Vidas (13)

Continuação (13)


Alice, o filho mais novo e a prima seguiram para casa, onde o José iria, depois do jantar, para decidir se ficava em Lisboa, ou voltaria, com a mãe e o irmão, para a sua casa


  José colocou a grade e os cestos às costas, recomeçou a caminhada para o seu destino: a Rua Forno do Tijolo, ao Príncipe Real, onde estava estacionada a camioneta, que levaria a grade e os cestos, de volta, à Praça da Ribeira


Se a Alice, em vez de ter tido aquele dramático encontro com o filho, o tivesse surpreendido a atender uma cliente, ou a dar brilho às laranjas, com um pano, não carregaria aquela dura e dolorosa imagem durante meses ou anos. Como diz o ditado: “ olhos que não veem, coração que não sente”


Quando regressou, ao Lugar de Frutas e Hortaliças, disse ao patrão, que tinha encontrado a mãe, o irmão e prima, e pediu-lhe se poderia ir despedir-se deles, depois do jantar


Mal acabou de jantar, correu para a casa da prima. Foi então, que as duas primas travaram um debate, onde esgrimiram todos os argumentos, contra e a favor da permanência do José em Lisboa, ou do regresso ao Alentejo


A mãe dizia que a prima não lhe doía o coração, porque ele não era filho dela. E perguntava-lhe se queria aquele trabalho para a filha dela. A prima dizia-lhe que era apenas uma etapa para conseguir uma vida melhor, e se ela queria que ele fosse outra vez guardar porcos. Por fim, concordaram que seria ele a decidir.


A vontade do José era ir com a mãe e o irmão, mas já tinha decidido que ficava, até por que o pai não compreenderia a sua decisão. Por outro lado, já não tinha idade para andar agarrado às saias da mãe. Tinha era de lutar pelo seu futuro, e o pior já tinha passado


A pouco-e-pouco, o José foi se habituando ao novo trabalho. Gostava do contato com as freguesas, as criadas e os colegas dos outros estabelecimentos. Ao fim de alguns meses, já as freguesas diziam, que ele era pior que o patrão, que lhes conseguia impingir tudo


Todos os dias escada acima, escada abaixo, a perguntar o que precisavam, para o almoço ou para o jantar, com as cozinheiras tinha de falar. E, elas, sempre, a avisá-lo: “ não te demores, tenho de fazer o almoço”


Alguns prédios tinham escadas de serviço, na parte de trás, todas em ferro, onde se cruzavam: o padeiro, o merceeiro, o leiteiro, o moço do Lugar de Frutas e Hortaliças, do talho, o carvoeiro …….


Falavam dos seus problemas, alguns queixavam-se de que os patrões lhe batiam. José tinha tido muita sorte, os seus, tratavam-no como a um filho, brincou muito com os eus filhos: um rapaz da sua idade, que, infelizmente, teve poliomielite, e a irmã, que tinha dois anos, quando o José foi para lá. Das 15 às 17, horas o estabelecimento tinha pouco movimento, e isso permitia que os três fossem de vez em quando, passear para o Jardim Botânico.


Era um casal muito católico, natural do Concelho de Celorico da Beira. Todos os dias, todos rezavam o terço, pela conversão da Rússia. No mês de Maio iam, à noite, à Igreja de São Mamede


José e o filho dos patrões frequentaram a catequese e fizeram a Primeira Comunhão no mesmo dia. Todos os domingos iam à missa, uns à igreja de São Mamede, outros à igreja dos Mártires, porque não podiam ir todos ao mesmo tempo.


 O estabelecimento abria todos os dias do ano. O horário afixado, para o empregado, não correspondia ao praticado: entrava às 9, saia às 13, entrava às 15 e saia às 19.


O José dormia na parte de trás do estabelecimento, onde funcionava a cozinha, e os patrões tomavam as refeições. Tomava o pequeno-almoço e almoço atrás do balcão, caso entrasse algum cliente, tinha de interromper a refeição. Só para o jantar, é que se podiam todos juntar


Os patrões dormiam num andar de um prédio mais abaixo. O patrão acordava-o ente as 5 e 6 horas, batendo à porta, quando, ainda, estava tão bem a dormir, para irem para a Praça da Ribeira


Antes das 8 horas, apanhava o elétrico, para às oito abrir o estabelecimento. O mais difícil era arrancar do chão, a porta ondulada de ferro, muito pesada, e eleva-la até à sua altura, depois era mais fácil empurra-la até acima. O patrão dizia-lhe para pedir a quem passa-se para o ajudar, mas ele não se setia à vontade, para fazer esse pedido, e àquela hora passava pouca gente, só uma vez pediu a um rapaz que o ajudasse


Uma manhã, pelas oito e meia, entrou, no estabelecimento, o fiscal do horário de trabalho, multou o patrão em duzentos escudos, muito dinheiro! José trabalhou lá 4 anos, e o seu ordenado nunca atingiu esse valor.


Continua


 


 

Comentários

  1. Apesar de tudo, já havia uma luz ao fundo do túnel...

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    1. Como sempre, depois da tempestade, vem a bonança.
      Boa noite!

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  2. E de repente vi-me transportado aos finais dos anos 80, que passei nessa zona de Lisboa onde estudava... velhos tempo.

    Adorei o texto.

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  3. Grata por mais esta partilha, José! :))
    Dia Feliz!

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    1. Grato por gostar, por aqui passar, Zé!
      Feliz resto de noite!

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  4. Deveras interessantes estas suas narrativas que nos cativam sob vários aspetos. A dureza da Vida nesses tempos, a vontade do José em progredir, os afetos dos Pais, e até os lugares que refere e evoca. Parabéns!
    E muita Saúde!

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    1. Grato pela suas encorajadoras palavras.
      Boa noite, com muita saúde!

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  5. Esto a gostar imenso José ... as crianças eram "obrigadas" a amadurecerem rapidamente.
    Como mimamos os nossos filhos agora e os protegemos ... não sei se este contrário os fará melhores

    Beijinhos
    Feliz Dia

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    1. Tinham de crescer todos os dias! Quanto aos tempos atuais, quem sabe! oxalá não tenham de enfrentar tempos difíceis, por que aí, é que se verá se estão preparados para eles.
      Boa noite, Luísa!
      Beijinhos

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  6. Pois é José...agora todos se queixam de tudo...nesses tempos não havia tempo para queixinhas...:))) abraço

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    1. Outros tempos! Felizmente que mudou para melhor.
      Feliz noite!
      Um abraço

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  7. Vida atribulada José
    Mas o melhor tá pra vir

    Boa tarde pra vocês com alegria
    que a chuva vem fria

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    1. Um pouco! Mas deixou boas recordações.
      Um bom resto de Entrudo, para vocês. Mesmo com chuva, fria, que não falte a alegria, João!

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  8. Uma vida de luta que tenho a certeza irá dar bons frutos no futuro.
    Mais uma partilha que me prendeu.
    Beijinhos José

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    1. Sim! Depois da tempestade vem a bonança. A vida é uma luta constante.
      Boa tarde, Manu!
      Beijinhos

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  9. Venho sempre aqui quando posso acabar de ler esta magnifica história..estou a adorar viver um pouco neste tempo e acompanhar o José neste longa batalha..entre o continuar ou largar..mas eu acho que ele ainda se vai dar muito bem :)

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