A martelo

Mazelas da guerra


   Vinho feito a martelo


 


Continuação


 


Como de vez em quando íamos a General Machado, aproveitávamos para saborear o prato preferido e esquecer o rancho e as rações de combate


Um belo dia, estávamos sentados num restaurante, a saborearmos os pregos, quando demos conta, na mesa ao lado, dois senhores revelavam como fazer vinho a martelo, cuja receita era: água, álcool, barro e palha


O barro para dar a cor e a palha o sabor, e temos um vinho que é um amor


De outra das vezes que fomos a General Machado, acompanhou-nos um Sargento, que fez uma paragem numa oficina auto, para pagar um bidon de 200 litros de lubrificante


De seguida mandou-nos subir para a viatura, e eu disse-lhe que faltava carregar o bidon, ao que me respondeu: “não é para carregar agora”


Algum tempo depois, fui à secretaria, tratar já não sei de quê, e o Sargento disse para um Soldado: ” o Furriel Costa, é que podia ajudar aqui na Secretaria”, ao que lhe respondi, que a minha esferográfica era a G3


Quando fui marcar as férias de 1971, ele disse-me: “sabe, acabamos a comissão em agosto, nem todos podemos gozar os 30 dias, só pode gozar 10 dias”


Aproveitei para ir conhecer o Lobito e Benguela. Fui de boleia, de um camionista, de Nova Lisboa ao Lobito, dois mil quilómetros a descer, quase só falámos da situação em Angola, ambos estávamos de acordo que tinha de se encontrar uma maneira de acabar com a guerra


Passámos por uma plantação de cana-de-açúcar, a perder de vista, da Companhia Agrícola do Cassequel, e uma outra de sisal


No Lobito, fiquei alojado na FNAT- Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, era o hotel mais barato


Fiz amizade com dois civis, foram umas férias agradáveis


A temperatura da água do mar devia rondar os 30 graus, ficávamos 3 ou 4 horas dentro de água


Tínhamos o cinema Flamingo, onde todos os dias íamos ao cinema, no salão de entrada estavam em exposição automóveis Japoneses. Junto existia uma colónia de flamingos


O calor era quase insuportável, não conseguíamos dormir, tomávamos banho antes de nos deitarmos, não nos enxugávamos, mas mesmo assim não conseguíamos adormecer


Um dia resolvemos ir dormir para a praia, levámos os lençóis, dormimos como pedras, foi uma experiência maravilhosa


Dedicámos um dia para irmos conhecer Benguela, que não fica muito longe do Lobito


O Lobito tem um porto de águas profundas, um dos melhores de África


No regresso utilizei o Caminho de Ferro de Benguela, construído entre 1903 e 1929, com uma extensão de 1.345 km, atravessa Angola de Este a Oeste


 


Foram umas 12,13 horas, para vencer a distância entre o Lobito e General Machado. Não sei quantas carruagens puxadas por uma máquina a vapor, em todas as estações carregavam lenha, para alimentar a caldeira


No início utilizaram a floresta autóctone, mais tarde tiveram de fazer plantações de eucaliptos, junto de cada estação.


Enquanto estivemos no Umpulo, fizemos diversas operações, numa delas fomos transportados de helicóptero, nos pumas, não podíamos levar mais de 20Kg de equipamento


Optei por não levar mantas, levei só dois panos de tenda, bem me arrependi


Só conseguia dormir até à meia-noite, enquanto a terra estava quente, depois tinha de me levantar e fazer exercícios pra aquecer


Outros cortaram nos mantimentos, enquanto eu levei um saco de plástico com pão


No último dia da operação, de manhã, quando estávamos a tomar o pequeno-almoço, o Capitão, que já não tinha quase nada para comer, viu o saco com umas migalhas de pão, pediu-mas para fazer umas sopas


Quando os dois helicópteros abordaram o acampamento que íamos atacar, saltámos de uns dois metros de altura, o carregador, da minha G3, saltou da arma, o que prova que o equipamento estava velho e cheio de folgas, valeu-nos o inimigo já se ter ido embora, tinham queimado tudo, ainda havia algum fumo


Era difícil manter as operações em segredo, para mais tínhamos uma povoação por perto


Uma meia-dúzia de miúdos, começou por pedir os restos para comerem, mas com o tempo foram ficando todo o dia no acampamento, lavavam os pratos aos soldados, quem é que não gosta de criados!


