Vidas! (10)

Continuação (10)


 


José ficou algum tempo a saborear a liberdade de não saber o que ira fazer. Não foi por muito tempo, porque um vizinho, que tinha 4 ou 5 ovelhas, sem ter quem as guardar, propôs uma parceria ao Francisco: o José guardava as ovelhas, e os filhos que tivessem eram divididos pelos dois


Uma vizinha quando estava à porta, e ele passava Monte abaixo, atrás das ovelhas, dizia: “ andaste tu a estudar, para agora andares a guardar ovelhas”. José nunca lhe respondeu, seguia o seu caminho, na esperança de que um dia o vento mudasse


Ao fim do dia, quase todos os dias, juntava-se a um pastor, já com idade para se reformar, mas como o rebanho era dele, não achava jeito em o deixar. Dava-lhe o que tinha sobrado do seu almoço, para ele lanchar: pão com azeitonas, ou toucinho. Ambos gostavam daqueles encontros diários, falavam dos seus problemas e do que os rodeava


No inverno, um dia muito chuvoso, cruzaram-se logo de manhã, arranjaram um abrigo e mantiveram as ovelhas num espaço, onde havia uma planta, que podia não ser muito bem tolerada, pelos borregos, e ainda menos molhada: a alfavaca-dos-montes


Na manhã seguinte, quando se preparava para soltar as ovelhas, apercebeu-se que dois borregos tinham morrido. Sentiu-se culpado por o que tinha acontecido, devia ter ido para outro local, mas preferiu abrigar-se da chuva e estar todo o dia na conversa com o pastor


Foi dizer à mãe o que tinha acontecido, que lhe disse onde o pai estava a trabalhar, para o ir informar, para que os esfolasse e aproveitassem a carne, uma vez que tinham morrido de congestão, não tendo perigo para o consumo humano


Francisco não ralhou com o filho, mas disse-lhe que a parceria tinha acabado. A partir daquele dia, José estava desempregado, sujeito a qualquer momento ter de ir trabalhar para outro lado, o que implicava deixar a sua casa, deixar de ter contato diário com os irmãos e os pais


Foi o que aconteceu, passados alguns dias apareceu o primeiro patrão. José passou a ir a casa, só de visita. Foi o segundo corte umbilical. Com apenas dez anos perdeu, para sempre, o contato diário com os pais e os irmãos. Sentiu-se do afastamento, ter de viver em casas de pessoas, que não conhecia, como um intruso, sem carinho, apenas com a indiferença com que tratavam os criados


Um Senhor, que viva na sede da sua Freguesia, Santa Cruz, convenceu Francisco a que deixasse ir o filho guardar-lhe os porcos. Francisco não estava com muita vontade de o deixar ir, e foi dizendo que estava a ver se arranjava maneira de que fosse fazer a admissão ao Liceu. Ao saber do que o Francisco, para o filho, queria, o Senhor jugou a sua cartada, dizendo que na sua casa vivia a Professora Primária, que lhe daria explicações para fazer a admissão ao Liceu


Foi com uma falsa promessa, que o José foi arrancado do seu lar, para ir trabalhar. Lá foi, para Santa Cruz, para os porcos guardar, mais tarde ou mais cedo tinha de ser, o seu berço perder


O seu patrão e outros Senhores, de Santa Cruz, queriam implantar uma feira na sede da Freguesia. Para tentarem atrair os negociantes, ordenaram aos criados para que todas as quartas-feiras levassem os porcos, as vacas, as ovelhas, os machos, as mulas, as éguas, os cavalos, as burras e os burros para um largo à entrada da Freguesia


As semanas foram passando, mas os negociantes não apareceram, o sonho morreu, a ideia não deu, mas em alguns locais, foi assim que a feira nasceu


 Passado um mês ou mais, José estava com tantas saudades dos pais e dos irmãos, que, depois do jantar, disse ao patrão que ia visitá-los. Estava luar, meteu os pés ao caminho, deviam ser uns cinco quilómetros ou mais. Foi uma alegria voltar a vê-los, mas não se pôde demorar, porque tinha de voltar, para no outro dia trabalhar.  O pai perguntou-lhe se a Professora já lhe tinha começado a dar as explicações para a admissão ao Liceu. O José disse-lhe que ela nem sequer lhe dava os bons dias e boas noites. Francisco ficou irritado por ter sido enganado. Era uma pessoa muito séria. Educou os filhos, dizendo-lhes para não mexerem no que não era deles, nem fizessem aos outros o que não gostassem que lhes fizessem


Quando se despediram, disse-lhe que quando pudesse iria falar com o patrão dele.       


 


Continua


 


 

Comentários

  1. As agruras da vida
    e dos tempos José

    Bom dia
    boa Semana com alegria e saúde pra vocês.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Temos de enfrentá-las, porque os tempos vão e voltam!
      Uma boa semana, também, para vocês, com saúde.

      Excluir
  2. É tão doloroso conhecer estas histórias tão reais, tão ...
    A minha mãe também foi "servir" para Lisboa quando era uma criança, creio que nem os 10 anos tinha. Chorava todas as noites.
    É assustador pensar que isto aconteceu há tão pouco tempo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sei que é doloroso. Mas tento contar com toda a realidade. Lisboa estava cheia de criadas e criados, muitas vezes limpávamos as lágrimas uns aos outros, quando partilhávamos os nossos problemas.
      Boa noite!

      Excluir
  3. As crianças eram "arrancadas" de casa dos seus pais para irem trabalhar tão novos ... isso era muito comum aqui na Madeira
    Estou a agostar imenso ...
    Beijinhos José
    Feliz Dia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os pobres não tinham possibilidades de pagarem a continuação dos estudos.
      Muito obrigado pelas tuas amáveis palavras!
      Feliz noite, Luísa!
      Beijinhos

      Excluir
  4. Grata por mais esta partilha, José! :))
    Boa semana!

    ResponderExcluir
  5. Logo desde muito cedo que se iniciava a vida profissional

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. As famílias mais pobres não conseguiam pagar a continuação dos estudos.
      Boa semana!

      Excluir
  6. A vida por vezes traz mudanças que não são de todo os que esperamos e há muitas desilusões.
    Tenho a certeza que depois da tempestade vem a bonança.
    Vou ficar ansiosamente à espera da continuação.
    Beijinhos José

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. " Não há mal que sempre dure, nem bem que sempre perdure"
      Agradeço o interesse e as visitas.
      Feliz noite, Manu!
      Beijinhos

      Excluir
  7. As infâncias perdidas que muitos nem sequer imaginam.. :-(

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foi isso que me levou a escrever isto, com lágrimas.
      Boa noite!

      Excluir
  8. Os tempos mudam. ás vezes parece que nos queixamos de barriga cheia.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ainda bem que os tempos mudam. Desejamos que seja, sempre, para melhor.
      Boa noite!

      Excluir
  9. Ficamos aguardando a conversa do Francisco com o patrão do José, diz o Francisco!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Em breve saberemos.
      Muito obrigado pela visita.
      Um bom dia com saúde e alegria!

      Excluir
  10. Como sempre, tão bom de ler! Gosto tanto destas tuas historias de vida, obrigada pela partilha! Muitos beijinhos meu amigo, um dia lindo para ti!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agradeço as tuas lindas palavras e espero que tenhas tido um lindo dia!
      Feliz noite, Sandra!
      Beijinhos

      Excluir
  11. Esperando que o José tenha finalmente o futuro que merece

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelo interesse demonstrado!
      Feliz noite!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Lua Cheia

A candeia!