As estradas transformaram-se em granadas

A autoestrada para o Algarve


 


Aos três brasileiros, dois guineenses e um ucraniano, que faleceram na construção de um viaduto, no concelho de Almodôvar


 


Já Dezembro era entrado


Mais um ano quase acabado


Vindos de tão longe, desafiar o fado


Na auto-estrada, seu fim foi chegado.


 


Madrugada negra, no viaduto começado


Quatro da manhã, ferro e cimento


No escuro, surgiu o desabamento


Seis vidas ceifadas, num momento.


 


Trabalhar, de noite ou de dia


Ao vento ou à chuva fria


À procura de uma melhoria


Numa vida cheia de monotonia.


 


Viestes do Brasil, da Ucrânia e da Guiné


Com muitos projectos e muita fé


Procurar, em Portugal, melhor sorte


Mas aqui, encontrastes a morte.


 


A trinta e cinco metros de altura


Numa vida, muito, muito dura


Encontraram a sua sepultura


Numa noite muito fria e escura.


 


A construção da auto-estrada tem de seguir em frente


Ainda que esta venha a ser o cemitério de muita gente


Que aguarda a sua conclusão impacientemente


Porque anseia chegar, depressa, ao Algarve, quente.

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