Vidas (4)

Continuação   (4)  


 


José agarrou na arreata da burra e meteu-se ao caminho, nunca mais se lembrou do aviso do moleiro


Os seus pensamentos estavam embrenhados no que tinha lido na carta do pai. Perguntava a si mesmo quantos quilómetros seriam do seu Monte a Beja, quantos dias teria andado até lá chegar, tudo perguntas que teriam de esperar, e era preciso que tivesse coragem para as fazer


Quando deu por conta já o saco tinha caído. Como colocar o saco em cima da burra, se ela era mais alta que ele, e ainda tinha de elevar os quinze quilos!


Procurou uma rocha, onde colocou o saco, encostou a burra à rocha, pegou no saco para o pôr em cima dela, mas esta desviou-se: uma, duas, três vezes, só à quarta tentativa é que conseguiu colocar o saco em cima da burra. Estava exausto. Até chegar a casa, foi sempre com atenção, quando o saco ia mais para um lado, lá ia ele endireita-lo


A mãe estava preocupada com a demora. Mas assim que chegou explicou-lhe o que se tinha passado. Estava tão cansado que foi imediatamente para a cama


A mãe ainda peneirou a farinha nessa noite. Queria amassar bem cedo, já tinha ido pedir fermento a uma vizinha


No outro dia, quando chegou da Escola, já havia pão quente, o cheiro tinha perfumado a casa, parecia que tinha começado uma nova era


Alice estava grávida pela terceira vez. Tinha receio que o marido não viesse antes do parto. Desejava que fosse uma menina, para ajudar na lida da casa. Já tinha dito muitas vezes, ao José, que se fosse uma rapariga já a poderia ajudar. Assim, com dois rapazes, tinha de fazer a lida da casa sozinha


 


A Escola recebeu o equipamento escolar em Fevereiro ou março, transportado numa carroça da Camara Municipal de Mértola, com dois funcionários, puxada por um macho


Os funcionários descarregaram tudo e colocaram nos devidos lugares. No topo norte o estrado, com a cadeira e secretária da professora em cima, à esquerda do lugar da professora, na parede o quadro preto, por cima o cruxifixo e o quadro com a fotografia de Salazar, ao lado do grande quadro preto o mapa de Portugal, em cima da secretária um globo, junto do quadro uma caixa de giz e um apagador, no resto da sala colocaram as carteiras com os tinteiros brancos embutidos e as cadeiras. Foi um dia inesquecível!


A professora era um pouco austera. Quando estava a ensinar a fazer os números disse, ao José, que o nove era uma bolinha com um pauzinho do lado direito, mas ele colocava sempre o pauzinho do lado esquerdo, até que ela deu-lhe uma bofetada, e ele nunca mais colocou o pauzinho no lado esquerdo


O José era canhoto, mas o pai atalhou-lhe o braço esquerdo ao pescoço. A mãe só lhe contou quando ele já tinha 50 anos, depois de o ouvir tantas vezes dizer, por que razão não era capaz de fazer um risco direito, nem com a régua e o esquadro, quando lhe encostava o lápis, cada um ia para seu lado, não consegue fixar um caminho, nem que passe por lá cem vezes, ela não resistiu e contou-lhe o segredo


Todo o outono e inverno na escola, de manhã e de tarde, não tinha tempo para brincar com o irmão, como fazia dantes. Com seixos brancos imaginavam grandes rebanhos de ovelhas, onde não faltavam os carneiros, os cães, os borregos e o pastor


Nas manhãs frias de inverno, quando a superfície do ribeiro, que rodeava acourela, congelava, descalços, mal agasalhados retiravam, os dois, com muito cuidado, a maior superfície que conseguiam e colocavam-na ao sol, chamando-lhe: tirar espelhos  


Na margem do ribeiro havia uma laje, muito a pique e muito lisinha, utilizavam-na como escorrega. Mas para não estragarem as calças, arrancavam duas esteva e sentavam em cima delas, deslizavam pela laje abaixo, atingindo uma boa velocidade


 


O pai do José regressou, ainda antes de Maio, mas não tem registo de reencontro entre ele e a mãe, se calhar estava a dormir. De manhã quando acordou para ir para a Escola, o pai apertou-o contra ele e beijou-o. Não se esqueceu de perguntar como iam os estudos


A mãe, prestes a fazer 25 anos, no primeiro de maio, ainda que na cédula esteja escrito 12, como acontece com ele e o irmão, em que ele nasceu a 5 e está 15, já o irmão nasceu a 17 de Julho e está 10 de setembro, estava quase no fim da gravidez


Numa radiosa manhã de Maio, quando se preparava para ir para a Escola, a mãe disse-lhe que não podia ir, porque o pai já tinha saído para o trabalho, e ele e o irmão tinham de ir a casa da vizinha, dizer-lhe que viesse imediatamente, e que ficassem lá a brincar com a filha dela


Entretiveram-se na brincadeira, nem deram por o tempo passar, quando ela regressou e lhes disse: “ já podem ir para casa, já têm lá uma mana”, correram para casa.


   Continua


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


    


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


  


 


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. "o cruxifixo e o quadro com a fotografia de Salazar, ao lado do grande quadro preto o mapa de Portugal, em cima da secretária um globo, junto do quadro uma caixa de giz e um apagador, no resto da sala colocaram as carteiras com os tinteiros brancos embutidos e as cadeiras."

