Mimosas de carne aérea

Sete Motivos Do Corpo


V


Mocinhas gráceis, fungíveis


Mimosas de carne aérea


Que pela erecção dos centauros


Trepais como doida hera!


Por ardentes urdiduras


De Afrodite que abonais


Passais como queimaduras


E tudo em fogo deixais.


 


Ofegar de onda retida


Na ocupação epidérmica


De serdes a exactidão


Florida da primavera,


Todas de luz invadidas,


Sois, porém, as irreais


Bonecas de sol sumidas


No fulgor com que alumbrais.


 


Lá do fundo dos desejos


Chegais macias e quentes


Com violas nos cabelos


Nas ancas, quartos crescentes;


Nas pernas, esguios confeitos


Na frescura, o vermelhão


De uma alvorada que rompe


Em seios de requeijão.


 


Enleais, mas se enleadas,


Ó volúveis, ó felinas!


Saltais fazendo tinir


Risadas de turmalinas;


E com as asas do segredo


Que vos faz misteriosas


- Pois sendo divinas, sois


Do breve povo das rosas -,


Adejais de beijo em beijo


Já que para gerar assombros


Vicejam as folhas verdes


Que vos farfalham nos ombros.


 


Ó doçaria que em línguas


Acres sois torrões de mel,


Quando idoneamente ninfas


Vos vestis da vossa pele!


Se a olhares venéreos furtar-vos


Em roupas não vale a pena,


Pois mesmo vestidas estais


Nuinhas de graça plena,


De esbelta nudez plantai


Róseos calcanhares nos dias


Fugazes, não vá Vulcano


Levar-vos para sombras frias;


Não sequem os anos corpinhos


De aragem que os deuses sopram,


Que os anos são os malignos


Sinos que pela morte dobram.


 


Mocinhas fúteis que sois


Da vida as espumas altas


Leves de não vos pesar


O peso de terdes almas;


Que essa força de encantar,


Ó belas! cria, não pensa.


Ser perdidamente corpo


É a vossa transcendência.


 


( Natália Correia)


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Respostas
    1. Sem dúvida. Sete Motivos Do Corpo, um lindo poema, da grande poetisa, Natália Correia.
      Obrigado pelo comentário.

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