Vidas! (19)

Vidas!


Continuação (19)


O anterior regime tentou esconder as tragédias, que aconteceram, principalmente nos anos sessenta do século XX. Uma grande tragédia foi o desabamento de uma das Coberturas da Gare da Estação Ferroviária do Cais do Sodré, na linha férrea de Cascais, que aconteceu a 28 de Maio de 1963, no dia do trigésimo sétimo aniversário do golpe de Estado de 1926, que deu origem ao regime do Estado Novo. O Governo negou ter sido um atentado, tendo retirado, ao construtor, o alvará de obras Públicas, por defeito na construção, fazendo com que a firma tenha falido cinco dias depois. Mas, ficou a dúvida, se não teria sido um atentado. Decorria o funeral do Escritor Aquilino Ribeiro. Esta tragédia causou 49 mortos e 61 feridos


No ano letivo seguinte, o José continuou a estudar na Escola Académica. Voltou a inscrever-se, para fazer exame como aluno externo, no mesmo Liceu, mas foi transferido para o Liceu Camões, que era considerado um dos mais exigentes. Ficou aprovado, já podia ir para o curso de Sargentos Milicianos


Assim que soube do resultado, mal saiu do Liceu, entrou na cabine telefónica, existente na via pública, para dar a novidade à namorada. Já tinham o casamento marcado para Setembro, autorizado pelos respetivos pais, por só terem vinte anos


Alugaram um quarto na Rua da Imprensa à Estrela, situada por detrás do Palácio de São Bento, por uma renda de quatrocentos escudos mensais, por mobiliar. O patrão, do José, ofereceu-lhe a cama e as mesas-de-cabeceira. Compraram uma pequena mesa retangular, com uma gaveta para os talheres e espaço para guardar os pratos e os tachos, e dois bancos, um rádio e a máquina de escrever completavam a mobília


  Naquela casa já viviam a dona da casa, com uma filha e um filho, maiores de idade, e outro casal com um bebé. Por cima, no primeiro andar, vivia o saudoso maestro José Atalaya, que nos deixou recentemente. Todas as noites adormeciam ao som dos seus ensaios   


Voltou a matricular-se na Escola Académica, para fazer o segundo ciclo liceal. Teve a sorte de ter três professores excecionais: o de português, um camoniano, que andava a elaborar um dicionário de “ Os Lusíadas”, O professor de ciências, que tinha o programa gravado na memória, obrigando-os a escreverem o que ele ditava, a grande velocidade, alegando que, como não tinham tempo para estudar, aquela era a melhor maneira de aprenderem qualquer coisa. Mas, havia uns indisciplinados, que o interrompiam, para fazerem perguntas, que poderiam ficar para o fim da aula, obrigando-o a ter de rebobinar ate chegar ao que estava a ditar. Depois do 25 de Abril, foi à televisão explicar como se distinguia o bacalhau do pixilim. O de matemática, que conseguia fazer com que as enormes expressões algébricas deixassem de ser um bicho-de-sete cabeças. Defendia a utilização da Televisão, para reduzir a enorme taxa de analfabetos. Aquando da apresentação disse que estava disponível, aos sábados à tarde e nas manhãs de domingo, para tirar todas as dúvidas, aos que quisessem e pudessem aproveitar


Nesse ano não fez nenhuma disciplina. Mas, ficou o fermento para quando saísse da tropa, para onde foi, pouco depois do ano escolar acabar. A mulher voltou para a casa dos pais. Aos vinte sete meses de casados nasceu a primeira filha


O ter conseguido subir um degrau no ascensor social, fez com que conseguisse cumprir o Serviço Militar, na classe de Sargento, que para além do estatuto, contribui-o para que, a parte do vencimento que podia ser recebida na Metrópole, cerca de 90 mil escudos durante a comissão, desse para remodelar a velhinha casa, que o sogro tinha feito, sem casa de banho, sem água canalizada, nem eletricidade. Havia, apenas, uma torneira no quintal. Mas, mesmo assim, o dinheiro não deu para ligar a eletricidade do poste exterior para dentro de casa: 7.500 escudos, pagos com os últimos ordenados da tropa. A esposa teve de fazer de servente, muito tendo trabalhado, para ter uma casa com comodidades e dar ao marido, ainda mais alegria à sua chegada. Quando lhe perguntou do que é que ele tinha gostado mais, a resposta foi: “a casa de banho”


Aqueles que nascem, onde já há todas as condições, não sabem dar valor ao que é subir a vida a pulso.


