Há 50 anos
Há 50 anos
A Lua não nasceu
A manhã não amanheceu
O Sol desapareceu
O país não dormiu
Desaguou no Cais da Rocha do Conde de Óbidos
O monstro estava atracado
Preso com grossas correntes
Com receio que fosse ao fundo
Com a ira daquela gente
Toda vestida de preto
Exceto os que iam embarcar
Os jovens não se queriam apartar
As mães apertavam os filhos, ao peito
Como se quisessem, de novo, esconde-los, no ventre!
Vinte anos a criá-los, para os perderem, para sempre
O monstro rugiu
O cais estremeceu
O Tejo encolheu
O Atlântico embraveceu
As mulheres olharam, para o céu
Desfaziam-se em lágrimas e gritos
Os seus filhos, maridos, irmãos, cunhados, sobrinhos, afilhados; afastaram-se
Os militares ocuparam os seus lugares
Para começarem a entrar, naquele que, para a morte, os ia levar
Não foram suficientes para o abarrotar
No dia seguinte aportou ao Funchal, na Ilha da Madeira
Também o Arquipélago da Madeira ficava sem a sua maior preciosidade
Os seus filhos!
Dali em diante, O Vera Cruz, estava em competição com a Apollo 11
Para ver quem chegava primeiro
Se ela à Lua, se ele a Luanda
Ela ganhou, por um dia.
José Silva Costa
Um belíssimo texto, José! :)
ResponderExcluirBom domingo!
Muito obrigado.
ExcluirBom resto de domingo!
Lembro-me de assistir a alguns embarques, não deste especificamente, morava perto do cais de Alcântara. Lembro.me de ir com os meus pais despedirmo-nos de um primo. 3 semanas depois de chegar à Guiné uma mina matou-o. Tinha 22 anos.
ResponderExcluirBela homenagem aos que foram e não voltaram.
Foram momentos de muito desespero
ExcluirDe uma guerra, que foi um erro!
Como são todas as guerras
Que não esqueço.
A guerra foi um erro e o modo como os combatentes foram tratados foi outro :-)
ExcluirA guerra era evitável, tanto mais que todas as potências coloniais, já tinham perdido as suas colónias.
ExcluirQuanto aos combatentes, basta ver o que está a acontecer ao soldado que perdeu as pernas, numa missão da ONU, que está sujeito a ser abandonado à sua sorte.
Hoje falo sobre isso... Sobre esse herói...
ExcluirJá o li. Muitos parabéns, pelo contributo, que deu, para que todos sejamos olhados como pessoas, em todas as circunstâncias, e não, apenas, quando os políticos acham que servem os seus interesses.
ExcluirOh José, que lindo tributo aos "nossos" que se foram, alguns para não mais voltar!
ResponderExcluirEste poema emocionou-me, porque em pequena via partir os "nossos" rapazes!!!
Gostei muito!
Uma Feliz Semana!
Não consegui conter as lágrimas, ao escrevê-lo. As guerras causam horrores, que nos levam ao desespero.
ExcluirBoa noite
O que o tempo surpreende
ResponderExcluirque recordar assim
só quem viu e entende
o brilho certeiro de escrever sem fim.
Parabéns José e boa Semana
Muito obrigado pelas suas sábias palavras.
ExcluirTodos devemos saber e estar alertados, para o horror que são as guerras, todas as guerras!
Boa semana
Uma competição muito injusta... :-\
ResponderExcluirFoi uma coincidência. O Vera Cruz saiu primeiro e chegou depois, ia muito carregado!
ExcluirVidas inúmeras que se perderam...
ResponderExcluirSentida homenagem!
Grande abraço.
Foi um horror! Mortos, estropiados e os que ficaram, para sempre, perturbados.
ExcluirUm abraço