, iam “ matar o bicho”, e, nas noites em que eram visitados pela PIDE, informavam o José de quantos tinham ido presos. Tristes tempos, em que não se podia abrir a boca!
As ruas de Lisboa, desde manhã cedo, eram inundadas de pregões: a mulher da fava-rica, as varinas, os ardinas, no tempo dos figos, a mulher que apregoava:” quem quer figos, quem quer almoçar”, o homem do ferro-velho, cujo pregão era: “ quem tem jornais, trapos ou garrafas para vender”
No primeiro andar, do prédio do estabelecimento, vivia uma idosa, sozinha. De manhã o ardina dava um género de nó, num jornal matutino e atirava-o para a varanda, à tarde o ardina passava, e ela devolvia-lhe o jornal. Certamente, no dia seguinte entregava-o como não tendo sido vendido, o que era verdade, só o tinha alugado durante o dia. O José nunca soube quanto é que ela pagava pelo aluguer. Naquele tempo, também se editavam vespertinos, e por vezes, mais que uma edição, se algum acontecimento o justificasse, o que faziam com que os ardinas não se cansassem de apregoar: última hora”
Todos aqueles criados e criadas ansiavam, por o dia em que tivessem um espaço seu, alguém que os acarinhasse. Viver vinte e quatro horas, trezentos e sessenta e cinco dias, nas casas dos patrões, cansava! Sem dias de férias, nem de descanso, apenas algumas horas, por semana ou de quinze em quinze dias, como acontecia a algumas criadas, ao domingo, das 15 às 19 horas, para namorarem
Por vezes, criados e cridas falavam dos seus problemas, como eram trados pelos patrões, limpando as lágrimas uns aos outros, confortando-se com palavras de esperança em dias melhores. Eles, na esperança de que, depois da tropa, conseguissem ir para a Polícia, Carris, Metropolitano. Elas, na esperança de que um príncipe encantado as libertasse
Algumas nunca casaram, e na velhice, quem lhes valia era a casa de Santa Zita, Santa, sua padroeira. Algumas vendiam postais, à porta das Igrejas, para ajudarem a organização
No quarteirão, do Lugar de Frutas e Hortaliças, havia um Colégio Feminino, onde andavam duas filhas de uma Senhora, que morava no Largo de Camões. A senhora começou a fazer as compras onde o José trabalhava, mas exigia grandes descontos. O patrão, de sebenta na mão, ia tomado nota do que Senhora queria e dos preços que exigia
Feitas as contas, como dizem no Alentejo, não dava a mexa para o sebo. Então, teve a genial ideia de equilibrar os descontos com um erro no total da soma. Não havia máquina registadora, era tudo somado à mão. Começou por acrescentar dois escudos e cinquenta, três ou cinco escudos, conforme os descontos que ela exigia. Estava combinado que, se descobrisse, se tratava dum erro na soma. Pagava depois de receber as mercadorias, nunca somou a conta!
Como era muita coisa, o cabaz ficava muito pesado, o patrão dizia-lhe para ir duas vezes. Mas ele não achava jeito ir duas vezes, da Rua da Imprensa Nacional ao Largo de Camões. Por isso, pedia para lhe colocar o cabaz no ombro e lá ia, descansava, colocando o cabaz em cima dos marcos do correio. A primeira paragem era no jardim do Príncipe Real, a seguir no jardim de São Predo de Alcântara, a última, na casa da freguesa, depois de subir dois lances de escada
O país estava em ebulição. Depois, do que aconteceu nas eleições presidenciais, a invasão do Estado Português da Índia, pela União Indiana. Nesses anos realizaram-se algumas procissões noturnas, da Igreja de São Mamede ao Convento do Carmo, acompanhadas por carrinhas da Legião Portuguesa, com altifalantes, cheias de Legionários
A seguir à invasão, do Estado Português da Índia, organizaram uma procissão para evocarem Afonso Albuquerque, ao chegarem ao Convento do Carmo, gritaram: “ Levanta-te, grande Almirante Afonso Albuquerque”!
Continua
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Magnífico retrato de uma Lisboa tão mais vagarosa que dava para observar toda a gente.
