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Quingentésimo ano (152)

O filho de Latona esclarecido, Que com seu raio alegra a humana gente, Matar pôde a Phytonica serpente Que mortes mil havia produzido. Ferio com arco, e de arco foi ferido, Com ponta aguda de ouro reluzente: Nas Thessalicas praias docemente Por a nympha Penea andou perdido. Não lhe pôde valer contra seu dano Saber, nem diligencias, nem respeito De quanto era celeste e soberano. Pois se hum deos nunca vio nem hum engano De quem era tão pouco em seu respeito, Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano? Luís de Camões

Quingentésimo ano (151)

O culto divinal se celebrava No templo donde toda criatura Louva o Feitor divino, que a feitura Com seu sagrado sangue restaurava. Amor alli, que o tempo me aguardava Onde a vontade tinha mais segura, Com huma rara e angelica figura A vista da razão me salteava. Eu crendo que o lugar me defendia De seu livre costume, não sabendo Que nenhum confiado lhe fugia; Deixei-me captivar: mas hoje vendo, Senhora, que por vosso me queria, Do tempo que fui livre me arrependo. Luís de Camões

O Império

O Império  -  As teias que o Império teceu 62   A Marina, a filha mais nova do Governador, era uma rapariga muito inteligente, frequentava uma escola, onde estudavam os filhos da elite de Luanda Sonhava ir estudar para a Universidade de Coimbra, mas não queria ir sozinha. Assim, o seu plano era ir com o namorado, para a Metrópole Dias depois, o pai pediu-lhe para levar, lá a casa, o namorado, queria conhecê-lo e fazer-lhe algumas perguntas Ficou muito contente, sabia que o namorado iria impressionar o seu pai O Governador perguntou-lhe por que razão estava apaixonado pela sua filha Roberto respondeu-lhe que estava apaixonado pela Marina, por ser uma rapariga muito bonita e muito inteligente Depois, quis saber o que fazia ou o que queria fazer, o jovem disse-lhe que ainda não trabalhava, que queria estudar, que a Marina o estava a ensinar a ler e escrever É ótimo, que queiras saber ler e escrever, respondeu o pai da jovem, porque eu não quero genros, que sejam analfabetos Mas, para apre...

Quingentésimo ano (150)

O cysne quando sente ser chegada A hora que põe termo á sua vida, Harmonia maior, com voz sentida, Levanta por a praia inhabitada. Deseja lograr vida prolongada, E della está chorando a despedida: Com grande saudade da partida, Celebra o triste fim desta jornada. Assi, Senhora minha, quando eu via O triste fim que davão meus amores, Estando posto ja no extremo fio; Com mais suave accento de harmonia Descantei por os vossos desfavores La vuestra falsa fe, y el amor mio. Luís de Camões

Quingentésimo ano (149)

Num tão alto lugar, de tanto preço, este meu pensamento posto vejo, que desfalece nele inda o desejo, vendo quanto por mim o desmereço. Quando esta tal baixeza em mim conheço, acho que cuidar nele é grão despejo, e que morrer por ele me é sobejo e mor bem para mim do que mereço. O mais que natural merecimento de quem me causa um mal tão duro e forte o faz que vá crecendo de hora em hora. Mas eu não deixarei meu pensamento, porque, inda que este mal me causa a morte, un bel morir tutta la vita onora. Luís de Camões

Quingentésimo ano (148)

N'hum bosque, que das Nymphas se habitava, Sibella, Nympha linda, andava hum dia; E subida em huma árvore sombria, As amarellas flores apanhava. Cupido, que alli sempre costumava A vir passar a sésta á sombra fria, Em hum ramo arco e settas, que trazia, Antes que adormecesse, pendurava A Nympha, como idoneo tempo víra Para tamanha empresa, não dilata; Mas com as armas foge ao moço esquivo. As settas traz nos olhos, com que tira. Ó Pastores! fugi, que a todos mata, Senão a mim, que de matar-me vivo. Luís de Camões

Quingentésimo ano (147)

Nos braços de hum Sylvano adormecendo Se estava aquella Nympha qu'eu adoro, Pagando com a boca o doce foro, Com que os meus olhos foi escurecendo. Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo Que a maior formosura do teu côro Em hum poder tão vil perca o decoro Que o merito maior lhe está devendo? Eu levarei daqui por presupposto Desta nova estranheza que fizeste, Que em ti não póde haver cousa segura. Que, pois o claro lume, o bello rosto Áquelle monstro tão disforme déste, Não creio qu'haja Amor, senão Ventura. Luís de Camões