A recompensa

Mazelas da guerra


 


Continuação


A recompensa


 


Passados 9 meses, estávamos, de novo, em Luanda


Quando chegámos, acompanhei o Capitão ao Quartel-General, onde nos aguardava um Brigadeiro


O Capitão fez-lhe continência e manteve-se em continência, enquanto ele falava, perguntava o que tinha sucedido ………..


O Capitão manteve-se quedo e mudo, até o Brigadeiro corresponder à continência


Como uma parte da tempestade já tinha passado, o Capitão justificou por que razão foi impossível controlar os condutores civis, tudo acabou em bem


Passámos alguns dias em Luanda, antes de seguirmos para os nossos novos destinos


Acabados os dias de férias em Luanda, saímos em direção ao novo paraíso, numa extensa coluna militar, desta vez, em direção ao Sul


Fomos distribuídos por quatro povoações. Ao meu pelotão coube a bonita Vila do Andulo, terra natal de Jonas Savimbi, líder da UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola


Não podíamos ter sido melhor recebidos, ainda não tínhamos autorização para sairmos das viaturas, já estas estavam rodeadas de civis, o inverso do que tinha acontecido no Norte


Ficámos instalados numa casa civil, nunca apagámos as luzes, porque a produção da barragem era superior ao consumo


Havia uma coabitação harmoniosa entre civis e militares. Eramos convidados para os bailaricos, aos sábados à tarde, na Sociedade Recreativa


O nosso mais famoso futebolista, que não pertencia ao meu pelotão, foi logo cobiçado por o clube de futebol, local. Mas havia um pequeno detalhe, não tinha concluído a quarta classe, tudo se resolveu com a conclusão e a sua inscrição na Federação


Fazíamos patrulhas ao nível de secção, numa das patrulhas vimos uma escola em funcionamento, construída em tijolo, muito arejada, não tinha janelas nem porta, a Professora foi muito amável para connosco, esforçou-se para que os alunos falassem em português, mas poucas palavras disseram


Numa outra patrulha encontrámos um comerciante, cuja camioneta estava atascada, e havia já umas boas horas que esperava que alguém passasse e o ajudasse. Com a ajuda de uma árvore, onde prendemos o guincho da nossa viatura, conseguimos que a camioneta voltasse a andar


Camaradas nossos, também em patrulha, foi-lhes pedido que transportassem uma grávida, cujo parto estava complicado, para uma Missão


Na povoação mais distante do nosso raio de ação, vivia um casal de madeirenses, que tinham um comércio, eram os únicos europeus da povoação. Gostavam muito das nossas visitas, pernoitávamos na casa deles, só nos pediam que lhes levássemos pão.


Um dia, quase ao fechar da loja, entrou uma senhora com um açafate cheio de grãos de café, pedindo que o pesassem.


Fiquei sem saber o verdadeiro objetivo, mas penso que quereria saber, quando trouxesse todo o café, os quilos que tinha a receber


Aquele casal comprava-lhes o que produziam ou pescavam e vendia-lhes o quisessem comprar, ainda lhes arranjavam alguns medicamentos. A povoação ficava perto do rio Quanza


Foram estes poucos e pequenos gestos de humanidade que, quanto a mim, deram alguma recompensação aos nossos sacrifícios


Tantas vidas perdidas, tantos recursos mal gastos, que ainda hoje estamos a sofrer as suas consequências


Aproximavam-se as férias, o mês de agosto na Metrópole, na companhia da filha e da mulher, depois de mais um ano sem as ver, o tempo parecia não passar


 Converter angulares em escudos era muito difícil, muitos queriam ter um pé-de-meia na Metrópole, podia-se converter 7.000,00 angulares em escudos, por cada viagem à Metrópole. Assim, abri a minha primeira conta bancária, no único Banco do Andulo, Banco Pinto & Sotto Mayor, que quando foi inaugurado, alguém conseguiu ler: “ branco, tinto e copo maior”, depositei 7.000 angulares e recebi 7.000,00 escudos, em Lisboa


À boleia do Andulo para Luanda, para apanhar o avião, para Lisboa.


Continua


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. E que beleza a Cidade de Luanda
    com a Baía iluminada
    pela estrada que a circunda
    e lá do alto mais acima
    no pouco que me lembro
    ficou em mim aquela obra prima

    Bom fim de Semana
    bom dia com alegria e esperança José.

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    1. Sem dúvida! A Baía de Lunda é linda. Havia um cinema ao ar livre de onde se via muito bem a Baía, de vez em quando tinha o olho esquerdo no écran e o direito na Baía.
      Obra prima!

      Bom fim-de-semana para vocês!

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  2. Interessante como tudo o que passamos na vida, nos traz coisas positivas que nos ensinam e nos ajudam a ser quem somos. Até uma guerra.
    Bom fim-de-semana

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    1. Sem dúvida! Nas guerras enfrentamos muitos perigos, que nos trazem muitas coisas negativas, mas também nos ensinam muito sobre o que podemos fazer de positivo, assim estejamos atentos e o queremos fazer.

      Feliz fim-de-semana!

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  3. A sua memória é prodigiosa, José!
    Grata por poder ler os seus relatos!
    Dia Feliz!

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    1. Eu é que agradeço o seu interesse!
      Quanto à memória, há passagens de que não me lembro nada.

      Feliz resto de dia!

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  4. Um relato mais bonito e muito humano.
    Gostei José

    Beijinhos
    Feliz Dia

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    1. Muito obrigado! Lá por andarmos com uma arma na mão, não deixamos de ser humanos.

      Resto de dia feliz
      Beijinhos

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  5. Recordo-me que quando o meu irmão enviava dinheiro de Moçambique, a depois de convertido o valor não era o mesmo que o escudo. Já lá vão muitos anos e nem sei em que moeda eram pagos os soldados em Moçambique. abraço e bom fim-de-semana
    P.S. é bom que recorde essa época...que felizmente acabou.

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    1. Cada Colónia tinha a sua moeda, penso que todas menos valiosas que o escudo.
      Também já não me lembro o nome da moeda de Moçambique.
      Nunca é de mais agradecermos, aos militares, terem acabado com as guerras.

      Também lhe desejo um bom fim-de-semana.

      Um abraço

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  6. Impressionante cada palavra, cada detalhe José.
    Apesar de tudo, todas as vivências tornaram o José na pessoa que é hoje.
    Aprendizagens, coisas positivas e negativas..vivências.

    Obrigada por isto.
    Um bom fim de semana

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    1. Muito obrigado.
      Sim!. Foi uma grande aprendizagem.

      Feliz fim-de-semana

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  7. Segundo me contou um familiar, que também fez a tropa em Angola e sempre me disse que Luanda era uma cidade linda.
    Mais um relato emocinante que gostei de ler.
    Boa noite José

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