Vidas (12)

Continuação (12)


Entretanto, o patrão do José aproveitou a Feira do Ameixial, para vender as vacas e os bezerros. Acabadas as férias na Califórnia, voltou para casa, onde já estava o irmão, por ter tido alta do Hospital de São José. Foram os últimos dias, juntos, naquela casa. Passados uns dias, apareceu outro patrão. Desta vez, de uma localidade, no outro lado da Ribeira, no Algarve. Francisco disse-lhe que o filho ia guardar os porcos, mas que estava à espera de uma carta, para ele ir para Lisboa. Assim que chegasse, iria lá busca-lo imediatamente. A ceifa estava quase a começar, nesse ano a ceifa começou em Maio


A dez dias do fim do mês, quase ao fim do dia, estava o José, descontraído, a olhar pelos porcos, para que não comessem o trigo, quando avistou o pai, ao longe. Adivinhou o motivo da visita, Ficou feliz, mas ao mesmo tempo com receio do desconhecido


O pai chegou cansado, ainda eram uns bons quilómetros, não se demorou e seguiram para casa, queria que o filho tivesse tempo para descansar, porque no outro dia tinha de seguir para Lisboa


Aproveitou, enquanto caminhavam, para lhe enumerar todas as vantagens de ir para Lisboa. Sabia que a Alice não concordava que o filho fosse para tão longe, queria-o por perto, para vê-lo


No dia seguinte, levantaram-se cedo, ainda eram uns quilómetros até à Dogueno, primeira paragem, no Alentejo, da camioneta que fazia a carreira Faro, Lisboa. A prima tinha pedido para levar um laço, no bolso do casaco, para quando fosse esperá-lo, a Cacilhas, ser mais fácil o encontro


Quando se despediu, a mãe agarrou-o contra ela e não o deixava, até que o Francisco disse que tinham de se ir embora, senão perdia a camioneta. O José estava tão emocionado, que se esqueceu de despedir-se da irmã. A mãe disse:” não te despedes da tua irmã”! Voltou atrás e despediu-se da irmã. Parecia que a mãe estava com vontade que perdesse a camioneta


Eles a chegarem e a camioneta a aparecer do lado esquerdo, apressada. Francisco pediu ao condutor e ao cobrador se podiam tomar conta dele até Cacilhas, onde a prima o esperava


Almoçaram em Ferreira do Alentejo, onde as camionetas se cruzavam: a que vinha de Beja com a de Faro. Havia uma plataforma, onde as camionetas eram encostadas, para ser mais fácil e rápido trocar as bagagens e as mercadorias, expedidas. Naquele tempo, as camionetas tinham uma plataforma, no tejadilho, onde carregavam muitas mercadorias e bagagens, que eram presas com uma rede  


Quando o José saiu da camioneta e viu aquele casario, em cima do rio, ficou assustado. Em vinte e quatro horas tinha deixado o campo, e passado para a grande cidade. Foi uma mudança muito brusca


Pouco depois, chegou a prima dele, entraram no Cacilheiro e atravessaram o Rio. Tinha sido um dia muito intenso: todas as terras por onde a camioneta passou, passageiros a entrarem e saírem, aquele grande rio, finalmente a grande cidade. Caminharam a pé, pela avenida 24 de Julho, viraram para a rua São Bento, chegaram à rua dos Prazeres, paralela à rua de São Bento, onde a prima morava. Estava uma tarde maravilhosa, cheia de sol


No dia seguinte, subiram a rua da Imprensa Nacional, até ao Lugar de Frutas e Hortaliças, para onde ele ia trabalhar.  A futura patroa, disse para a prima dele: “ mais um para eu acabar de criar”


Quando o patrão chegou das compras, foram saber o que as freguesas necessitavam, apontavam num role, a seguir iam entregar-lhes o que tinham encomendado


No dia seguinte, o José foi sozinho, não foi fácil dar conta do recado. Por vezes, tocava na campainha errada. Pedia desculpa, continuava a sua tarefa de saber o que é que as freguesas queriam


Os primeiros dias, os primeiros meses foram muito difíceis. Os patrões eram do Distrito da Guarda, por vezes não se entendiam, parecia que estavam a falar línguas diferentes. As freguesas estavam, constantemente a emendá-lo, dizendo-lhe que não era lete, que era leite, que não era mantega, que era manteiga. O que fez com que tentasse pronunciar corretamente as palavras


