Vidas! (3)
Continuação (3)
No ano em que o filho mais velho fez seis anos, num Monte a dois quilómetros, começou a funcionar um posto escolar
Um casal cedeu uma casa, onde funcionava a Escola e vivia a professora
O equipamento da sala de aula eram meia dúzia de cadeiras e uma mesa
Estávamos em outubro de 1951
Só a quarta professora, das que visitaram o local, aceitou trabalhar naquelas condições!
Eram conhecidas por professoras regentes, só tinham a quarta classe e um pequeno estágio
O País estava envergonhado por ter quase cem por cento de analfabetos
Com o fim da segunda guerra mundial, o mundo deu um salto tecnológico, Portugal foi confrontado e muito criticado por ter tantos analfabetos
Era preciso criar postos escolares, mesmo em casas particulares, como a que funcionava na casa onde ele nasceu
Estas professoras não podiam casar sem a autorização do Ministro da educação
Dedicavam-se muito à sua profissão
Queriam que os seus alunos, quando fossem, às Escolas das professoras oficiais, fazer as passagens da primeira para a segunda ou da segunda pra a terceira classes, brilhassem, querendo o mesmo nos exames da terceira para a quarta classe e no exame da quarta classe, que constava de duas partes: primeiro a prova escrita, mais tarde a prova oral, normalmente, tinham lugar na sede de Concelho
A primeira professora, do José, era uma rapariga muito determinada. Quando aceitou criar aquela Escola, fê-lo com o propósito de tudo fazer para que os pais compreendessem, o quanto era importante mandarem os filhos à Escola
Não foi fácil, estavam habituados a contar com o seu trabalho para a casa, ou ajustavam-nos para trabalharem para os grandes latifundiários
Passado um mês do início das aulas, vendo que não aparecia mais ninguém, não chegavam a uma dezena, uma manhã, decidiu ir com eles a um Monte, não muito longe
Lá foi ela, com os alunos atrás, parecia uma galinha com os pintos. No caminho, encontrou um homem com o filho a trabalharem na horta
Depois de os cumprimentar, perguntou ao homem se não sabia que era obrigatório mandar o filho à Escola, e ele respondeu: “se lhe der de comer”
Seguiram o seu caminho, para o Monte, onde, junto das mulheres tentou fazer-lhes compreender quanto era importante mandarem os filhos à Escola
Uma manhã, pouco depois do José sair para a Escola, um homem bateu à porta, perguntou se era a Alice, entregou-lhe uma carta, dizendo que o marido lhe tinha pedido para lhe entregar a carta, e que ele estava bem.
Alice virou e revirou a carta, tinha três selos de lacre no verso, com o formato e a face duma moeda, para que ninguém a abrisse, era muito usual, quase sempre, por exigência do portador
Abriu o envelope, retirou a carta e duas notas, uma de vinte e outra de cinquenta escudos, concentrou-se na carta, sentiu uma grande tristeza por não saber ler, depois alegrou-se por o filho já conseguir ler, não precisava de ir pelo Monte, perguntar quem é que sabia ler, expor a terceiros as palavras intimas, que com certeza o marido lhes tinha dedicado, a ela e aos filhos
Admirou a letra, desenhada, do Francisco, tão bonita! E ela sem saber o que dizia, pensou no que teria passado até arranjar trabalho
Por um lado, gostava que o homem tivesse chegado ao mesmo tempo do José, para ele lhe ler a carta e saber, imediatamente, o que estava ali escrito
Por outro lado, estava tão feliz por ter passado o dia a mexer naquele papel, que o Francisco tinha escrito, tinha o cheiro dele, apertou-o ao peito, sentiu as suas impressões digitais
Quando o filho chegou, correu para ele, beijou-o e disse-lhe que o pai tinha mandado uma carta, por um homem que tinha estado a trabalhar com ele, que lhe bateu à porta, mal ele tinha saído
Pediu-lhe se a conseguia ler, porque estava tão ansiosa por saber o que dizia. José ainda soletrava as letras, mas conseguiu lê-la, toda. Dizia que esperava estivessem todos bem.
Encontrara durante os muitos dias que levou a percorrer quase todo o Distrito, pessoas que lhe deram de comer e arranjaram onde dormir. Em cada Monte, ia pergunta se sabiam de alguém que precisasse de um trabalhador.
Quando se aproximava a noite, as pessoas perguntavam-lhe onde é que ia dormir, e ele aproveitava para lhes pedir se não tinham um palheiro onde pudesse ficar. Não só lhe arranjavam onde dormir, como acabavam por lhe dar a ceia. No dia seguinte continuava a sua caminhada, alguns, ainda lhe davam um bocado de pão e umas azeitonas, para comer pelo caminho, até encontrar nova povoação.