ResponderExcluirEra tudo assim mesmo.
Um bom dia. E venha o próximo episodio.
Grato pelas encorajadoras palavras!
ExcluirBoa noite.
Que escrita bonita e envolvente, a sua!
ResponderExcluirUm dia feliz
Grato pelas amáveis palavras!
ExcluirBoa noite!
Grata por mais esta belíssima partilha, José! :))
ResponderExcluirDia Feliz!
Eu é que agradeço o interesse demonstrado, Zé!
ExcluirUma noite feliz!
Não me canso de dizer o quanto gosto destes relatos José!
ResponderExcluirA primeira vez que vi televisão tinha 3 anos, na casa da minha madrinha, a preto e branco e um canal espanhol
Também me lembro muito bem da PIDE. Havia um vizinho nosso que era da PIDE e todos tínhamos medo de falar com ele 1
Beijinhos José
Feliz Dia
Muito obrigado pelas tuas encorajadoras palavras!
ExcluirBoa noite, Luísa!
Beijinhos
Maravilhoso, que fantástica viagem no tempo.
ResponderExcluirTem uma óptima tarde.
Grato pelas tuas amáveis palavras.
ExcluirBom resto de dia.
Tantas peripécias, algumas delas que gostei de relembrar.
ResponderExcluirQuando pequena ia a casa de uma vizinha ver Tv sobretudo o festival da canção.
Relatos de vidas difíceis e que me fazem recuar no tempo.
Continuo presa aqui
Beijinhos José
Muito obrigado pela assídua presença!
ExcluirResto de feliz dia, Manu!
Beijinhos
Mais uma bela "pintura"...mas essa dos descontos fez-me lembrar um merceeiro da minha rua que quando cortava o bacalhau em postas, fazia "escorregar" a do meio para dentro do balcão...até ao dia em que foi apanhado...:))) abraço
ResponderExcluirAnda meio mundo a querer enganar o outro meio mundo.
ExcluirUm abraço,
E as reviravoltas que a vida dá! Adoro sempre estas tuas partilhas, parece que até o tempo passava de forma mais calma! Muitos beijinhos, amigo José, e uma noite descansada!
ResponderExcluirMuito obrigado pelas tuas amáveis palavras. O tempo passava de forma mais calma, não havia a aceleração, que há hoje em dia.
ExcluirFeliz resto de dia, Sandra!
Beijinhos
Estou a gostar muito!
ResponderExcluirBem-haja.
Boa noite
Muito obrigado pelas amáveis palavras!
ExcluirFeliz noite
Isto é que é memória José
ResponderExcluirBom dia com alegria de fim de Semana pra vocês.
Bom fim-de-semana para vocês, com vento, chuva e frio! Continua o inverno, temos de nos agasalhar, João.
Excluirque memória prodigiosa e a escrita é exímia. estou a adorar. quando venho cá tenho de rebobinar alguns capitulos, não perco um. passo por cá quando dá e adoro esta viagem no tempo. obrigada pela partilha. dá um livro bem sucedido. beijinhos e feliz fim-de-semana
ResponderExcluirMuito obrigado pelas tuas amáveis palavras!
ExcluirBom fim-de-semana!
Beijinhos
Excelente post.
ResponderExcluirVale a pena ler e reler. Muito obrigada.
Regressarei, se mo permitir, para ler para trás, sem perder o que se escreverá adiante. Mais uma vez, bem-haja por tão bela leitura.
Muito obrigado pelas amáveis palavras! Agradeço que volte sempre, que leia e goste.
ExcluirBom fim-de-semana!
Muito bom, parece que estamos a ver o que escreves!
ResponderExcluirParabéns
B'jinhos
Agradeço as tuas amáveis palavras!
ExcluirFeliz fim-de-semana!
Beijinhos
Mais uma memória que é um deleite ler.
ResponderExcluirGrato pelas tuas amáveis palavras!
ExcluirBoa semana!
Maravilhosos relatos do que foi um antigamente.
ResponderExcluirConsigo sentir a ansiedade dos criados e criadas por algo mais...
Continuando ...
Foi uma vida muito dura.
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