Dois ou três meses depois, a mãe foi, a Lisboa, a uma consulta com o outro filho, na qual, os médicos decidiram que não o voltavam a operar. Quando se dirigiam os três, para verem o José, no Lugar de Frutas e Hortaliças, encontraram-no na rua da Escola Politécnica. Foi um encontro dramático, José caminhava debaixo de uma grande grade de madeira, onde, todos os dias, eram transportadas as hortaliças, dentro da grade vários cestos de fruta vazios, para serem devolvidos aos produtores. O José não se via, parecia que a grade e os cestos caminhava sozinhos. A Alice, ao ver o filho com a enorme grade às costas, disse que o levava com ela. A prima disse-lhe para, depois do jantar, ir a casa dela, para se despedir da mãe.


 


Continua


  


 


 


    


  


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


   


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


  


   


    


 


 


 


    

Comentários

  1. Lisboa de encantos e desencantados
    encantos

    Bom dia com alegria
    e em boa companhia
    que o frio, faz bem aos Namorados '.^`)

    Bom fim de Semana pra vocês José.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lisboa tem mais encantos que desencantos, para mim foi uma bonita flor, com alguns espinhos.
      Bom fim-de-semana de Namorados, para vocês!
      Mesmo que esteja frio, namorar é uma alegria!

      Excluir
  2. Grata por mais esta partilha, José! :))
    Dia Feliz!

    ResponderExcluir
  3. A continuação de um relato maravilhoso José, que me está a deliciar

    Beijinhos
    Feliz Dia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelas tuas encorajadoras palavras.
      Bom fim-de-semana, Luísa!
      Beijinhos

      Excluir
  4. Relatos lidos sempre com muito agrado, pelo descrição e lado emocional subjacente. Parabéns pela sua capacidade em contar aspetos da sua vida pessoal tão marcantes. Algumas realidades descritas tocam-nos também pelo lado experimental.
    Muita saúde e vontade de continuar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agradeço as suas amáveis e encorajadoras palavras.
      Bom fim-de-semana, com muita saúde.

      Excluir
  5. A tua memória é um portento.
    Beijinhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Deve ser da qualidade do disco rígido.
      Bom dia!
      Beijinhos

      Excluir
  6. Grandes mudanças para o José e família.
    Será que vai continuar em Lisboa?
    Fico ansiosa pelo próximo capítulo.
    Beijinhos José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sem dúvida, que foi uma grande mudança!
      Agradeço o seu interesse por estes relatos e desejo-lhe um bom fim-de-semana, Manu.
      Beijinhos

      Excluir
  7. Pobre José :(
    Lisboa, é uma grande cidade mas nem sempre é sinónimo de felicidade.
    Esperando...
    Bom fim de semana José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É uma encantadora cidade, e o melhor, de tudo, é que temos tudo à mão.
      Muito obrigado pela sua visita e interesse por estes relatos.
      Feliz fim-de-semana!

      Excluir
  8. Continuo a gostar imenso deste "Conta-me como era"...
    Parabéns José. Pela memória e pela forma de descrever.
    Obrigado.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  9. Bela continuação 😉 bom fim de semana. Abraço

    ResponderExcluir
  10. Realmente são partilhas cheias de história e de vidas! Faz viajar no tempo! Obrigada, escreves comuma imensa arte, meu amigo José! Muitos beijinhos, uma noite tranquila!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. As tuas palavras são estrelas, que me fazem sonhar. Mas, ao acordar, desço das estrelas fico no meu lugar, à distância das estrelas, para contigo ombrear.
      Boa noite!
      Beijinhos

      Excluir
  11. Está dramático (não li os episódios antecedentes). Mas o encontro na Politécnica não augura nada de bom...
    Assim o José não seja Dias, nem de Prazins...

    Cumprimentos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou muito grato, pelas suas sábias palavras!
      Resto de feliz domingo.

      Cumprimentos

      Excluir
  12. A nossa pronúncia sempre é mais charmosa...
    Os lisboetas também dizem numaro, piqueno... ao menos tiramos o i do leite e colocamos no café.
    Bom domingo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito mais charmosa. Mas, os alfacinhas moíam-lhe o juízo.
      Boa semana.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Lua Cheia

A candeia!