Ao chegar perto de Beja, encontrou um Senhor que tinha um olival para limpar. Assim que acabasse o trabalho, que faria em poucos dias, voltaria, porque queria ajustar uma empreitada para a ceifa, como fazia todos os anos.
Assim que acabou de ler a carta, a mãe mostro-lhe as duas notas, pedindo-lhe que levasse a nota de cinquenta escudos, que fosse, com a burra, comprar uma arroba de farinha de trigo, ao moinho do Pizão, que ficava na margem esquerda da ribeira do Vascão.
Disse-lhe para não se demorar, porque ainda queria peneirar a farinha, para no dia seguinte cozer pão, que há tanto tempo, por todos era desejado
O José montou-se na burra e dirigiu-se ao moinho, que ficava a uns três quilómetros. O moleiro era um senhor já de idade. Pesou a farinha, colocou o saco em cima da burra e avisou-o de que o saco podia cair, porque não o podia amarrar, sem uma albarda.
Continua
José, aqui ficamos em ânsias...
ResponderExcluirBeijinho
Não vale a pena! Mas as tuas palavras obrigam-me a tentar fazer melhor.
ExcluirFeliz dia!
Beijinhos
Continuo a seguir, com muito entusiasmo! :))
ResponderExcluirObrigada pela partilha, José!
Dia Feliz!
Agradeço as amáveis palavras, Zé!
ExcluirFeliz noite!
Estou muito entusiasmada com esta história maravilhosa José
ResponderExcluirA tua história???
Beijinhos
Feliz Dia
Fico muito contente, Luísa!
ExcluirFeliz noite!
Beijinhos
Muito bonito. É quase uma novela. De tempos antigos. "Uma albarda": é o que alguma gente anda a querer pôr às costas. Muita Saúde é o que desejo a si e a todos os/as leitores/as
ResponderExcluirAgradeço as suas amáveis palavras. Há burros que não usam albarda, querem passar
Excluirdespercebidos.
Muito obrigado pelos seus cuidados. Também lhe desejo muita saúde.
Boa noite!
Muito interessante José....um perfeito retrato de um tempo que não está assim tão distante...parabéns...acredite que me trouxe um monte de recordações...:)))abraço
ResponderExcluirAgradeço as suas amáveis e encorajadoras palavras.
ExcluirBoa noite!
Um abraço
Olá
ResponderExcluirNa aldeia da minha mãe também havia escola com Regente, só tirou a 3a classe porque na altura dela o exame era pago e os pais não tinham dinheiro, eram muitos filhos e muita pobreza.
Quando frequentei a escola não se pagava. Havia era muitos pais que não mandavam os filhos à escola, e outros que os tiravam , na primavera, para irem trabalhar.
ExcluirBoa noite!
Na aldeia da minha mãe também, não chegavam a ir à escola para trabalhar. A minha mãe fez a 3a classe em 2 anos, mas tinha irmãs mais velhas que não foram à escola, aprenderam a ler e escrever com as mais novas.
ExcluirUm resto de boa noite.
No tempo dos meus pais não havia, na nossa região, escolas públicas. Havia Mestras que ensinavam, mas eram pagas. O meu pai sabia bem ler escrever e fazer contas, já a minha mãe só foi uma vez à Mestra, porque teve de tomar conta dos irmãos. Tive a sorte da escola começar no ano em que fiz seis anos, e suponho que entrei porque não chegávamos a um dezena, o normal era entrarem aos sete anos.
ExcluirQuando falo em escola, é aulas com Regente. A escola pública apareceu muitos anos depois e na sede na Freguesia.
ExcluirNa minha região e no meu tempo as regentes eram professoras que ensinavam em postos escolares, acho que oficialmente era assim que se chamavam. E íamos fazer as passagens da primeira para a segunda e da segunda para terceira classes na escola da
Excluirprofessora oficial. Havia exames da terceira e quarta classes, mas eram diferentes: o da terceira era uma prova escrita, enquanto o exame da quarta classe tinha uma prova escrita e num outro dia uma prova oral.
Cheguei a ouvir falar das regentes.
ResponderExcluirUma autêntica novela, estou a gostar de ler e ansiosa pelo desfecho.
Boa noite José
Beijinhos
Muito obrigado pelo interesse!
ExcluirFeliz noite, Manu!
Beijinhos
Fico à espera da próxima parte
ResponderExcluirBoa noite.
Muito obrigado pela visita e pelo interesse!
ExcluirFeliz noite!
Oh José adoro histórias cativantes e esta é uma delas..
ResponderExcluirVou agora continuar a ler e que delícia que vai ser.
Obrigada