Ainda há pessoas que se questionam se vale a pena estudar! Sem dúvida, que vale a pena estudar, mesmo que não contribua para uma melhoria material, o ganho pessoal, não há dinheiro que o pague. Assim, devemos investir tudo o que podermos na educação dos filhos ou netos, porque é um investimento que não podem vender nem hipotecar, só o podem usar


Quando regressou da guerra, o José continuou a estudar. A mulher atou-o ao mar, e ele não se quer libertar. Ainda trabalhou, perto de casa, ano e meio, mas arranjou trabalho em Lisboa, a ganhar quase o dobro, o que fez com que se tenha sacrificado a perder quatro horas, por dia, em transportes, por mais quase trinta anos


Viver nove anos em Lisboa, foi um grande privilégio, porque tinha tudo à mão: cinemas, teatros, museus, jardins ……………


Quem estiver interessado em saber mais, sobre a vida militar dele, pode fazê-lo em: https://socieadeperfeita.blogs.sapo.pt -  Mazelas


    


José Silva Costa


 


 


 


     


 

Comentários

  1. É o fim de "Mazelas?
    Foi muito bom ler estes relatos, esta história da vida real que muitos (por nao terem idade) não faziam ideia que assim era.
    Eu tenho uma ideia, porque a vida dos meus pais foi quase isso.
    Esperamos pelos próximos escritos.

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    1. "Mazelas" foi o que escrevi sobre a vida militar. Foi o fim de "Vidas"

      Muito obrigado pelas visitas.

      Bom fim-de-semana!

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    2. apesar de o saber, escrevi Mazelas.
      E foi mesmo o fim.

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  2. Um bom retrato do tempo
    onde por assim dizer
    já havia oportunidades

    Bom fim de Semana alegre
    mas com alegria da boa
    e saudável pra vocês José.

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    1. Oportunidades havia, com sempre, era preciso aproveitá-las.
      Bom fim-de-semana, para vocês, com saúde e alegria.

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  3. Muita coisa mudou a nível político e social.
    Revejo alguns aspectos que coincidem com a vida dos meus pais.
    O José sempre a progredir e a nunca ficar parado.

    Beijinhos José

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    1. Sem dúvida, muita coisa mudou.

      Bom fim-de-semana, Manu!
      Beijinhos

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  4. Que lutador o teu José
    "Aqueles que nascem, onde já há todas as condições, não sabem dar valor ao que é subir a vida a pulso." - tão verdade José.

    Beijinhos
    Resto de Dia Feliz

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  5. Grata pela partilha, José! :))
    Boa noite!

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  6. Mesmo de longe não perco a crónica.
    Houve também o terramoto e a grande cheia. Esta com batota nos números oficiais
    Um abraço.

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    1. Grato pela visita! Muito obrigado, por recordar que, infelizmente, houve outras tragédias.
      Um abraço.

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  7. Adorei toda esta narrativa, que parece terminar. Incrível, o meu amigo tem.uma facilidade gigante em recordar factos e colocá-los em palavras. É uma pessoa muito digna e de muita força! Muitos beijinhos, querido José, um lindo sábado!

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    1. Fico muito contente por teres gostado. As tuas lindas e encorajadoras palavras fazem com que tente fazer melhor. Muito obrigado, querida Sandra!
      Também te desejo um lindo sábado!
      Muitos beijinhos.

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  8. Então, este capítulo encerra Vida(s)?
    Lembro-me de ouvir falar, na época, sobre a queda da "pala" no Cais do Sodré.
    Interessante a hipótese de que pudesse ter sido atentado e também ter ocorrido no dia do funeral de Aquilino Ribeiro.
    Votos de muita saúde e continuação das suas narrativas da Vida.

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    1. Grato, pela visita e pelas amáveis palavras. Há coincidência inexplicáveis.

      Bom domingo, com muita saúde.

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  9. Grato, José. Pelas memórias mas, sobretudo, pela partilha de vida!
    Um grande abraço!

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    1. Eu que agradeço a leitura destas memórias!
      Boa semana.

      Um abraço!

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