Vidas! (2)

Continuação     (2)


Francisco tinha cumprido o Serviço Militar, estivera na fronteira do Alentejo, aquando da guerra civil de Espanha. Num dos exercícios, enganaram-se nas coordenadas, quando dispararam o canhão racharam uma oliveira centenária, que o Exército teve de pagar. Tinha comprado, em Évora, um livro de história, para ler nos tempos livres


 Como impedido, dum Capitão, tinha estado em Mafra, enquanto o oficial frequentou um curso de metralhadoras pesadas


Costumava dizer: “que na tropa, nem bom cavalo, nem bom cavaleiro”


Quando saiu da tropa, foi para São Miguel do Pinheiro, para aprender o ofício de ferreiro e ferrador. Sonhava com a possibilidade de abrir uma oficina de ferreiro e ferrador


Era o homem dos sete ofícios. Sabia fazer todos os trabalhos do campo: lavrar, semear, tirar a cortiça, limpar as árvores, para além de fazer cestos e cadeiras


Trabalhou na construção do aeroporto de Faro, e em estradas. Era um especialista a dinamítar as rochas, por isso era muito requisitado para trabalhar  na construção de estradas


Queria, acima de tudo, quando se casasse, um trabalho, que lhe permitisse estar por perto da mulher e dos filhos


 


Quatro anos depois do nascimento do José, Alice teve o segundo filho


Enquanto o bebé dormia, aproveitava para adiantar o trabalho fora de casa


Numa tarde, aproveitou para ir mondar, atrás da casa, pediu ao José para quando o irmão acordasse, que a chamasse


Mas, em vez de a chamar, começou a embala-lo para que se calasse, quanto mais ele chorava, mais ele baloiçava o berço, até que o virou por cima do irmão


Muito atrapalhado, foi chamar a mãe. Felizmente, como tinha muita roupa, o bebé não sofreu nada, a não ser o susto de ter ficado debaixo daquilo tudo


No intervalo das aulas, juntava-se com os alunos, querendo entrar nas brincadeiras deles. Uma vez, andaram com ele à roda até cair de tonto


De outra vez estava à porta do prédio, quando viu, um homem mascarado com cortiça queimada e uns grandes dentes de cana, ao fundo da rua, a caminhar na sua direção, fez-lhe sinal para não dizer nada. Quando o mascarado entrou na sala de aula, que tinha a porta aberta, José entrou a atrás dele, e viu alunos e alunas a saltarem para cima das carteiras


A professora tirou-lhe a primeira fotografia, já devia ter dois ou três anos


Viviam com muitas dificuldades, só tinham o que conseguiam arrancar da terra. Uma terra muito pobre, nas fraldas da serra do Caldeirão


Uma terra ótima para o montado de sobreiros, onde é tirada a melhor cortiça do mundo


Tirada, no mínimo, de 9 em 9 anos, são precisos muitos sobreiros, para conseguir uma boa renumeração


 Cada vez com mais dificuldades, desesperados, resolveram ir para o Concelho de Mértola, onde o pai do Francisco tinha umas casas, duas cercas, uma horta e uma courela 


 Mas, a miséria e a fome continuaram na mesma ou ainda pior. Os filhos andaram descalços até irem para a Escola, num clima, com grandes amplitudes térmicas


as solas dos pés eram tão grossas como as solas das botas, tendo de se adaptarem à geada do rigoroso inverno frio e ao calor demasiado do verão


Francisco não desistia do seu sonho. Como a casa tinha uma porta grande para a via pública, decidiu abrir a oficina de ferreiro e ferrador


Comprou um fole de ferreiro, uma bigorna, tenazes para segurar o ferro em brasa, enquanto moldava as ferraduras, carvão de pedra ……..


Mas a clientela era pouca, de longe-em-longe, uma besta para ferrar, uma ponta de charrua par afiar


Acabou por ter de fechar a oficina, não ganhou para o pagamento do equipamento


 Um ano, em fevereiro, desesperado, sem trabalho, despois do almoço, agarrou numa saca e uma manta velha, despediu-se e foi à procura de trabalho


 Alice ficou com os filhos pendurados às saias a pedirem de comer, só tinha couves, que era o que havia na horta, e que comiam todos os dias


O filho mais velho farto das couves, foi muitas noites para a cama, sem comer, dizendo que não tinha fome, porque não queria magoar a mãe


Ela sabia que ele já não queria ou não conseguia comer todos os dias, às duas refeições, couves. Mas não dizia nada


De vez em quando pedia emprestado, um pão, às vizinhas. Quando cozesse pagava-os


Passava as noites a fiar linho, para ver se ganhava alguma coisa, mas era um dos trabalhos mais mal pagos


Às vezes, chamavam-na para ir mondar, às tardes, pagas a 4 escudos cada, mesmo assim, muito poucas


Naquela triste miséria, também a preocupava o facto de nunca mais ter sabido nada do marido


Nem se estava vivo, se tinha arranjado trabalho, como teria vivido até arranjar trabalho


Já tinham passado quase  dois meses, e, ele sem dar novas, nem notícias.


Continua.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Seguindo...
    Abraço,

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  2. Como adoro estas histórias sobre vidas! Quantos detalhes e descrições, é impossível parar de ler! Beijinhos, meu amigo querido, um dia lindo para ti

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    1. Tantas palavras bonitas! Não sei como te agradecer.
      Feliz resto de dia, Sandra!
      Beijinhos

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  3. Uma vida difícil muito bem contada.
    Bom dia José!
    Beijinhos

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    1. Sem dúvida, muito difícil!

      Boa tarde, Manu!
      Beijinhos

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  4. Estou a adorar esta história José
    É a tua história?

    Beijinhos
    Feliz Dia

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  5. Relato sobre um Portugal e Mundo de miséria, a que alguns parecem querer que voltemos. Saúde: Muita e da boa!

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    1. Temos de estar atentos, para ver se não nos deixamos enganar. Mas temos de exigir aos Governantes, que não abandonem o Interior, que haja justiça e menos corrupção. Oxalá lhes tenha servido de lição!
      Boa tarde e muita saúde!

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  6. Conseguindo imaginar cada detalhe, cada dor naquela altura.
    Hoje desperdiça-se o que muita já fez no estomago de alguém.
    E as esperas por noticias ...as cartas que nunca chegavam..as noticias..
    Á espera de saber a continuação...
    Resto de dia feliz.

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    1. Não havia a facilidade que há hoje, com comunicações rápidas e sempre à mão, tinham de ter muita resistência e paciência, para aguentarem tanta espera.
      Boa tarde!

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  7. Uma Vida Muito sofrida! :((
    Grata pela partilha, José!
    Resto de dia Feliz!

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  8. Um retrato do alentejo antigo...onde ao contrário do norte as pessoas tinham reduzidas possibilidades de sobrevivência...eram (e são) as grandes herdades e ditar as regras...abraço

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    1. Dum Alentejo há três quartos de século. O grande problema deste País, parece não ter solução. O interior foi abandonado, ficou despovoado, ninguém é capaz de reverter este estado.
      Um abraço
      .

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  9. Eram tempos desgraçados José

    Bom e belo dia para vocês, com alegria.

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    1. Bom dia , João! Muito obrigado pela visita matinal.
      Também vos desejamos um feliz dia, com saúde e alegria.

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  10. Ai que me atrasei... mas cheguei ainda a tempo.
    Vou ler a parte três.

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