Depois, um condutor passou a levá-los, todas as noites, à povoação


Passado algum tempo, a viatura acionou uma mina, e um dos miúdos ficou com os dedos, de uma mão, cortados


Foram feitas algumas prisões, gerou-se um mal-estar, um Furriel, para chamar à atenção, encostou a G3 à face e disparou para o ar, ajudando a desanuviar o ambiente


Nunca mais acionamos nenhuma mina!


As minas são das coisas piores que inventaram. Há muito que falam em proibi-las, mas parece-me que nunca chegarão a acordo


De vez em quando, infelizmente, aparecia alguém com um pé desfeito ou a pedirem-nos para desativarmos minas antipessoal, que tinham detetado


Constituídas por 200 gramas de trotil, um detonador e uma caixa de madeira têm causado tantos mutilados


Angola foi muito martirizada com a “sementeira” de minas antipessoal, ao ponto da Princesa Diana se interessar pelo drama dos mutilados, fomentando e patrocinando o fabrico de próteses, causa, que um dos seus filhos tem continuado a apoiar


Nós, felizmente, nunca acionamos nenhuma mina antipessoal, porque desde a instrução, que todos estávamos bem avisados para nunca utilizarmos trilhos, por muito trabalho que dessem a abrir: cortar a vegetação, com uma catana, para podermos caminhar, era preferível que perder um pé, nem nunca utilizámos os nossos trilhos mais do que uma vez


Os meus camaradas de curso, que tiveram as notas mais baixas, foram os escolhidos para tirarem um curso de minas e armadilhas, em Tancos.


Continua


   


 


 


 


 

Comentários

  1. Brutal!
    Um Abraço,

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    1. Estou muito grato, por estar a seguir estes relatos.

      Um abraço,

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  2. Mais um relato para não esquecer
    Tive amigos que estiveram no Ultramar e que nos contaram situações parecidas
    Gostei muito

    Beijinhos
    Feliz Dia

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    1. É pena que este período da nossa História não seja divulgado e estudado. Nós tivemos muita sorte. Mas em muitos acampamentos, principalmente na Guiné, mal saíam dos abrigos subterrâneos choviam balas e granadas de morteiro, fazendo muitos mortos e estropiados.

      Feliz dia e bom fim-de-semana!

      Beijinhos

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  3. Dá gosto ler, mas ao mesmo tempo dói. É, certamente, penoso lembrar. As guerras não têm qualquer sentido. Só ganha quem as "alimenta".
    Muita Saúde!

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    1. É muito penoso voltar a lembrar tudo isto, mas ao mesmo tempo é bom que todos saibam que a guerra, nas Colónias, provocou muitas mortes, muitos estropiados, e continuamos a pagar, em atraso, o que na guerra foi desperdiçado.

      Bom fim-de-semana!

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    2. Sempre que possa e se sinta com capacidade, relate os acontecimentos que viveu. É uma parte da nossa História, que faz parte da sua história de Vida.
      Saudações amistosas.

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    3. Muito obrigado pelas encorajadoras palavras.

      Boa noite!

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  4. Grata pela partilha, José! :))
    Bom fim-de-semana!

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    1. Muito obrigado por estar a seguir estes relatos.

      Um resto de dia feliz e um bom fim-de-semana!

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  5. Bom fim de Semana de pandemia
    com alegria
    e saúde da boa pra vocês
    neste bom dia
    que se compõe José

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    1. Um bom fim-de-semana, também, para vocês, com alegria!

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