    Boa memória José
    mas
    falta a régua das reguadas
    que até as mãos ferviam
    de calor e bem dadas pffiiiiiuuu que assobiavam.

    Já não me lembrava da disposição das Salas.

    Parabéns à memória dos tempos
    bom e feliz dia com alegria, já que tristezas
    outras tantas temos agora.

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    1. Bom dia, João! A régua, pediu a um aluno, que lhe arranjasse uma, e ele caiu na asneira de a arranjar, parece-me que foi o primeiro a experimenta-la.
      Um feliz dia para vocês!
      Ai não que não ferviam! Uma vez foram 12 em cada mão, e como, nessa ocasião, a escola era ao lado da minha casa, nem conseguia agarrar o garfo, e a minha mãe a perguntar-me o que é tinha acontecido.

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  2. É sempre com imenso gosto que leio estas " Vidas". Sabe muito bem viajar pelas tuas palavras que encantam, meu amigo! Um dia lindo para ti e cheio de inspiração!

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    1. Muito obrigado pelas tuas palavras, que não encantam menos!
      Um feliz dia, Sandra!
      Beijinhos

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  3. Caro amigo
    Estou a gostar muito de ler as suas memórias. Aprecio muito a sua maravilhosa escrita que nos consegue transportar para esses tempos. Aguardo a continuação.
    Um bom dia para si.
    Bjs

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    1. Muito obrigado, cara amiga! Pode ser que um dia, os filhos, os netos ou os bisnetos tenham curiosidade em ler estas memórias.
      Um bom dia também para si.
      Beijinhos

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  4. Como imagino que seja autobiográfico, espero que estas memórias sejam preparadas para os netos virem a lê-las e a conhecerem uma época tão diferente da que eles vão conhecer.
    Continua a ser muito boa esta leitura.

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    1. É isso mesmo, Isabel! Normalmente, só depois das pessoas nos deixarem, é que nos surgem as dúvidas, as perguntas, o interesse.
      Um bom resto de dia para ti!
      Beijinhos

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  5. Mais uma perfeita descrição de como era a escola nesses tempos...até eu voltei a entrar na minha antiga sala de aula....obrigado José pela lembrança...:)))) abraço

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    1. Eu é que agradeço o interesse!
      O mobiliário era todo igual, só que a minha sala de aulas foi em duas casas particulares. Na minha zona, quando começaram a construção dos edifícios escolares, fins dos anos cinquenta, já tinha perdido o meu Alentejo.
      Bom resto de dia!
      Um abraço

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    2. Há uma coisa engraçada...nasci em Lisboa, mas as minhas raízes estão em Castro Verde...afinal muito perto do desenrolar da sua história...abraço

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    3. Sim. Fica no mesmo Distrito, faz fronteira com o meu Concelho, que é o de Almodôvar.
      Um abraço,

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  6. Excelente partilha, José!
    Muito Obrigada! :))
    Dia Feliz!

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  7. Esto a amar a vida do José
    A minha sala de aulas era igual à tua

    Beijinhos José(L)]
    Feliz Dia

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    1. Naquele tempo o País era pobre! Só fizeram um projeto, depois foi só montar. Ainda bem que estas a amar.
      Feliz resto de dia, Luísa!
      Beijinhos

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  8. Estou a gostar muito de ler estas suas memórias.
    Devia compilar tudo para deixar aos descendentes...vivemos hoje tempos tão diferentes que é de uma riqueza extrema termos estes testemunhos tão completos em primeira mão.
    Consegue transportar-nos para esses tempos.
    Obrigada.

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    1. Agradeço as suas amáveis palavras. Muito obrigado pela sugestão da compilação.
      Feliz resto de dia!

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  9. A seguir com entusiasmo.


    A discriminação e a proibição de ser canhoto era hedionda, conotação associada a uma deficiência. Fica-se com marcas pois estão a reprimir e a contrariar a mensagem que o cérebro transmite para se usar a mão esquerda e não a mão direita. A adaptação não é fácil, e nem sei se se há uma adaptação total.
    Mesmo nos anos oitenta as professoras perguntavam aos pais se queriam que os filhos fossem canhotos.

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    1. Tem razão! Acho que fiquei com muitas mazelas, para toda a vida. O meu filho é canhoto, nunca pensei em contrariá-lo. Não me lembro se as professoras nos perguntaram alguma coisa. Todos os anos nos chamavam para nos dizerem que não percebiam a letra dele, mas passou sempre.
      Feliz noite!

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  10. Estou acompanhando, com muito gosto, esta sua "Novela da Vida Real". Em muitas coisas também me revejo no que conta. Também fiz toda a Escola Primária no tempo de Salazar. Mas com Professoras excelentes, de quem guardo boas memórias. E que muito me ajudaram e incentivaram a estudar.
    Obrigado pelas suas narrativas.
    Votos de muita Saúde!

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    1. As minhas professoras também foram excelentes, para a preparação que tinham. Tive uma que nos deu aulas aos sábados e domingos . Só iam a casa nas férias do Natal, Pascoa e férias grandes. Estavam "presas" naqueles Montes, onde nem sequer havia uma pequena mercearia, nada. Não se podiam casar sem a autorização do Ministro da Educação. Estou-lhes muito grato!
      Um abraço, caro amigo.

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  11. E era assim...as meninas eram sempre para as lides domésticas e os rapazes para o trabalho..Assim era o nosso passado.
    Estou a gostar bastante

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    1. É essa tradição que tem feito com que muitos homens não partilhem as lides domésticas com as companheiras.

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