Novo ano
Mazelas da Guerra
Continuação
Novo Ano
O ano de 1970 começa com nuvens muito negras. Tinha chegado aos ouvidos do Comandante de Batalhão, de que, na nossa Companhia, tinham brincado com a religião
Punidos com 5 e 10 dias de prisão, para Capitão e Furriel Vagomestre, respetivamente, por terem brincado com a religião
Tiveram de abandonar a Companhia, tendo a substituição recaído, no caso do Capitão, na escolha de um Capitão já a caminhar para a reforma, que estava a poucos meses de acabar a comissão
Foi um grande choque, já nos tínhamos esquecido do que tinha acontecido
Penso que a escolha, daquele Capitão, teve a ver com o facto de dentro de poucos meses deixarmos aquele acampamento, para irmos para o centro de Angola
Ainda bem que escolheram um militar com muita experiência, porque a viagem, do Norte para Luanda, foi muito atribulada
Em Maquela do Zombo e na fronteira fazia-se muito contrabando
As lojas vendiam de tudo, desde porcelanas chinesas, toalhas de mesa bordadas, artesanato em madeira e marfim, até um sem número de outro objetos, que podíamos comprar, para oferecer às nossas mães, mulheres, namoradas
Não estávamos sensibilizados para o tráfico do marfim, nem para o extermínio dos elefantes, quase todos comprámos pulseiras em marfim, para além de outras peças em marfim e madeira, para oferecermos às nossas amadas
Poucos dias antes da Páscoa, recebemos ordens para nos prepararmos para seguir para Lunada. Sei que foi pela Páscoa, porque no domingo de Páscoa, fui com outros camaradas conhecer a bonita ilha do Mussulo, e comprámos uma melancia
Aproximava-se o dia da partida, tínhamos de levar tudo o que pertencia à Companhia, para isso tinham sido alugados 17 camiões civis
Feitas as contas ao combustível que deveríamos ter utilizado, tínhamos 1.000 litros de gasolina a mais, porque não fizemos tantas operações, quantos os relatórios, foram queimados
Depois de tudo estar carregado, partimos rumo a Maquela do Zombo, primeira paragem obrigatória
Mal parámos, fomos rodeados pela Pide, queriam ver as nossas malas, para verem se levava-mos contrabando
Mas, o Capitão não autorizou que abrissem nenhuma mala, dando ordem para seguirmos para Carmona, onde íamos almoçar
Chegados a Carmona, outra vez a Pide, para verem as malas
O Capitão, que já devia saber as que podiam ser abertas, autorizou que abrissem uma ou duas
Como, daquela cidade, tínhamos duas estradas para chegar a Lunda, uma considerada segura e outra onde poderíamos sofrer emboscadas, que foi a escolhida pelo Capitão, não sei se por ordem do Quartel-General
Assim, antes de irmos almoçar, avisou todos os condutores civis, por onde seguiríamos
Depois do almoço ficámos a saber que alguns condutores já tinham seguido pela outra estrada, fazendo com que o Capitão tivesse ficado muito preocupado, por ter deixado que a coluna se tivesse dividido em duas.
Continua
Mais uma vez, aplaudo a facilidade em colocar todos estes momentos em palavras, a capacidade de recordar nomes, situações e sentimentos dessa época. Muitos parabéns por tudo! Um dia lindo e feliz fim de semana 🙏🌻🌷
ResponderExcluirMuito obrigado pelas palavras encorajadoras!
ExcluirUm feliz dia e bom fim-de-semana!
É como se tivesses feito parte de um filme. Não temos ideia do que vocês passaram, isso é certo.
ResponderExcluirBom fim de semana.
Sim. Nós dizíamos que não era uma Companhia de Cavalaria, mas de Circo.
ExcluirNinguém sabe o que passámos, porque ninguém se interessa, começando pelos meus familiares.
Feliz fim-de-semana!
É impressionante como se lembra de todos os detalhes.
ResponderExcluirTudo o que conta parecem cenas de um filme.
Tenha um bom dia José
Foram momentos que ficaram para sempre.
ExcluirBom fim-de-semana
Cada vez mais admiro a tua coragem de nos mostrar tudo o que passaram na guerra.
ResponderExcluirBeijinhos José
Feliz Dia
Foram tempos que nos marcaram.
ExcluirBoa noite
Obrigado, por partilhar connosco estas suas experiências.
ResponderExcluirÉ muito importante que estas memórias não se percam.
Tenha um bom dia
Eu é que agradeço o interesse.
ExcluirFeliz fim-de-semana
Muito Obrigada, José!
ResponderExcluirÉ um privilégio poder ler estes seus relatos!
Bom fim-de-semana!
Muito obrigado pelo interesse.
ExcluirFeliz fim-de-semana
Acho muito interessantes estas descrições sobre a guerra colonial ou guerra do ultramar, relatados na primeira pessoa.
ResponderExcluirSuscitam-me questões, pois fui dos felizardos que já não vivi a guerra, pois ocorreu o “25 de Abril”.
“Mal parámos, fomos rodeados pela Pide, queriam ver as nossas malas, para verem se levávamos contrabando.”
A presença da PIDE era marcante na guerra? Isto é, fazia sentir a sua importância no dia-a-dia da guerra?
E, já agora, que posto ocupava e quantos anos tinha, quando esteve na guerra?
Desculpe a curiosidade e Obrigado!
A PIDE não só estava sempre presente, como treinava os Fechas, que erma indivíduos treinados para se infiltrarem nos acampamentos do inimigo.
ExcluirNos últimos dias de comissão, deixaram, no nosso refeitório, panfletos aliciando-nos para ingressarmos nos seus quadros, com a finalidade de darmos instruções aos flechas, com o aliciante vencimento de 8.000,00 escudos. Nenhum aceitou.
Era Furriel Miliciano e estive na guerra dos 24 aos 26 anos.
Muito Obrigado pelos seus esclarecimentos. E muita Saúde!
ExcluirMuito obrigado. Agradeço o interesse demonstrado.
ExcluirFeliz semana!
Olá José, que memórias tão vividas e contadas sem fantasias, numa narrativa crua que nos leva até essas paragens sem grande esforço, e que entretanto, nos faz questionar o que se passou a seguir. Não tinha noção que a PIDE também operava por aí. (aproveite e ponha no papel tudo isto, eu quero um autografado)
ResponderExcluirBeijinhos
Olá, Alice! Muito obrigado pelo seu apoio. Para já, ainda não penso nessa hipótese. Acho que as pessoas ainda não estão preparadas para saberem o que se passou.
ExcluirA PIDE estava em todo o lado, e em Angola treinava os Flechas, indivíduos treinados para se infiltrarem nos acampamentos do inimigo.
Boa semana
Beijinhos
Que magnífica partilha de momentos reais e inesquecíveis!
ResponderExcluirSem dúvida! Muito obrigado.
ExcluirBoa semana